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Lendo as três primeiras estrofes d‘Os Lusíadas, aprendi que:

  • Barões assinalados, non assinalados Barões;
  • força humana, non humana força;
  • gente remota, non remota gente;
  • memórias gloriosas, non gloriosas memórias;
  • terras viciosas, non viciosas terras;
  • obras valorosas, non valorosas obras;
  • navegações grandes, non grandes navegações;
  • peito ilustre, non ilustre peito;
  • Musa antiga, non antiga Musa;
  • valor mais alto, non mais alto valor.

É verdade que lá no meio tem ocidental praianovo Reino, mas olhem o placar: 10 a 2.

No filme V de Vingança, Stephen Fry faz um papel que não existe no gibi: o de um apresentador de TV bicha (como o próprio Fry) que mantém em sua casa uma edição do Alcorão – em árabe. Evey vê aquilo e leva um susto; o doce Fry explica a ela que mantém o livro porque acha “a poesia muito bonita”. Supõe-se que ele leia em árabe, o que, no contexto da história, é de embasbacar, visto que ele vive numa sociedade futurista fascista, conservadora, homofóbica, racista e prenhe de todos os horrores do cristianismo exacerbado. Mas o filme anda e, lá pelas tantas, a personagem faz uma cagada que o expõe a uma retaliação muito bruta do, hum, sistema; e, saberemos depois, o que seria uma mera surra seguida de cadeia se torna assassinato por causa daquele Alcorão.

Now then. A Sharia, lei do Alcorão, prevê que os homossexuais morram por apedrejamento – na falta de pedras, podem ser tiros. Digamos que o senso estético da personagem de Fry lhe permita admirar as qualidades de uma poesia cuja essência prega o seu extermínio mas, paradoxalmente, faça com que abomine a sociedade em que vive – cuja essência prega o seu extermínio. Curioso. Na prática, o resultado é que Fry é exterminado por dar guarida a um livro cujos preceitos, se postos em prática no lugar daqueles sob os quais vive, também resultariam no seu extermínio.

É o que eu chamo de um beco sem saída.

Evidentemente, uma personagem pode sofrer desse tipo de esquizofrenia intelectual (a sociedade moderna padece bastante dela, de modo geral). No filme, essa esquizofrenia poderia ser alegórica e funcionar como um breve em favor do ateísmo (qualquer religião vai te matar) e/ou um alerta para os gays (todas as religiões matam viados). Mas eu acho que esse tipo brando de sutileza é demais para os irmãos Wachowski: creio que o que eles quiseram mesmo fazer foi externar sua crença, cada vez mais popular aqui no próprio Ocidente, de que o cristianismo é uma religião de bestas exterminadoras, e que o Islã, coitadinho, se junta às bichas entre seus milhões de vítimas.

Bem dizia Paulo Francis: cineastas são idiotas.

* * *

P. S. tardio: V de Vingança, o gibi, não é melhor que o filme. Ele supõe que um cidadão deformado, vestido com uma capa e uma máscara de Guy Fawkes, seja capaz de derrubar sozinho um governo e lançar um país inteiro na anarquia. Esse argumento absurdo se apóia nos belíssimos desenhos de David Lloyd (melhores no original em preto e branco que na versão colorizada que a Globo lançou há uns vinte anos) e no joguinho de “adivinhe a citação” do roteirista Alan Moore – sujeito muito superestimado. Não serve para adultos.

A língua inglesa tem duas palavras para se referir ao aborto: miscarriage, quando ele é natural, e abortion, quando ele é provocado. Os debates furiosos naquele país são sempre em torno de abortion, nunca de miscarriage: assim como as palavras, as noções não se confundem.

Entre nós, a preguiça, o esquecimento e a malícia muitas vezes impedem imprensa e prosélitos deste e daquele lado de complementar as idéias, adicionando ao termo “aborto” os qualificativos que impedem a confusão.

Assim, quem vê na capa de um jornal como o Diário de São Paulo que uma em cada cinco mulheres já fizeram aborto é induzido a acreditar, pelo verbo da manchete e pela ausência do qualificativo, que esses incríveis vinte e cinco milhões de mulheres praticaram abortion. E, por conseqüência, é levado a se perguntar quantas mais, ou quantas dessas, já tiveram miscarriages, e quais os números de cada um.

E, é claro, a quem interessa misturar as duas coisas.

* * *

Não se deve esperar dos cristãos, sejam católicos ou evangélicos (estes com a exceção do bizarro Edir Macedo), posições favoráveis à descriminalização do aborto.

O argumento é simples: aborto provocado é assassinato. Essa é, aliás, a mesma noção que os põe contra a eutanásia: matar alguém, pela razão que for, é assassinato. Só Deus pode dar a vida, e só Deus pode tirá-la. Ponto final.

O dogma, inumeráveis vezes violado, é central à fé cristã. Se e quando ele mudar, teremos um outro cristianismo – se cristianismo for.

* * *

Entre assumir suas declarações pró-aborto e ratificá-las ou retificá-las, Dilmão e PT escolheram a terceira via stalinista de tentar reescrever o passado e transformar fato em boato. Para isso contaram, sem dúvida, com o salvo-conduto dado ao partido por uma população psicoticamente anestesiada por oito anos de histeria mistificadora.

O que não esperavam foi a forte reação de parte da sociedade, despertada da anestesia psicótica ao finalmente perceber, nessa manobra desastrada, o que deveria ter sido evidente desde o começo deste governo: a compulsão patológica do partido e de seus quadros para a mistificação e a mentira.

Ganhem ou percam a eleição, o estrago está feito: Dilmão e PT terão, doravante, muito mais dificuldades para continuar a refazer a história à base de berros, mentiras e falsa indignação.

Não vou dizer que me lembro onde estava há vinte anos e um dia, quando derrubaram o muro de Berlim. Lembro apenas que era uma coisa esperada – perestroika, glasnost, Gorbachev eram palavras muito ouvidas então – e via as cenas pela televisão no espírito de “bem, aconteceu o inevitável”.

Era inevitável. Ficávamos sabendo que ocasionalmente algumas pessoas fugiam para o comunismo – geralmente espiões ou traidores, ou então o Ziraldo indo colher cana em Cuba. E víamos milhares fugindo do comunismo. Gente fuzilada pulando o muro, ou empilhada em balsas-cadillacs rumo à Flórida. Era por isso que era preciso murar ou ilhar o comunismo onde ele estivesse perto de qualquer outra coisa: porque qualquer outra coisa acabava parecendo melhor, fosse um tiro na testa atrás de coca-cola, fosse a perspectiva de dançar com tubarões.

Depois dessa débâcle ouvi muita gente dizendo que o comunismo não era aquilo, não era aqueles países que se assemelhavam a campos de concentração geridos por sistemas organizados de delação e extermínio, onde os ungidos do povo não eram ungidos pelo povo e viviam de um jeito que daria vergonha a Luís XVI: aquilo era uma distorção maligna do paraíso proletário almejado, o verdadeiro comunismo ainda estava por vir.

Nunca acreditei. O melhor governo é aquele que se mete o menos possível na vida das pessoas e não lhes diz em que dias da semana pode comer manteiga ou tomar banhos de mais de três minutos, nem as convida a cagüetar o vizinho que resmunga contra o governo.

O melhor é deixar a turma em paz. Você pode até murá-los por uns anos, mas não tem jeito: uma hora se enfezam e derrubam tudo. E vão, muito inconscientes, comprar discos da Madonna, comer hambúrguer e usar tênis de cores berrantes. Coisas tristes que as pessoas se dispõem a fazer só porque podem.

Noutro dia, na saída do metrô Consolação, um camelô vendia pendrives. Kingston. Aparentemente legítimos.

Na mesma semana, vi na esquina da minha rua – cafundós da Zona Leste – um forno de microondas no lixo.

Me senti brevemente japonês.

* * *

Cuba, alertam-me, ameaça parar por falta de papel higiênico. Problema sério num país cujo sufixo na internet é “cu”.

Mas é preciso ter esperança, quando não ternura: finalmente se achará um uso pro Granma.

Oh, método científico! Matemática!

"Que sistema reprodutor gostoso, gata!"

Uma vez li o blogue de um imbecil que dizia se sentir pessoalmente insultado toda vez que o Kaká, ao fazer um gol, mostrava uma camiseta dizendo que Deus é bacana. Para o tal blogueiro, ler “Deus te ama” é o mesmo que ler “Vai tomar no cu”: ele fica revoltado, ele quer abrir processo.

Agora li por aí que a FIFA quer punir times e jogadores de futebol que, cito, “façam alusão à religião”. De onde sou levado a concluir que aquele blogueiro não era um idiota isolado, e que Jesus virou palavrão ou símbolo de coisa feia para uma legião.

Nasci no século passado, de pai italiano que se lixava ecumenicamente para todos os credos e detestava amolação, mas não reprimia nada. Sou geneticamente avesso à devoção, portanto, mas não posso deixar de achar bem esquisito o mundo novo em que Deus, Alá e Oxalá são considerados tão daninhos à sociedade quanto cigarros. Ou em que confessar um credo seja como confessar uma tara.

Sou agnóstico e não-fumante, mas nada tenho contra fumo e reza. Bem esquisito este mundo novo em que se querem praticar restrições em nome da tolerância.

Por reductio ad absurdum, descobriremos que cada ser humano representa em si mesmo uma minoria a ser protegida (e talvez redescubramos junto o catolicismo). Assim, uma futura lei geral das minorias voltará a contemplar a humanidade em sua generalidade.

Num futuro não muito distante, as pessoas só sairão de casa em dias de chuva depois de consultar seus advogados e confirmarem que não há lei dispondo em contrário. Nesse mesmo futuro não muito distante, é possível que haja uma lei proibindo o uso da expressão “num futuro não muito distante”.

Do "La Reppublica". E non è vero?

Do "La Repubblica". E non è vero?

Este blogue e este blogueiro não aderirão à nova ortografia da língua portuguesa. Permanecerão grafando segundo os termos da reforma de 1971, a qual, aliás, o blogueiro ainda não terminou de aprender.

Atenciosamente.

O pesadelo da história