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No filme V de Vingança, Stephen Fry faz um papel que não existe no gibi: o de um apresentador de TV bicha (como o próprio Fry) que mantém em sua casa uma edição do Alcorão – em árabe. Evey vê aquilo e leva um susto; o doce Fry explica a ela que mantém o livro porque acha “a poesia muito bonita”. Supõe-se que ele leia em árabe, o que, no contexto da história, é de embasbacar, visto que ele vive numa sociedade futurista fascista, conservadora, homofóbica, racista e prenhe de todos os horrores do cristianismo exacerbado. Mas o filme anda e, lá pelas tantas, a personagem faz uma cagada que o expõe a uma retaliação muito bruta do, hum, sistema; e, saberemos depois, o que seria uma mera surra seguida de cadeia se torna assassinato por causa daquele Alcorão.

Now then. A Sharia, lei do Alcorão, prevê que os homossexuais morram por apedrejamento – na falta de pedras, podem ser tiros. Digamos que o senso estético da personagem de Fry lhe permita admirar as qualidades de uma poesia cuja essência prega o seu extermínio mas, paradoxalmente, faça com que abomine a sociedade em que vive – cuja essência prega o seu extermínio. Curioso. Na prática, o resultado é que Fry é exterminado por dar guarida a um livro cujos preceitos, se postos em prática no lugar daqueles sob os quais vive, também resultariam no seu extermínio.

É o que eu chamo de um beco sem saída.

Evidentemente, uma personagem pode sofrer desse tipo de esquizofrenia intelectual (a sociedade moderna padece bastante dela, de modo geral). No filme, essa esquizofrenia poderia ser alegórica e funcionar como um breve em favor do ateísmo (qualquer religião vai te matar) e/ou um alerta para os gays (todas as religiões matam viados). Mas eu acho que esse tipo brando de sutileza é demais para os irmãos Wachowski: creio que o que eles quiseram mesmo fazer foi externar sua crença, cada vez mais popular aqui no próprio Ocidente, de que o cristianismo é uma religião de bestas exterminadoras, e que o Islã, coitadinho, se junta às bichas entre seus milhões de vítimas.

Bem dizia Paulo Francis: cineastas são idiotas.

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P. S. tardio: V de Vingança, o gibi, não é melhor que o filme. Ele supõe que um cidadão deformado, vestido com uma capa e uma máscara de Guy Fawkes, seja capaz de derrubar sozinho um governo e lançar um país inteiro na anarquia. Esse argumento absurdo se apóia nos belíssimos desenhos de David Lloyd (melhores no original em preto e branco que na versão colorizada que a Globo lançou há uns vinte anos) e no joguinho de “adivinhe a citação” do roteirista Alan Moore – sujeito muito superestimado. Não serve para adultos.

“Tudo de camarões sólidos, amarelos, cósmicos; inspiro as ventilações surdas, as varizes épicas, a toalha rente, a empada covarde. Mexiricas na pacuera.” Surrealismo é fácil; difícil é cortar as unhas dos pés.

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Eu sou um ítalo-luso-franco-brasileiro de ascendência semítico-germano-tupi. Sou o garoto cadinho de raças que o Roberto falou.

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“Votando em mim, eu vou estar em Brasília e vou estar, na realidade, fazendo o coisa da vida de nosso Brasil a nossa vida, o nosso momento, o nosso coisa que nós temos. Para deputado federal, Tiririca. Vote no abestado.” A semântica do Lula com a sintaxe do Dilmão: Tiririca, a síntese política nacional.

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O voto no Tiririca é como o voto num animal agonizante: está entre o protesto, a piedade e a desilusão.

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Eu achava que trollagem tinha a ver com sexo e falta de banho.

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É linda uma terra onde um assassino esquartejador tem um nome poético e sensível como Gilliard. Daqui a pouquinho vai ser a hora dos filhos dos hippies, gente com nome tipo Sol Hallellujah, sair incendiando berçários.

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Primeiro o ethos, depois o pathos, agora os chathos.

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Eu tenho um personal magro morando dentro do meu corpo.

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Sempre que vejo propaganda com mulher olhando laptop e sorrindo me pergunto se ela está no Youtube vendo uma girafa ser esquartejada.

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Martinho da Vila tem uma filosofia de vida, ora, ora. Mudou a filosofia, ou mudou o Martinho?

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“Bom diiiia, sêo Plínho”, diz a empregada abrindo as cortinas, sem notar o penico cheio de dialética amarela que voa em sua direção.

Dizer que um certo artista fulano é “um dos mais destacados no cenário da vídeoarte” é dar como certas pelo menos três coisas: 1) que existe um troço chamado vídeoarte; 2) que, em existindo, esse troço tem um, ahn, “cenário”; e 3) que alguém se destaque nesse cenário (o que é até possível).

Como sei que há um mundo externo à minha consciência – um mundo ignorável na maior parte do tempo, mas mundo -, estou pronto a admitir que exista um troço chamado “vídeoarte”, e que esse troço tenha cenários, e que neles haja gente que se destaque.

Eu só quero que se danem.

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No meu mundo interno, talvez o Haiti não existisse até a semana passada. Caetano Veloso existe, muito contra o meu gosto, e canta nalgum lugar da minha consciência que o Haiti é e não é aqui (Caetano Veloso, reparem, deixa sempre todas as portas abertas, não importa o quão puto ou indignado pareça). Isso era todo o meu Haiti: um verso vagabundo e sem sentido da MPB.

Agora, porém, o Haiti existe, e é na forma de horror. Horror ainda maior do que o que cotidianamente já é. Para quem, como eu, é viciado em palavras, o que há a dizer é o que li de alguém, que não lembro mais quem seja, no Twitter:

“O que é que Deus tem contra o Haiti?”

Eu também não sei.

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Hoje o mood é de Roberta Flack, se lhes agrada:

Capas ridículas de gibis do Super-Homem, dica, via tuíter, do Exu Caveira Cover. Minhas favoritas abaixo. A primeira, apresentando o Super-Homem Feio:

Ela dá para qualquer um que use uma capa.

Ela dá para qualquer um que use uma capa.

A segunda, gay friendly com um saborzinho sadomasô:

O terceiro olho também tem visão de calor.

O terceiro olho também tem visão de calor.

O preço da liberdade é o eterno olhar de Raio-X:

Lois Palin versus Super Obama?

Lois Palin versus Super Obama?

Ninguém é feio para todo o mundo:

E outra: a beleza que conta é a interior.

E outra: a beleza que conta é a interior.

O amor leva a estranhas ações:

You give me... you give me the sweetest voodoo...

You give me... you give me the sweetest voodoo...

E, para encerrar, a inspiração secreta dos bolivarianos:

Libertad, kryptonita o muerte!

Libertad, kryptonita o muerte!

Respondendo, ou obedecendo – não sei bem – ao repasse de um meme por parte do Tarcísio Schivaldo, vos digo que a coisa é assim: devo pegar o livro que estiver mais perto de mim, abri-lo na página 161 (qual será a desse número?), pegar a quinta frase completa e botá-la aqui. E depois repassar o memememememe a outras cinco pessoas.

Bem, o livro mais à mão aqui é “A força das idéias”, de Isaiah Berlin; a quinta frase completa da página 161 é:

“Quando falamos de liberdades civis ou de valores civilizados, isso é parte do que queremos dizer.”

“Isso o quê?”, você deve estar se perguntando. Ora, eu sei, mas não posso falar, para não quebrar o espírito do meme. O título do ensaio, se ajudar, é “Liberdade”.

Repasso-o, como se manda, a 5 pessoas: Rosa Marinha, Yan Kaô, Dr.  Venardi, M. Melô e Caio Marinho. Boa sorte.

É verdade, fodeu tudo. Eu descobri o You Tube. Peter Sellers e os Beatles:

Vejo que alguém se deu ao trabalho de procurar por “Sonata Bacamarte” no Google; um tardio reconhecimento de sua oeuvre, modesta em dimensões porém vasta em ambições? Deus o queira.

Por ocasião de sua triste morte, Sonata andava às voltas com sua tese de doutorado, “Confluências de Góngora”, onde ela sustentava que tanto Charles Bukovski quanto Manuel Bandeira eram poetas neo-gongóricos. Consta que seu namorado, o também poeta e tradutor Haroldo Antunes, se encarregou de terminá-la; como minhas relações com o vate são tensas, não é provável que eu tenha acesso ao texto antes da publicação.

Mas vou revirar meu baú atrás de mais excertos dessa poetisa singular.

A Fiat taí, Fá.

Nega Wsklova é a Volkswagen.

Ouropeles

Sou a mãe-Iara de toda nudez:

espero à beira-areia do remanso –

ouro difundo; nas ultrapassagens,

ouso a soma de sonho e amarelo.

O pesadelo da história