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“Não houve nenhum fato determinado. Nenhuma decepção específica. Foi uma questão de reflexão, de experiência de vida, de as coisas irem acontecendo.”

As palavras acima são de Ferreira Gullar, na VEJA desta semana, e são a explicação que ele dá para sua defecção do comunismo. Substituindo a palavra decepção por revelação, servem muito bem para explicar também minha mudança do ateísmo para o agnosticismo e deste para o catolicismo. Nenhum fato determinado, nenhuma revelação específica, muita reflexão e muita atenção ao mundo, aos homens, às coisas, aos modos e às palavras.

Não sei se essa maneira de conversão, de periagoge, é comum. Foi a minha. Amigos se espantam quando digo que Deus faz sentido. Não estranho: não faz muito tempo que eu mesmo me espantava. Hoje me espanta muito mais a arrogância com que eu tratava uma coisa sobre a qual eu sabia pouco, quase nada; como aderia irrefletidamente a “opiniões” fundamentadas nessa mesma ignorância; e como desprezava um pensamento cuja profundidade me escapava. Me espanta e horroriza o que eu tinha de comum achando, bobo, que era incomum. Deploro a preguiça de pensar que me levou a ser assim, que fez com que eu me acomodasse ao que vai pelo mundo em vez de procurar o que fizesse sentido.

É, em todo caso, muito cedo para dizer que me corrigi. Há vícios que aderem e há vícios que nos formam – destes últimos, tenho demais. Mas, como se recomenda, oro et, conforme consigo, laboro.

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Se alguma vez aquela espécie mais rara de amor romântico, que foi a verdade sustentada pelos trovadores, sair de moda e for tratada como uma ficção, poderemos ver alguma incompreensão como a do mundo moderno acerca do ascetismo. Pois parece concebível que alguns bárbaros tentem destruir o cavalheirismo no amor, assim como os bárbaros que governavam em Berlim destruíram a cavalaria na guerra. Se isso acontecer, teremos a mesma espécie de zombarias sem inteligência e questões sem imaginação.  Os homens perguntarão qual foi aquela espécie de mulher egoísta que exigia tributos em forma de flores ou que criatura avarenta ela deve ter sido para exigir ouro sólido na forma de um anel, assim como perguntam que tipo de Deus cruel exigiria o sacrifício e a autonegação. Terão perdido o indício de tudo o que os amantes entenderam como amor e não compreenderão que era feito porque não era exigido.

CHESTERTON, G. K. São Tomás de Aquino e São Francisco de Assis. São Paulo: Madras, 2012, p. 186.

No filme V de Vingança, Stephen Fry faz um papel que não existe no gibi: o de um apresentador de TV bicha (como o próprio Fry) que mantém em sua casa uma edição do Alcorão – em árabe. Evey vê aquilo e leva um susto; o doce Fry explica a ela que mantém o livro porque acha “a poesia muito bonita”. Supõe-se que ele leia em árabe, o que, no contexto da história, é de embasbacar, visto que ele vive numa sociedade futurista fascista, conservadora, homofóbica, racista e prenhe de todos os horrores do cristianismo exacerbado. Mas o filme anda e, lá pelas tantas, a personagem faz uma cagada que o expõe a uma retaliação muito bruta do, hum, sistema; e, saberemos depois, o que seria uma mera surra seguida de cadeia se torna assassinato por causa daquele Alcorão.

Now then. A Sharia, lei do Alcorão, prevê que os homossexuais morram por apedrejamento – na falta de pedras, podem ser tiros. Digamos que o senso estético da personagem de Fry lhe permita admirar as qualidades de uma poesia cuja essência prega o seu extermínio mas, paradoxalmente, faça com que abomine a sociedade em que vive – cuja essência prega o seu extermínio. Curioso. Na prática, o resultado é que Fry é exterminado por dar guarida a um livro cujos preceitos, se postos em prática no lugar daqueles sob os quais vive, também resultariam no seu extermínio.

É o que eu chamo de um beco sem saída.

Evidentemente, uma personagem pode sofrer desse tipo de esquizofrenia intelectual (a sociedade moderna padece bastante dela, de modo geral). No filme, essa esquizofrenia poderia ser alegórica e funcionar como um breve em favor do ateísmo (qualquer religião vai te matar) e/ou um alerta para os gays (todas as religiões matam viados). Mas eu acho que esse tipo brando de sutileza é demais para os irmãos Wachowski: creio que o que eles quiseram mesmo fazer foi externar sua crença, cada vez mais popular aqui no próprio Ocidente, de que o cristianismo é uma religião de bestas exterminadoras, e que o Islã, coitadinho, se junta às bichas entre seus milhões de vítimas.

Bem dizia Paulo Francis: cineastas são idiotas.

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P. S. tardio: V de Vingança, o gibi, não é melhor que o filme. Ele supõe que um cidadão deformado, vestido com uma capa e uma máscara de Guy Fawkes, seja capaz de derrubar sozinho um governo e lançar um país inteiro na anarquia. Esse argumento absurdo se apóia nos belíssimos desenhos de David Lloyd (melhores no original em preto e branco que na versão colorizada que a Globo lançou há uns vinte anos) e no joguinho de “adivinhe a citação” do roteirista Alan Moore – sujeito muito superestimado. Não serve para adultos.

A língua inglesa tem duas palavras para se referir ao aborto: miscarriage, quando ele é natural, e abortion, quando ele é provocado. Os debates furiosos naquele país são sempre em torno de abortion, nunca de miscarriage: assim como as palavras, as noções não se confundem.

Entre nós, a preguiça, o esquecimento e a malícia muitas vezes impedem imprensa e prosélitos deste e daquele lado de complementar as idéias, adicionando ao termo “aborto” os qualificativos que impedem a confusão.

Assim, quem vê na capa de um jornal como o Diário de São Paulo que uma em cada cinco mulheres já fizeram aborto é induzido a acreditar, pelo verbo da manchete e pela ausência do qualificativo, que esses incríveis vinte e cinco milhões de mulheres praticaram abortion. E, por conseqüência, é levado a se perguntar quantas mais, ou quantas dessas, já tiveram miscarriages, e quais os números de cada um.

E, é claro, a quem interessa misturar as duas coisas.

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Não se deve esperar dos cristãos, sejam católicos ou evangélicos (estes com a exceção do bizarro Edir Macedo), posições favoráveis à descriminalização do aborto.

O argumento é simples: aborto provocado é assassinato. Essa é, aliás, a mesma noção que os põe contra a eutanásia: matar alguém, pela razão que for, é assassinato. Só Deus pode dar a vida, e só Deus pode tirá-la. Ponto final.

O dogma, inumeráveis vezes violado, é central à fé cristã. Se e quando ele mudar, teremos um outro cristianismo – se cristianismo for.

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Entre assumir suas declarações pró-aborto e ratificá-las ou retificá-las, Dilmão e PT escolheram a terceira via stalinista de tentar reescrever o passado e transformar fato em boato. Para isso contaram, sem dúvida, com o salvo-conduto dado ao partido por uma população psicoticamente anestesiada por oito anos de histeria mistificadora.

O que não esperavam foi a forte reação de parte da sociedade, despertada da anestesia psicótica ao finalmente perceber, nessa manobra desastrada, o que deveria ter sido evidente desde o começo deste governo: a compulsão patológica do partido e de seus quadros para a mistificação e a mentira.

Ganhem ou percam a eleição, o estrago está feito: Dilmão e PT terão, doravante, muito mais dificuldades para continuar a refazer a história à base de berros, mentiras e falsa indignação.

Oh, método científico! Matemática!

"Que sistema reprodutor gostoso, gata!"

Uma vez li o blogue de um imbecil que dizia se sentir pessoalmente insultado toda vez que o Kaká, ao fazer um gol, mostrava uma camiseta dizendo que Deus é bacana. Para o tal blogueiro, ler “Deus te ama” é o mesmo que ler “Vai tomar no cu”: ele fica revoltado, ele quer abrir processo.

Agora li por aí que a FIFA quer punir times e jogadores de futebol que, cito, “façam alusão à religião”. De onde sou levado a concluir que aquele blogueiro não era um idiota isolado, e que Jesus virou palavrão ou símbolo de coisa feia para uma legião.

Nasci no século passado, de pai italiano que se lixava ecumenicamente para todos os credos e detestava amolação, mas não reprimia nada. Sou geneticamente avesso à devoção, portanto, mas não posso deixar de achar bem esquisito o mundo novo em que Deus, Alá e Oxalá são considerados tão daninhos à sociedade quanto cigarros. Ou em que confessar um credo seja como confessar uma tara.

Sou agnóstico e não-fumante, mas nada tenho contra fumo e reza. Bem esquisito este mundo novo em que se querem praticar restrições em nome da tolerância.

A canção punk dizia que “o mundo acabará numa grande explosão; cegos, surdos, mudos nada sentirão”. E vinha o refrão: fim-do-mun-do, fim-do-mun-do.

Não sei quem vai sentir o quê, mas o fim do mundo já tem data: 21 de dezembro de 2012. Bem, quer dizer: fim de verdade parece que não. O que dizem que vai rolar é um salto evolutivo do orbe, e só saltará com ele quem for evoluído também (minha filha diz que não é o meu caso). Quem não estiver ali mais ou menos na média evolucionária requerida terá como destino – reencarnatório, naturalmente – o Planeta X/Nibiru, onde, dizem, a coisa é feia.

Mais detalhes aqui.

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Eu não posso ser excomungado, por mais barbaridades que diga ou faça contra Deus ou a Fé. Não posso ser excomungado porque não comungo. Somente se eu fosse católico, e a depender do que dissesse ou fizesse, é que eu poderia ser excomungado.

Há casos de coisas que eu dissesse e/ou fizesse em que a excomunhão seria latae sententiae: eu incorreria nela automaticamente, quando praticasse a falta com ela apenada. Quer dizer: a excomunhão latae sententiae acontece na hora da cagada, e independe de pronunciamento de padre, bispo, papa, etc., que não a decretam; quando muito, a anunciam.

Claro que, caso eu fosse excomungado, não perderia CIC, RG, CNH, direito de ir e vir, nem nenhuma liberdade ou capacidade civil. Perderia apenas o direito de comungar. Seria duro, se eu fosse católico, mas não afetaria outros aspectos da minha existência: a excomunhão é um anátema que vale apenas no âmbito do catolicismo.

Me espanta ver tanta gente tratando a excomunhão como se ela fosse uma sentença de cadeia ou um pelourinho. Ainda mais tanta gente que não é católica e para a qual a excomunhão é apenas uma esquisitice irrelevante.

Quem resolve ser católico resolve aceitar junto que certos atos e palavras dão em excomunhão. Assim como quem resolve ser muçulmano aceita junto viver pela sharia e, digamos, ter a mão decepada se virar ladrão.

Como, portanto, pode parecer espantoso ou escandaloso ver que a Igreja condena aquilo que ela diz ser condenável?

Quem não aceita condenar o que ela condena, ou ser condenado pelo que ela condena, que não faça parte dela. Como é o meu caso.

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Sobre a última falha da Folha, este post diz tudo o que eu penso.

O caminho entre a minha casa e a da minha mãe toma, a pé, cerca de meia hora, e consiste fundamentalmente em duas avenidas. Hoje, eu e minhas mulheres nos demos ao trabalho de contar quantas igrejas evangélicas há nessa meia hora de caminhada: dez.

Não anotei os rótulos. Lembro de passagem que uma é do Evangelho Quadrangular, o que me faz imaginar uma grande Igreja Geométrica que congregue todas assim; e há uma outra chamada Comunidade Bethel ou Bethesda, não sei bem.

Minha mulher queria minha opinião sobre qual delas freqüentar.

Sugeri a que cobrar menos.

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Marie Curie, ou Mãe Mariinha du Pont Neuf. Na foto vemos a grande médium em seu juremá, conferindo o marafo. Não deixou obra escrita, mas seu terreiro, na Rue des Écoles, permanece até hoje vivo, forte e sacudido, formando gente como Maurice Blanchot, Enroland Barthes, Jacques Derrida e outros.

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Jethro Tull. Fez a primeira tronqueira no Trinity College, em 1692. Começou, mas não terminou, a obra Them Olde Cabocloes of the West: an Essay on the Principles of the Pemba Writings. Iniciou a transição dos chinós para os penachos.

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Giacomo Leopardi (Pai Léo do Palatino). Autor das seminais e perdidas obras Le Muganghe Melancoliche e Il Lundù degli Angeli. Fundou o primeiro terreiro romano, Gocciola Fuoco d’Osciossi.

O pesadelo da história