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Isto está abandonado, hein. Culpa do twitter e de suas facilidades: ele deixa que meus talks sejam, além de silly, instantâneos. Mas vamos devagarinho, devagarinho, retomando as actividades.

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Julie London era bonita e gostosa e talvez (não sei) até boa atriz. No entanto, o que fazia dela um tesão de derreter é como e o que cantava. Abaixo, a chapa da moça, que se diz capaz de chorar rios pelo sujeito:

Aqui, ela dá tchauzinho ao passo-preto. Reparem na cortesia do começo, e, oh, em tudo o mais:

Não sei o nome desse afortunado baixista. Viram como ela canta o “bye-bye”? E, por fim, vejam-na pedindo pro cara ir na manha:

No further comments.

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Talvez eu não devesse dizer, mas uma das razões que vêm me mantendo longe daqui, Twitter à parte, é que, oh, hum, parece que comecei a escrever algo a sério. Mais detalhes, se os houver, no futuro.

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Eu gosto bastante de Julian Barnes, que é um desses escritores cuja prosa, despretensiosa e clara, nem sempre é memorável, mas que nos entretêm com inteligência e algum humor e bom gosto. Ele me lembra os bons amigos das conversas civilizadas e dos risos claros. Dele peguei, e vos venho recomendar, “Nada a temer”, Nothing to be frightened of, que é uma reflexão leiga, atéia, sensível e inteligente sobre a morte. Sem surpresa nenhuma descubro no texto um monte de reflexões que venho fazendo sobre isso. Talvez a o elegante e divertido parágrafo de abertura lhes dê uma idéia do tom do livro, cujo peso se dissipa em parte nessa leveza:

“Não acredito em Deus, mas sinto falta d’Ele. É isso o que eu digo quando essa questão é abordada. Perguntei ao meu irmão, que ensinou filosofia em Oxford, em Genebra e na Sorbonne, o que ele achava dessa declaração, sem dizer que era minha. Ele respondeu com uma única palavra: ‘Piegas’”.

Pois sim, meu caro Julian, eu também sou piegas segundo os padrões pesados de Oxford, Genebra, Sorbonne. Não é, nem de longe, o pior que nos podia acontecer, é?

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Na porta do guarda-roupa, hein.

…fez quinze anos e se auto-retratou.

Daqui a pouco tô tendo que matar uns caras.

Dizer que um certo artista fulano é “um dos mais destacados no cenário da vídeoarte” é dar como certas pelo menos três coisas: 1) que existe um troço chamado vídeoarte; 2) que, em existindo, esse troço tem um, ahn, “cenário”; e 3) que alguém se destaque nesse cenário (o que é até possível).

Como sei que há um mundo externo à minha consciência – um mundo ignorável na maior parte do tempo, mas mundo -, estou pronto a admitir que exista um troço chamado “vídeoarte”, e que esse troço tenha cenários, e que neles haja gente que se destaque.

Eu só quero que se danem.

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No meu mundo interno, talvez o Haiti não existisse até a semana passada. Caetano Veloso existe, muito contra o meu gosto, e canta nalgum lugar da minha consciência que o Haiti é e não é aqui (Caetano Veloso, reparem, deixa sempre todas as portas abertas, não importa o quão puto ou indignado pareça). Isso era todo o meu Haiti: um verso vagabundo e sem sentido da MPB.

Agora, porém, o Haiti existe, e é na forma de horror. Horror ainda maior do que o que cotidianamente já é. Para quem, como eu, é viciado em palavras, o que há a dizer é o que li de alguém, que não lembro mais quem seja, no Twitter:

“O que é que Deus tem contra o Haiti?”

Eu também não sei.

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Hoje o mood é de Roberta Flack, se lhes agrada:

A Wikipédia – mãe, tia e tutora deste imbecil que ora digita – explica que Ida Maria Børli Sivertsen é norueguesa, tem menos anos de vida que eu de carteira registrada, é, como Nabokov, sinestésica, já foi evangélica e anda fazendo o tipo de sucesso restrito da chamada cena indie. Ela berra bem, como se vê em Oh my God:

O som é uma derivação do punk que deve bastante em tudo, letras inclusive, à rota Runaways – L7 – P. J. Harvey – Elastica. Ela é, na conversa pelo menos, bebaça e metelona, e mistura a essas giletadas umas bolinhas de chiclete. O vídeo abaixo, I like you so much better when you’re naked, não prima pela sutileza com as bananas todas e tal, e o visual é o de 1983:

Eu gosto desse som, e da voz dela. Neste vídeo, Stella, ela começa dizendo que Deus é um pusher man que sai pelo mundo pegando putas, e a canção é simpática, bem como os berros e ganidos:

Berreiro bom sempre me ganha. Humor também.

A lenta agonia cancerosa de tia Guiomar impressionou tia Ermínia, que era a mais velha das duas. A peregrinação baratinada das irmãs solteironas por charlatões vários (cirurgiões espíritas, massagistas, pastores evangélicos, macumbeiros, Seicho-no-Iê e terapeutas holísticos) fez com que a tia Ermínia conseguisse o prodígio que é manter, ao mesmo tempo, a fé mais fervorosa e a desconfiança mais fria. Siamesamente ligadas, incões, fé e desconfiança aumentavam juntas a cada novo tratamento fracassado que impunha a tia Guiomar.

Nada sabemos sobre os deuses, suas pressas, seus ritmos, seus critérios. Insondáveis, a uns dão tudo e com outros não falam. Com a tia Ermínia, escolheram o silêncio. Mas ela, teimosa, jamais se rendeu à idéia do insondável: a morte de tia Guiomar parecia a ela um adversário de tribunal, contra quem se podem apresentar argumentos e que podia ser vencido com a lógica certa, com um bom advogado; depois, achou, como dizem esses livros todos, que era questão de manter-se rija na rinha. Quando ela morreu, tia Ermínia passou a achar que seria vítima de uma revanche da morte. E tinha razão.

No segundo ano após a morte de tia Guiomar, tia Ermínia já era uma sombra. Pouco soubemos de suas dores; minha mãe não quis ficar com ela em nossa casa. Imaginamos que sofreu muito. Seu silêncio, surpreendente (era mulher de muitos escândalos), não era a serenidade dos morituri; era antes a mesma teimosia que recusava a perplexidade e que tantas vezes, e tão erradamente, é confundida com tenacidade.

Retomou o périplo. Ela foi novamente atrás dos emissários, dos canais, dos porta-vozes do insondável. Mas, embora fizesse tudo o que lhe fosse pedido ou ordenado, ia por ir – como quem ronda uma porta por tanto tempo que acaba esquecendo o que espera sair, transformando em hábito e neurose o que um dia foi esperança.

Os deuses não gostam de autômatos, e a tia nada tinha de Penélope, de Medéia. Ela morreu num novembro quente e dilatado – um mês em que tudo parecia estalar. Mês de muitas moscas e de verde acinzentado.

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As famílias grandes têm a virtude de não nos desacostumar da morte. Não houve, na minha infância, ano em que não morresse parente. Às vezes iam dois no mesmo ano, ou até no mesmo semestre. Eu vivia com a idéia de morte presente. Não é a mesma idéia de morte iminente que, creio eu, se tem nas guerras, mas sim a noção precisa de que a morte existe, e de que tudo, depois dela, continua. Todas as gerações se acham perto do final dos tempos porque inconscientemente não acreditam que o mundo sobreviverá às suas mortes. Acham que, com o apagar das suas consciências, apagar-se-á também o mundo. Viver rodeado de mortes, se não elimina, pelo menos atenua essa impressão. Via pessoas morrendo e via o mundo continuando; e embora secretamente acreditasse que o mundo continuava porque eu é que estava vivo, a desconfiança de que isso se dava à minha revelia já estava dentro de mim. Como os anos, essa convicção só aumentaria; hoje, já sou para mim mesmo muito banal.

Coube a mim segurar uma das alças do caixão. Ao lado dos meus tios e primos, eu esperava que uma sensação de clã me invadisse; que ser Tosetto tivesse uma significação. Esperei em vão – um nome não bastava como ponte entre nossos abismos.

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A tia tinha tentado permanecer aqui. Mesmo que não tivesse conscientemente percebido sua derrota, tinha sido mais honesta do que todos os que, aceitando a morte na aparência, a renegávamos por trás, inventando mundos onde ela não nos pudesse atingir. Quando se torna inelutável a conclusão de que o mundo sobreviverá a nós, torna-se necessário pensar e acreditar que nós é que sobreviveremos a ele. Transcendendo-o, humilhando-o, tornando-o subitamente inferior a nós, acessório, ferramental. Diremos que ele nos serviu – ou que nos serve – sem admitir a aterradora possibilidade de que todos, nós e ele, sejamos mero acaso, inexplicáveis e sem sentido como todos os acasos. Se for preciso, renegaremos a própria idéia de acaso, tecendo entre todas as coisas e eventos a rede imaginária que nos deterá em nossa queda da corda bamba rumo ao nada.

A tia caiu nessa muitas vezes; mas, no entanto, sua teimosia, sua obstinação em permanecer viva à custa de método, de achar a coisa certa a fazer e fazê-la simplesmente, fez dela uma dessas raras pessoas que acreditam mais no mundo do que em si mesmas.

E o mundo falhou-lhe, como nos falha a todos.

Tia Guiomar era uma mulher bruta. Todos eles, os italianos da minha família, eram gente bruta. Uma maneira fácil de defini-los é dizer que eram brutos, mesquinhos e apequenados. Fácil porque correta, mas também inexata: eram isso e muito mais. Eram gente, afinal, relevos acidentados. Mas havia brutalidade de sobra. Herdei muito dela.

O nome dela era Igomar, que parece nome de homem. Ninguém nem o pronunciava; virou Guiomar. Amava-nos, a mim e a meu irmão, como os filhos que nunca teve. Era, na minha infância, a mulher mais bonita que eu já tinha visto, com a boca grande e um dente amarelado em cima, na frente, talvez um pivô, que me fascinava como uma pedra que brilhasse no fundo de um rio. Hoje paro pra pensar e a lista do que me lembro dela é curta: era funcionária pública, vestia-se bem, tinha amigas de nomes italianados como Iole e Trieste, e pintava os cabelos de acaju. Dançava tango com meu pai: trançavam as pernas, cantarolavam juntos Madresielvas, ou Donde estás, corazón?. Ela se dobrava com muita graça e tinha um riso curto, decidido.

Amou uma vez, um homem de histórias que ficou conhecido como “o turco”. Dele nem nome, idade, profissão, nada se soube na minha geração; era turco e desquitado, portanto proibido para uma católica feroz como minha avó. Mas era indubitável que amou: cheiros, perfumes desse amor entranharam-se na história, surgindo de todas as letras, não importando quem a contasse. Ela e tia Ermínia costuravam, para si, para amigas e para poucos mais. Tinham mesas grandes, gizes achatados e encerados, revistas de moda dos anos 60, quando viveram seu pequeno auge e foram à Europa. Vi-a várias vezes de fita métrica pendurada ao pescoço, com alfinetes de cabeça vermelha presos na boca, óculos sobre os olhos frios (nessas horas, parecia uma dentista: tinha olhos castanhos e duros, nunca ressacados, nunca “olhos de cama” – eram olhos de fiscal), trabalhando compenetrada fazendo uma blusa para mim no velho casarão do Brás, onde havia um telefone preto de fios encapados em pano, as portas da sala eram de vaivém, e o sofá imenso era forrado com chita. Aos sábados, fazia pizza, de massa fina e crocante que era o ódio de meu pai (“pizza que presta tem que ter a massa macia e grossa”), que em todo caso comia e bastante.

Uma vez, eu moleque de dez anos, me levou a Santos. Ficamos lá alguns dias no apartamento do meu tio. Lembro de uma tarde sem energia elétrica, seu perfil romano recortado contra aquele poente que só nos ocorre mesmo quando pensamos em praia. Bebíamos café com leite, comíamos pão com presunto, eu tinha uma sensação (essas coisas da infância nunca param de voltar) de que aquela era uma vida muito certa.

Morreu uma morte que não quero contar, nem desejo que ninguém tenha. Uma vez eu não a quis ver, entrevada que estava; ia saindo de fininho, mas ela ouviu meus passos na escada e disse de dentro do quarto:

Giugnetto, você não vem ver a tia?

Fiz o que sempre faço quando estou envergonhado: menti.

– Achei que a senhora estava dormindo.

E beijei seu rosto murcho e manchado, a pele que se ia amarelando, a vida que ia indo, indo, descolando-se com dor e deixando-a mais sozinha do que nunca, porque já meio apartada de si mesma. Há, dizem, pessoas capazes de acalmar e entender todas as mortes. Eu não: me limito a espiar com desconforto todas as muitas coisas que não compreendo.

Não chorei sua morte.

Quem é da minha idade, ou acha que cultura pop é cultura mesmo, sabe que um rapaz de sobrenome McFly é o herói dos filmes da série De volta para o futuro. Quem gostou dos filmes pouquinha coisa deve se lembrar que, quando num aperto, o herói dizia a si mesmo: think, McFly, think. Pense, McMosca, pense. No filme, dava resultado.

Um quarteto de meninos ingleses thought um tantinho e, maravilhado, batizou seu coletivo com esse nome, McFly. Gravaram uns discos com umas guitarras meio distorcidas e umas vozes meio agudas, e viraram ídolos das meninas de 14 anos – das quais uma habita a minha residência. Não se dêem ao trabalho de ouvir – não vale nada.

Minha menininha foi vê-los quinta-feira passada. Foi o primeiro show dela. Comprou camiseta e capa de chuva e, graças ao custosamente pago curso de inglês, entendeu 70% do que a banda disse ao público – inclusive as sacanagens e grosserias (até isso ela adorou). Chorou em uma música. Had herself a good time.

Pois é, é tempo. Dói, mas é tempo.

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Motörhead e Girlschool. A guitarrera/cantante loira e lindinha é Kelly Johnson, que morreu de câncer há dois anos. Lemmy, vocês estão vendo, faz acordes no baixo – por isso o som deles é aquela maçaroca louca. E Philty “Animal” Taylor deixou as baquetas nesse playback para Tina Gayle e foi, ah, dançar. Isto é um crácico da minha existência.

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O homem tem uma enorme incapacidade de lidar com a vida prática. É muito difícil comprar o gás se você está viajando naquele momento, querendo ser Dom Pedro às margens do Ipiranga. É isso que está na cabeça deles na hora do supermercado.

Isto diz Contardo Calligaris na Veja desta semana. Bullshit, a rigor, mas, sabem?, às vezes é isso mesmo. Como isto também é:

A queixa dos homens é que, agora, elas não têm mais tempo para eles. Que não cuidam mais deles. E a verdade é que eles querem muito ser cuidados.

As circunstâncias completas da minha infelicidade em 1990 só dizem respeito a mim. Aqui basta dizer que o sábado era frio; que eu já tinha uma ou duas certezas ruins e intuía mais algumas coisas piores, que se confirmaram; e que levava nas mãos um LP do Sam Cooke. Fui parar, sem saber bem como, no Largo do Arouche, onde havia um cinema ainda não dominado pelos filmes pornô. Estava em cartaz o Cinema Paradiso. Nunca gostei de ir a cinema sozinho. Naquela ocasião, porém, assim eu estava, e resolvi entrar.

Não sei se vocês já viram o filme. Se não viram, saibam que ele conta a história de um menino siciliano chamado Salvatore, cujo pai morre na guerra e que vira ajudante do projetor num cinema de sua cidadezinha – o tal do Cinema Paradiso. Uma das funções deles era cortar dos filmes as cenas mais quentes, conforme a censura prévia de um padre severo que, da platéia, sinalizava com um sino o momento de cada tesourada. Cortavam cenas de beijos principalmente, mas também pernas e eventuais peitinhos à mostra. No final, o velho projetor, cego, morre e manda uma lata de filme a Salvatore, já adulto e, ao que parece, cineasta de renome. Salvatore põe para rodar o filme que recebeu e vê isto:

Sou italiano e sentimental, mas completamente avesso a demonstrações públicas (afora as deste blogue) desse sentimentalismo. Há quem diga até que, no trato pessoal, sou frio – e é provável que eu seja mesmo. Não sou, portanto, de chorar no cinema. Mas era 1990, eu estava infeliz, a tarde era fria e uma noite ainda mais fria me esperava. Não me envergonho muito de dizer que chorei de soluçar nesse pedaço. Chorei de inchar os olhos e por momentos me faltar o ar.

Há aí mais de uma declaração de amor. A menos comentada é a de um homem, o projetor, a outro homem, Salvatore – e, pelo amor de Deus, percebam que não estou falando de perobagem.  Há uma, muito falada, ao cinema. E há as minúsculas: os beijos todos, dos quais haverá, estou certo, pelo menos um que possa descer sobre a lembrança de quem os vê e trazer de volta o gosto, o sobressalto, a falta de ar de um beijo que serenou o mundo.

Eu me lembro.

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O LP do Sam Cooke a que me refiro é o “Live at the Harlem Square Club”, gravado em 63. Infelizmente, o WordPress não libera aqui o uso de tocadores de mp3; clique aqui para ouvir a minha favorita, e aqui para saber o que dizer à mulher que te engana e que você ama sem remédio.

Os apartamentos antigos eram grandes. O nosso tinha dois quartos imensos, uma cozinha onde cabia tudo e um banheiro comprido que – para ódio de minha mãe – ensaboávamos inteiro para ficar escorregando na hora do banho. Meu pai tinha arrancado o bidê e deixado pedaços de massa no chão: às vezes cortávamos o pé. Tínhamos que ficar em pé sobre a privada para fechar o chuveiro: às vezes levávamos choque. Dois meninos nus grudando num registro onde corriam 220 volts. Sou um curioso milagre.

Somente o quintal era pequeno. A área sobre o tanque era coberta; dali víamos a Rua Casimiro de Abreu e a velha ex-sinagoga onde meu tio tinha sua fábrica de bolsas e Zé do Caixão fez um ou dois filmes infamemente famosos. Mas a vista imediata era de uma fábrica abandonada – o ano em que estou pensando é 1976.

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Kichutes. Cheiravam a bacalhau. Quando eram novos, as travas de imitação, feitas de borracha, me deixavam um centímetro mais alto: eu me achava imponente. Era magro, tinha os cabelos muito escuros, umas sardas (que sumiram, sei lá como ou por quê), olhos verdes e um nariz quebrado. E queria ser o Jorge Mendonça. Ainda não usava óculos.

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Aos domingos, íamos à casa da minha avó. Nunca a chamei de nonna, nunca chamei meu pai de babbo: não se usavam as palavras, nem entre eles, os velhos. Minha tia chamava minha avó de amã; os amigos do meu pai me chamavam de Tosettim. Porque no dialeto paesano do vêneto, tosetto é diminutivo de toso, mancebo. O velho Chico Porcaro olhava meu pai e dizia: ma che Tosetto vucê, Tosetto è lui, me apontando. Vucê e lui na mesma frase. Recentemente uma advogada paesana esteve comigo e extraiu o pouco que sei da família: Treviso, Rovigo, enchente no Pó, América. Ano: 1885. Iam à Argentina e, burros ou enganados, saltaram em Santos.

Mas na casa da avó: misturavam pinga com vermute e chamavam àquilo de rabo de galo. Meu pai trazia da adega do Porcaro – adega Francaro, de Francesco Porcaro – um litro de tinto seco, picava a panhoca num prato – com as mãos: sou incapaz de cortar pão com faca até hoje – e fazia com ela e o vinho uma papa que chamava de “sopa de cavalo cansado”. Eu comia e ficava alegrão. Ou então ele misturava vinho com soda. Eu bebia e ficava alegrão. Minhas tias falavam pelos cotovelos; quando não estavam preguiçosas, massa de macarrão descansava apoiada no encosto de duas cadeiras. Numa vasilha, coberta com um pano, sempre havia crostole; se passássemos uma semana sem aparecer, lá ainda estava, já fofo, não crocante. Eu comia de todo jeito.

A casa era enorme, numa sobreloja. Havia uma escada comprida, com um patamar no meio. Três quartos na frente, duas salas, copa, cozinha, duas áreas, dependências de empregada, dois banheiros. Se mudaram para lá no final dos anos 50, Rua Maria Marcolina 254, altos.

Então um dia a avó ficou doente, da doença que a mataria e que ainda não sei qual foi. Internaram-na. Quando saiu, não conseguia subir as escadas, de fraca que estava. Meu pai e meus tios fizeram descer uma cadeira: eu, lá de cima, olhava, com minhas apreensivas tias. Sentaram a velha na cadeira, cada um pegou numa perna e subiram as escadas, gritando, com a velha firmemente agarrada ao assento. Eu vibrava, teria querido aplaudir; minhas tias estavam apopléticas.

– Loucos! Vocês são loucos!

– Louca é você!

– Quase matam ela!

– Que matar o quê!

As mulheres pisavam duro, os homens riam entre si. Tenho certeza de que a velha gostou.

Quem lê este blogue pode pensar que o dono é tarado por mulheres que cantam e tocam piano. Oh, talvez seja. Or maybe it’s just the season again for ladies who play piano and sing, sei lá.

Sara Bareilles – sobrenome afrancesado, né? Barrêie (ops), embora os americanos pronunciem Buréyls – é essa menina californiana de nariz esquisito e cabelo liso. Tudo nela é about average, exceto talvez o ar de bagunceira. Essa aí, Vegas, é dela. Entre 2:42 e 2:44, atenção, temos uma legítima blue note:

A letra não é um primor, mas é esperta: “It’s never your fault you can’t start you own winning streak/But I’d hate to lose you to the fortune you seek”. Tem fumos – apenas fumos – de jazz. Ela está no primeiro disco e, no momento, esquizofrênica entre pretensões pop e esse gosto mais esfumaçado. A música com que ela estourou se chama Love Song e é muito diferente disso aí. Cliquem aqui, já que a incorporação está desativada, e vejam. Parece coisa dos McFly – esquizofrênica, eu disse -, mas ela fica especialmente lindinha de vestido branco. E que cara de gozadora. Ah, e ela tem um blogue engraçado.

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Esta pode ser também a estação do fado. Os Deolinda – não soa esquisito, os Deolinda? – saíram ao Rossio no ano passado e estão, para os padrões lusitanos, bombando. Abaixo, eles tocam três canções: Fado Toninho, Fon-Fon-Fon e Movimento Perpétuo Associativo.

O nome dessa cantorazinha excepcional é, ju-ro-por-Deus, Ana Bacalhau. Deve ser programa de rádio, senão a teriam filmado de frente. Não achei a engraçadíssima Garçonete da casa de fado, onde essa gozadora imita uma brasileira à perfeição (e onde o bananão faz triste figura). Procurem e baixem no SoulSeek mais próximo, vale a pena. E gracias, Julia.

O pesadelo da história

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