“Tudo de camarões sólidos, amarelos, cósmicos; inspiro as ventilações surdas, as varizes épicas, a toalha rente, a empada covarde. Mexiricas na pacuera.” Surrealismo é fácil; difícil é cortar as unhas dos pés.

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Eu sou um ítalo-luso-franco-brasileiro de ascendência semítico-germano-tupi. Sou o garoto cadinho de raças que o Roberto falou.

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“Votando em mim, eu vou estar em Brasília e vou estar, na realidade, fazendo o coisa da vida de nosso Brasil a nossa vida, o nosso momento, o nosso coisa que nós temos. Para deputado federal, Tiririca. Vote no abestado.” A semântica do Lula com a sintaxe do Dilmão: Tiririca, a síntese política nacional.

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O voto no Tiririca é como o voto num animal agonizante: está entre o protesto, a piedade e a desilusão.

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Eu achava que trollagem tinha a ver com sexo e falta de banho.

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É linda uma terra onde um assassino esquartejador tem um nome poético e sensível como Gilliard. Daqui a pouquinho vai ser a hora dos filhos dos hippies, gente com nome tipo Sol Hallellujah, sair incendiando berçários.

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Primeiro o ethos, depois o pathos, agora os chathos.

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Eu tenho um personal magro morando dentro do meu corpo.

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Sempre que vejo propaganda com mulher olhando laptop e sorrindo me pergunto se ela está no Youtube vendo uma girafa ser esquartejada.

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Martinho da Vila tem uma filosofia de vida, ora, ora. Mudou a filosofia, ou mudou o Martinho?

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“Bom diiiia, sêo Plínho”, diz a empregada abrindo as cortinas, sem notar o penico cheio de dialética amarela que voa em sua direção.

A lição mais dura que recebi, quando me meti com esse negócio de escrever, foi a de atentar para o significado das palavras; foi a de não dar uma de Humpty Dumpty. Aprender a usá-las para o que servem, não para o que eu gostaria que servissem.

Dura lição, muito fácil de esquecer.

“Noto que o senhor está ocupado”, me disse o homem vestido humildemente, com uma pastinha surrada sob o braço. Não foi nenhum prodígio de percepção da parte dele: uma mangueira jorrava água enquanto eu me debatia com uma vassoura e um chão ensaboado. “De fato”, respondi, sem interromper o trabalho de lavar a área da frente da minha casa.

“O senhor permite que eu lhe deixe um folheto?”

“Esteja à vontade.”

As mãos e a voz dele tremiam. Não fui capaz de perceber ao certo se ele seria doente,ou se estava começando agora nesse serviço evangelizador de dar folhetos de porta em porta. Enquanto as mãos trementes tinham dificuldade de tirar o folheto de dentro da pasta, a voz trêmula dizia: “O senhor, como todos nós, já perdeu um ente querido. Muitas vezes nós nos perguntamos o que aguarda nossos amados que morrem.”

“O seu folheto responde a essa pergunta.” Afirmei, não perguntei.

“Sob a ótica da Bíblia, sim.”

Recebi o folheto e, diante do olhar desaprovador dele, o enfiei no bolso da bermuda. Não por desrespeito; é que eu temia mais pelo meu futuro, se minha mulher chegasse do trabalho e visse a área suja, que pelo destino dos meus mortos.

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Isso foi hoje de manhã. O folheto, que resolvi que seria decente da minha parte pelo menos olhar, mostra na frente uma menina com um cesto de flores diante de uma lápide e o texto: “Que esperança há para entes queridos falecidos?”. Não avancei na leitura.

A vida – estou lembrando da voz de alguém – é mais comprida que a arte. Ontem mesmo eu estava perambulando entre meus mortos. Não apenas pessoas, mas também lugares e tempos. Fui apresentar a quem me acompanhava alguns pitorescos escombros, algumas herbosas ruínas da minha vida de menino e de rapaz. Passeamos pelos nomes de tantos defuntos, e diante de tantos lugares inexistentes, que a certa altura pedi-lhe que me beliscasse, temendo ser já tão irreal quanto as coisas que lhe dizia e lhe mostrava.

A vida que vai morrendo mesmo enquanto acontece.

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Uma das coisas que fui fazer foi mandar rezar uma missa pelos meus mortos – contei doze nomes, gente do meu sangue apenas – e acender uma vela pelo meu pai na igreja de Santo Antônio do Pari. É o atrasado pagamento de um favor, no further information.

Talvez o fato de ter companhia tenha suavizado uma ou duas reflexões amargas, um início de tristeza, umas pontadas de dor. A memória não cala sua boca: vai apontando as coisas que deveriam estar onde estão outras, mostrando lugares por onde andamos com nossas mãos dadas a mãos que não são mais, percebe cheiros perdidos onde os aromas agora são outros. Deve ser como a natureza, a memória, incapaz de saber se o que faz é bom ou mau: só faz.

Apontei os lugares com os quais sonho recorrentemente, nos quais é sempre noite, em que sempre ando desassossegado, e onde me esperam pessoas sozinhas. Acho que não fui capaz de dizer competentemente o quanto esses sonhos me angustiam. Minha companhia disse esperar que a vela, a missa, os façam cessar; duvidei. Duvido.

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Diante de grades fechadas e de um cartaz pedindo donativos, olhamos no chão bruto um sino enorme enegrecido pelo fogo de um incêndio. Acima dele, a torre nua não tem escadas: não há meio de subir aquele sino, que, de todo modo, talvez não sirva mais para anunciar as vésperas.

Acho que apertei com mais força a mão que eu segurava, com um certo susto. Porque até a parte da minha vida que se mantém também se desfaz diante dos meus olhos.

Isto está abandonado, hein. Culpa do twitter e de suas facilidades: ele deixa que meus talks sejam, além de silly, instantâneos. Mas vamos devagarinho, devagarinho, retomando as actividades.

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Julie London era bonita e gostosa e talvez (não sei) até boa atriz. No entanto, o que fazia dela um tesão de derreter é como e o que cantava. Abaixo, a chapa da moça, que se diz capaz de chorar rios pelo sujeito:

Aqui, ela dá tchauzinho ao passo-preto. Reparem na cortesia do começo, e, oh, em tudo o mais:

Não sei o nome desse afortunado baixista. Viram como ela canta o “bye-bye”? E, por fim, vejam-na pedindo pro cara ir na manha:

No further comments.

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Talvez eu não devesse dizer, mas uma das razões que vêm me mantendo longe daqui, Twitter à parte, é que, oh, hum, parece que comecei a escrever algo a sério. Mais detalhes, se os houver, no futuro.

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Eu gosto bastante de Julian Barnes, que é um desses escritores cuja prosa, despretensiosa e clara, nem sempre é memorável, mas que nos entretêm com inteligência e algum humor e bom gosto. Ele me lembra os bons amigos das conversas civilizadas e dos risos claros. Dele peguei, e vos venho recomendar, “Nada a temer”, Nothing to be frightened of, que é uma reflexão leiga, atéia, sensível e inteligente sobre a morte. Sem surpresa nenhuma descubro no texto um monte de reflexões que venho fazendo sobre isso. Talvez a o elegante e divertido parágrafo de abertura lhes dê uma idéia do tom do livro, cujo peso se dissipa em parte nessa leveza:

“Não acredito em Deus, mas sinto falta d’Ele. É isso o que eu digo quando essa questão é abordada. Perguntei ao meu irmão, que ensinou filosofia em Oxford, em Genebra e na Sorbonne, o que ele achava dessa declaração, sem dizer que era minha. Ele respondeu com uma única palavra: ‘Piegas’”.

Pois sim, meu caro Julian, eu também sou piegas segundo os padrões pesados de Oxford, Genebra, Sorbonne. Não é, nem de longe, o pior que nos podia acontecer, é?

Na porta do guarda-roupa, hein.

…fez quinze anos e se auto-retratou.

Daqui a pouco tô tendo que matar uns caras.

– Hoje eu estava arrasando nas profissões no stop.

– Dê exemplo.

– Profissão com c: catador de latinhas.

– Boa.

– Profissão com f: frentista de posto de gasolina.

– Legal.

– Profissão com g: go-go boy.

– Ô meu, você sabe o que é go-go boy?

– É aquele cara que põe sunguinha e fica dançando.

– É prostituto.

Go-go boy é quem dança. Prostituto é o Zé Ramalho.

Touché.

Dizer que um certo artista fulano é “um dos mais destacados no cenário da vídeoarte” é dar como certas pelo menos três coisas: 1) que existe um troço chamado vídeoarte; 2) que, em existindo, esse troço tem um, ahn, “cenário”; e 3) que alguém se destaque nesse cenário (o que é até possível).

Como sei que há um mundo externo à minha consciência – um mundo ignorável na maior parte do tempo, mas mundo -, estou pronto a admitir que exista um troço chamado “vídeoarte”, e que esse troço tenha cenários, e que neles haja gente que se destaque.

Eu só quero que se danem.

* * *

No meu mundo interno, talvez o Haiti não existisse até a semana passada. Caetano Veloso existe, muito contra o meu gosto, e canta nalgum lugar da minha consciência que o Haiti é e não é aqui (Caetano Veloso, reparem, deixa sempre todas as portas abertas, não importa o quão puto ou indignado pareça). Isso era todo o meu Haiti: um verso vagabundo e sem sentido da MPB.

Agora, porém, o Haiti existe, e é na forma de horror. Horror ainda maior do que o que cotidianamente já é. Para quem, como eu, é viciado em palavras, o que há a dizer é o que li de alguém, que não lembro mais quem seja, no Twitter:

“O que é que Deus tem contra o Haiti?”

Eu também não sei.

* * *

Hoje o mood é de Roberta Flack, se lhes agrada:

How many loved your moments of glad grace
And loved your beauty with love false or true;
But one man loved the pilgrim soul in you,
And loved the sorrows of your changing face.

Em 1972, São Paulo era para mim “a cidade”, o centro velho. Saíamos a pé da Maria Marcolina, no Brás, aos domingos, cerca de oito e meia da manhã. Íamos a pé. Kinema. Subíamos a Rangel Pestana, passando pelas porteiras, e logo à esquerda havia o Cine Piratininga, “a maior sala do Brasil” (hoje é um estacionamento). Antes, no Largo da Concórdia, à nossa direita ficava o Teatro Colombo, no mesmo lugar em que hoje se ergue a Caixa Econômica; e a uma quadra, na Firmino Whitaker, esquina com Saião Lobato, o cine-teatro Oberdan (onde Bill Halley e seus cometas tocaram numa tarde de sábado, nos anos 50, e a platéia ainda achou forças para quebrar umas cadeiras; hoje é uma loja da Zelo).

Se a gente descesse a Celso Garcia no sentido do Belenzinho, teríamos a cinelândia do Brás diante de nós. Em frente à Pirani (falida em 1972 – em 1989 ainda havia, pendurado numa parede, um anúncio de “baralhos a Cr$ 3,00”) havia o Fontana, quatro salas com a melhor programação de kung-fu e putaria (hoje um pedaço é igreja, outro é shopping de outlets com barbearias e outras besteiras). Na mesma calçada da Pirani, quase esquina com a Bresser, havia o Cine Universo, onde vi com a minha mãe, num sábado aterrorizante, “Marcelino Pão e Vinho”, e depois o primeiro Super-Homem. Mas antes do Universo, na esquina da Carlos Botelho com a Costa Valente, havia o cine-teatro onde era gravado o “Astros do Ringue”, cujo nome eu nunca soube, e do qual resta, além de um suntuoso balcão externo, uma lira estilizada no telhado. É um belo posto de gasolina.

Passando a Bresser, e do outro lado da avenida, estava o Cine Roxy. Hoje é a sede da Universal, que aproveitou e arrasou todo o lado esquerdo do quarteirão para fazer uma coisa que devia ser igreja e parece um cassino. E no quarteirão seguinte, esquina com João Boemer, havia o infausto Cine Brás, que tem lugar de proeminência nas minhas futuras memórias pornográficas e que, depois de cinema, foi casa noturna e bailão. Hoje parece ser armazém de muamba.

Mas nós não descíamos a Celso Garcia, e sim subíamos a Rangel, pra “cidade”. Passando a Praça Clóvis, geralmente entrávamos na Roberto Simonsen onde, quase esquina com a Venceslau Brás, do ladinho mesmo do Solar da Marquesa, havia um cinema cujo nome também não lembro, e que também foi transformado em estacionamento. Dali contornávamos a Sé e havia duas opções: Rua Direita, com o Viaduto do Chá, ou XV de Novembro, passando ao lado do Martinelli. Se o domingo fosse sem pressa, descíamos a Direita, passávamos pela Praça do Patriarca, ganhávamos o Chá e entrávamos pela Barão de Itapetininga, onde havia o Cine Barão, na mesma galeria que abrigou a saudosa Wop Bop Discos (já não há mais nenhum dos dois). Se, porém, escolhêssemos atravessar o Anhangabaú sobre o Buraco do Adhemar, teríamos quase de frente pra nós o Cine Cairo (em cuja passarela, no quarto centenário, vários hollywoodianos de sucesso desfilaram, e que passa hoje o trivial variado do sexo explícito) e, já na São João, quase em frente aos correios, teríamos à nossa esquerda o Cine Saci (mesma programação). Ainda não havia as salas dos cines Avenida e Las Vegas, rebentos recentes do sexo e que hoje lá estão, exibindo o vigor possível.

Então cruzávamos pelo Largo do Payçandú e, esticando o pescoço, víamos à direita o suntuoso saguão aberto do Cine Paysandu (escrito erradamente, e que hoje é um bingo). À esquerda, estavam, pela ordem, o Art Palácio (sexo explícito), a saída das três salas do Olido (que ainda resiste) e, passando a Dom José de Barros, o Ritz, com seu salãozinho turco (ou de chá, com cadeirinhas de ferro – fechado e para alugar). Na Dom José, só alguns metros pra cima, havia e há o Cine Dom José (onde, numa inesquecível semana santa em 1983, havia três cartazes de filmes – à direita, “As C… de C… Que Dão O C…”; à esquerda, “Pervertidas e Depravadas”; e, no meio, a “Paixão de Cristo”).

Depois atravessávamos a Esquina do Caetano tendo à nossa esquerda, e no mesmo quarteirão, o Cine Regina, o Ipiranga (fechado) com suas duas salas, o Marabá, com sua imensidão e o balcão (que hoje está fechado), e o Cine República (sexo explícito). Se a gente seguisse mais pra frente, tinha chance de ir parar no Cine Copan, em forma de anfiteatro e que hoje abriga mais uma igreja (não sem antes passar pelo Cine São Luiz, escondidinho naquela galeria que dá na Praça Dom José Gaspar – fechado). Ou, se contornássemos a Praça da República e descêssemos a Vieira de Carvalho, sairíamos no Largo do Arouche, bem perto do Cine Arouche onde, no inverno de 1990, acompanhado por um LP do Sam Cooke, vi o “Cinema Paradiso” pensando nela e chorando (hoje, é boate de strip-tease). Mas não; nós seguíamos a São João no rumo do cine Metro e sua matinée com Tom & Jerry e Pato Donald.

Podíamos continuar andando pela avenida e ver, mais à frente, o Cinespacial, redondo e com quatro telas (fechado), e depois o Comodoro, com sua tela de Cinerama (fechado). Mas não íamos. Ficávamos no Metro (que hoje também é igreja), sem pipoca nem refrigerante (e sem nem pensar nisso). Eu era menino de 5 anos, fitava vidrado a tela onde o gato levava pauladas estrondosas e gritava escandalosamente, sentindo a dor do bicho e esperando meu pai rir pra rir depois. Meu pai, um sisudo senhor italiano que acreditava nas ruas e ia de paletó a uma matinée dominical. Que começava por volta das dez, então era a conta certa de um homem de cinqüenta e dois anos e um menino de cinco andando uma hora e meia por avenidas e ladeiras.

Se fôssemos à avenida da Liberdade, chegaríamos ao Cine Niterói, onde passavam todas as produções japonesas que importavam (e todas as que não importavam também – fechado). Ou na R. Silva, ver o prédio neoclássico do Cine Liberdade (que é uma espécie de loja de cosméticos). Mas era raro irmos lá; íamos mais ao Pari, esquina da João Teodoro com a Avenida Vauthier, onde havia o Cine Rialto (na esquina diametralmente oposta funcionou, anos depois, O Templo, boate punk da primeira hora). No Rialto vi, em 77, com o Pedro, “Guerra nas Estrelas”, e alguma coisa do Mazzaropi com minha mãe, um que tinha aquela música sertaneja que rezava assim: “Nestes versos tão singelos / minha bela, meu amor, / vou cantar para você / o meu sofrer, a minha dor / Eu sou como o sabiá / quando canta é só tristeza / Dá vontade de chorar”. Dava mesmo, e o povo chorava direitinho. De cinema o Rialto virou casa de danças do Zé Bettio, forró, e finalmente loja de pneus. Hoje não sei mais o que é.

Minha cidade é cruel. Há dúvidas de que seja mesmo uma cidade, e não prédios e ruas que brotam a esmo e estão perenemente de costas uns pros outros, esquecidos, isolados, sem relações. Ruas que não se falam, prédios que não se bicam, caminhos mudos. Deve ser uma besteira a gente se entristecer com a morte de um cinema, com a desaparição de uma sala escura onde apertamos um peitinho, onde roubamos um beijo de língua e depois saímos à rua, todos cheios, quase gritando “eu beijei uma mulher”, ou onde simplesmente ficamos de cabeças encostadas chupando balas Van Melle. Tudo muda na cidade cruel sem mais lamentações. As casas em que nascemos viram pó; as escolas se transformam em lojas, as lojas em prédios, os prédios em nada. Andamos por ruas quase escuras que na verdade não conhecemos, e que não nos conhecem.

Tudo se move na cidade cruel. Nós nos movemos. Kinema.

P. S.: isto é de 2001. Na geografia, algumas coisas mudaram.

Não vou dizer que me lembro onde estava há vinte anos e um dia, quando derrubaram o muro de Berlim. Lembro apenas que era uma coisa esperada – perestroika, glasnost, Gorbachev eram palavras muito ouvidas então – e via as cenas pela televisão no espírito de “bem, aconteceu o inevitável”.

Era inevitável. Ficávamos sabendo que ocasionalmente algumas pessoas fugiam para o comunismo – geralmente espiões ou traidores, ou então o Ziraldo indo colher cana em Cuba. E víamos milhares fugindo do comunismo. Gente fuzilada pulando o muro, ou empilhada em balsas-cadillacs rumo à Flórida. Era por isso que era preciso murar ou ilhar o comunismo onde ele estivesse perto de qualquer outra coisa: porque qualquer outra coisa acabava parecendo melhor, fosse um tiro na testa atrás de coca-cola, fosse a perspectiva de dançar com tubarões.

Depois dessa débâcle ouvi muita gente dizendo que o comunismo não era aquilo, não era aqueles países que se assemelhavam a campos de concentração geridos por sistemas organizados de delação e extermínio, onde os ungidos do povo não eram ungidos pelo povo e viviam de um jeito que daria vergonha a Luís XVI: aquilo era uma distorção maligna do paraíso proletário almejado, o verdadeiro comunismo ainda estava por vir.

Nunca acreditei. O melhor governo é aquele que se mete o menos possível na vida das pessoas e não lhes diz em que dias da semana pode comer manteiga ou tomar banhos de mais de três minutos, nem as convida a cagüetar o vizinho que resmunga contra o governo.

O melhor é deixar a turma em paz. Você pode até murá-los por uns anos, mas não tem jeito: uma hora se enfezam e derrubam tudo. E vão, muito inconscientes, comprar discos da Madonna, comer hambúrguer e usar tênis de cores berrantes. Coisas tristes que as pessoas se dispõem a fazer só porque podem.

O pesadelo da história