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A língua inglesa tem duas palavras para se referir ao aborto: miscarriage, quando ele é natural, e abortion, quando ele é provocado. Os debates furiosos naquele país são sempre em torno de abortion, nunca de miscarriage: assim como as palavras, as noções não se confundem.

Entre nós, a preguiça, o esquecimento e a malícia muitas vezes impedem imprensa e prosélitos deste e daquele lado de complementar as idéias, adicionando ao termo “aborto” os qualificativos que impedem a confusão.

Assim, quem vê na capa de um jornal como o Diário de São Paulo que uma em cada cinco mulheres já fizeram aborto é induzido a acreditar, pelo verbo da manchete e pela ausência do qualificativo, que esses incríveis vinte e cinco milhões de mulheres praticaram abortion. E, por conseqüência, é levado a se perguntar quantas mais, ou quantas dessas, já tiveram miscarriages, e quais os números de cada um.

E, é claro, a quem interessa misturar as duas coisas.

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Não se deve esperar dos cristãos, sejam católicos ou evangélicos (estes com a exceção do bizarro Edir Macedo), posições favoráveis à descriminalização do aborto.

O argumento é simples: aborto provocado é assassinato. Essa é, aliás, a mesma noção que os põe contra a eutanásia: matar alguém, pela razão que for, é assassinato. Só Deus pode dar a vida, e só Deus pode tirá-la. Ponto final.

O dogma, inumeráveis vezes violado, é central à fé cristã. Se e quando ele mudar, teremos um outro cristianismo – se cristianismo for.

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Entre assumir suas declarações pró-aborto e ratificá-las ou retificá-las, Dilmão e PT escolheram a terceira via stalinista de tentar reescrever o passado e transformar fato em boato. Para isso contaram, sem dúvida, com o salvo-conduto dado ao partido por uma população psicoticamente anestesiada por oito anos de histeria mistificadora.

O que não esperavam foi a forte reação de parte da sociedade, despertada da anestesia psicótica ao finalmente perceber, nessa manobra desastrada, o que deveria ter sido evidente desde o começo deste governo: a compulsão patológica do partido e de seus quadros para a mistificação e a mentira.

Ganhem ou percam a eleição, o estrago está feito: Dilmão e PT terão, doravante, muito mais dificuldades para continuar a refazer a história à base de berros, mentiras e falsa indignação.

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Este blogue e este blogueiro não aderirão à nova ortografia da língua portuguesa. Permanecerão grafando segundo os termos da reforma de 1971, a qual, aliás, o blogueiro ainda não terminou de aprender.

Atenciosamente.

Da série “conslusões a que só se chega depois de muito meditar”: sou uma lésbica invisível.

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O Apocalipse é muito bem organizado. O cronograma, aliás, foi adiantado.

Hoje eu estava esperando um farol abrir. Ao meu lado, um homem velho e mal vestido. Sotaque nordestino, e inesperados olhos azuis.

– Daqui cinco ano – disse ele, olhando para mim – vai discê um monte de gente lá de riba. Deus já avisô.

– Pois que sejam bem vindos – respondi sincero, atravessando a rua, farol já aberto.

– Deus já avisô! – gritou ele.

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As moças desde há algum tempo se depilam e aparam os pelos das pudendas. O que lamento: sou brazuca, índio véio, e chegado num matagal espesso. Cláudia Ohana, Vera Fischer, Carla Camuratti, oh, yeah.

Aparentemente, hoje em dia os homens fazem a mesma coisa: aparam o matinho, escanhoam – esporte radical, não acham? – os ovinhos. No meu tempo, a mera insinuação de coisas tais dava – eufemizemos – sério desentendimento. Hoje, consta, é item de fábrica.

Espero ser poupado da informação se (ou devo dizer “quando”?) os moços começarem a fazer bigodinho de Hitler. Não é tudo que o véio agüenta, não.

Her heart is sick of being in chains, coitadinha. Mas notem que, enquanto canta coisas meio escabrosas sobre auto-crucifixão e salvação em meio a lençóis sujos, ela faz a maior cara de “E aí, vai ficar só me olhando?”. Muito bacana, inclusive as empregadinhas com saiote de celofane.

All the white horses have gone ahead, mas o meu ficou. Arreparem no lábio inferior em, hum, contato estreito com o microfone.

É a mesma música, mas a putaria é ainda maior; Deus sabe em que estado ficou o cantinho da banqueta. A letra, aparentemente, fala do pai dela. Vejam o sorrisinho no final: “É para aplaudir mesmo”.

Tori Amos, senhoras e senhores. Ela começou como uma espécie de versão pornô da Kate Bush, mas é mais bonita, a voz ainda está em forma, e virou gente grande (como compositora) bem depressa. Faz boas covers: sua versão para “I’m on fire”, do Bruce Springsteen, justifica o título. A conversa dela é uma bobajada só sobre misticismo uterino e coisas assim, e é geralmente tida como imprevisível, ou seja, meio louca. Mas, oh, whatta woman. E que boca.

P. S. tardio: é preciso esclarecer – esses vídeos são do começo dos anos 90. Embora continue cantando à putanhesca, hoje dona Tori tem 45 anos e está ficando com um jeitão desagradável de Rita Lee.

Depois de fechar a maior rede de TV da sua Tchabezuela natal, sob o justo argumento de que a turma lá falava muito mal dele (raciocínio stalinisticamente irretocável: o cara é um ás da Marxcolástica), Huêgo Tchábes agora chama nossos tristíssimos senadores de “papagaios de Washington”. Lula disse uma vez que a Tchabezuela tem democracia até demais. Então, senhores psitacídeos senadores, não reclamem: fechar TV é uma forma de aparar um excesso democrático. Virtude demais mata, pô.

Vi hoje, finalmente, Super Size Me. A uma certa altura, entrei em pânico; depois passou. Morgan Spurlock, o fazedor de tudo, é parcial, embora não pareça tão mau-caráter quanto Michael Moore: ele detesta o McDonald’s, mas digamos que somatiza demais. É o maior desfile de gente gorda que vi desde As bicicletas de Belleville. Não percam as estatísticas do açúcar. Nem o herdeiro do Império do Sorvete. Nem o cidadão que diz que os inibidores dos efeitos da heroína também acabam com a graça do chocolate. Nem o cidadão que come setecentos big-macs por ano e não é gordo, nem tem o colesterol alto.

A coisa mais engraçada do documentário é a mulher gorda que vai com a filha gorda falar com um sujeito que parece ser um guru do emagrecimento: ela diz que um parente dela, salvo engano o avô, teve por féretro uma caixa de piano.

O mais estranho está nos extras do DVD, nas chamadas “cenas deletadas”: a turma que faz o filme põe, em jarros fechados, diversos sanduíches do McDonald’s e um sanduba de uma padoca dos arredores; põe também batatas fritas dessas grandes e grossas típicas de de prato-feito e as correspondentes do McD. Em dez semanas, tudo está preto, podre, fedorento, embolorado e exsudando líquidos asquerosos; as fritas do Mac, porém, seguem impolutas. Não parecem biodegradáveis.

Diz minha mulher que todos os males de que o tal Spurlock alega sofrer em razão da macdieta podem ser provocados por toda a chamada junk food: do enroladinho maldito da faculdade à esfirra do Habib’s, o envenenômetro apita sempre. E, mesmo assim, assisti a coisa com água na boca.

Vejo que a extensão do título dispensa a redação do post. O que é ótimo, porque me poupa o trabalho de desenvolver em longos, variados e tautológicos parágrafos o que foi tão bem resumido em dois períodos (e um aposto). E poupa também o leitor das atrocidades dessa tautologia. Basta, adicionalmente, informar que a pobre Sonata se viu nessa situação porque andava num beco escuro, tarde da noite, quando foi surpreendida pela torcida organizada de um time que havia, hélas, sido goleado. Os detalhes revoltantes – o contubérnio de gírias e entorpecentes, a chusma enfurecida, as roupas de Sonata parcialmente rasgadas, os gritos, as obscenidades, as tochas, a dolorosa e úmida aparição da deusa, a fuga do estudante indiano -, misericordiosamente omitidos, são deixados por conta da sua febril imaginação, ó leitor(a); e eu vou jantar.

Restou apenas por dizer que as asas eram muito pequenas, e falharam; Sonata Bacamarte, vítima de estupro coletivo, faleceu anteontem, no Hospital das Clínicas.

O pesadelo da história