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Lendo as três primeiras estrofes d‘Os Lusíadas, aprendi que:

  • Barões assinalados, non assinalados Barões;
  • força humana, non humana força;
  • gente remota, non remota gente;
  • memórias gloriosas, non gloriosas memórias;
  • terras viciosas, non viciosas terras;
  • obras valorosas, non valorosas obras;
  • navegações grandes, non grandes navegações;
  • peito ilustre, non ilustre peito;
  • Musa antiga, non antiga Musa;
  • valor mais alto, non mais alto valor.

É verdade que lá no meio tem ocidental praianovo Reino, mas olhem o placar: 10 a 2.

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Se alguma vez aquela espécie mais rara de amor romântico, que foi a verdade sustentada pelos trovadores, sair de moda e for tratada como uma ficção, poderemos ver alguma incompreensão como a do mundo moderno acerca do ascetismo. Pois parece concebível que alguns bárbaros tentem destruir o cavalheirismo no amor, assim como os bárbaros que governavam em Berlim destruíram a cavalaria na guerra. Se isso acontecer, teremos a mesma espécie de zombarias sem inteligência e questões sem imaginação.  Os homens perguntarão qual foi aquela espécie de mulher egoísta que exigia tributos em forma de flores ou que criatura avarenta ela deve ter sido para exigir ouro sólido na forma de um anel, assim como perguntam que tipo de Deus cruel exigiria o sacrifício e a autonegação. Terão perdido o indício de tudo o que os amantes entenderam como amor e não compreenderão que era feito porque não era exigido.

CHESTERTON, G. K. São Tomás de Aquino e São Francisco de Assis. São Paulo: Madras, 2012, p. 186.

Hora do almoço, vou à Livraria Cultura. Escolho meus livros e vou ao caixa, onde há um rapaz bem inserido nas normas dos jovens urbanos e informados (não cultos; informados) de hoje em dia: barbudinho, branquinho, magérrimo e, embora eu não as veja, decerto portando umas tantas tatuagens. Ele passa meus livros e me avisa que, em obediência a alguma dessas leis idiotas que a bonzinhice anda impondo, estão parando de fornecer sacolas plásticas – e tenta me vender uma eco bag de $ 2,50.

Recuso a eco bag, passo o meu cartão e, enquanto espero a nota, vejo que os outros caixas vão tranquilamente botando as compras dos demais clientes em grandes e tradicionais sacolas plásticas. Meu dileto vendedor também vê, e me diz:

— Bem, senhor, nós ainda temos sacolas plásticas à disposição; o senhor vai querer?

Quero, como não? Ele pega a menor de todas e submete meus pobres livros a uma situação de metrô às oito da manhã. Enquanto ele faz isso, pergunto:

— Quando vocês pararem de vez com as sacolas plásticas, vão nos dar o quê? Sacolas de papel, talvez?

Ele me olha como se eu fosse um pobre débil mental.

— É que, senhor, o papel também é antiecológico.

Numa livraria.

Isto está abandonado, hein. Culpa do twitter e de suas facilidades: ele deixa que meus talks sejam, além de silly, instantâneos. Mas vamos devagarinho, devagarinho, retomando as actividades.

* * *

Julie London era bonita e gostosa e talvez (não sei) até boa atriz. No entanto, o que fazia dela um tesão de derreter é como e o que cantava. Abaixo, a chapa da moça, que se diz capaz de chorar rios pelo sujeito:

Aqui, ela dá tchauzinho ao passo-preto. Reparem na cortesia do começo, e, oh, em tudo o mais:

Não sei o nome desse afortunado baixista. Viram como ela canta o “bye-bye”? E, por fim, vejam-na pedindo pro cara ir na manha:

No further comments.

* * *

Talvez eu não devesse dizer, mas uma das razões que vêm me mantendo longe daqui, Twitter à parte, é que, oh, hum, parece que comecei a escrever algo a sério. Mais detalhes, se os houver, no futuro.

* * *

Eu gosto bastante de Julian Barnes, que é um desses escritores cuja prosa, despretensiosa e clara, nem sempre é memorável, mas que nos entretêm com inteligência e algum humor e bom gosto. Ele me lembra os bons amigos das conversas civilizadas e dos risos claros. Dele peguei, e vos venho recomendar, “Nada a temer”, Nothing to be frightened of, que é uma reflexão leiga, atéia, sensível e inteligente sobre a morte. Sem surpresa nenhuma descubro no texto um monte de reflexões que venho fazendo sobre isso. Talvez a o elegante e divertido parágrafo de abertura lhes dê uma idéia do tom do livro, cujo peso se dissipa em parte nessa leveza:

“Não acredito em Deus, mas sinto falta d’Ele. É isso o que eu digo quando essa questão é abordada. Perguntei ao meu irmão, que ensinou filosofia em Oxford, em Genebra e na Sorbonne, o que ele achava dessa declaração, sem dizer que era minha. Ele respondeu com uma única palavra: ‘Piegas’”.

Pois sim, meu caro Julian, eu também sou piegas segundo os padrões pesados de Oxford, Genebra, Sorbonne. Não é, nem de longe, o pior que nos podia acontecer, é?

O dia é das crianças, e pensando nelas (e na que fui) trago o linque do admirável sítio Art Passions. É um sítio que tem montes e mais montes de scans de ilustradores de livros infantis – de quando ilustrar era uma arte fora do alcance das concepções de gente como o Basquiat. Quem cuida é uma moça, cujo nome não sei; ela tem quase todo mundo lá. O primeiro que vos apresento é o muito maravilhoso Arthur Rackham, numa ilustração feita para Peter Pan:

São fadinhas.

São fadinhas.

Depois, o não menos apaixonante Kay Nielsen, e esta ilustração de um conto nórdico que não sei qual é:

Elas vão dançar.

Elas vão dançar.

Por fim, esta não menor maravilha de Edmund Dulac, da história do Rouxinol de, salvo engano, Andersen:

Lar de maravilhas.

Lar de maravilhas.

Há outros lá, inclusive o soberbo Aubrey Beardsley. Vão lá. Eu encerro aqui com uma senhora que não tem lá, e que é uma das favoritas da minha infância, Mabel Lucie Attwell, cujos bicos de pena nos livros de Monteiro Lobato eu amava:

Deixa a gente entrar, tia!

Deixa a gente entrar, tia!

UBIK coverQuem leu Tlön, Uqbar, Orbis Tertius de Borges lembra-se de que o conto começa falando de um mundo fictício, projetado às expensas de um milionário ateu, e termina com a descoberta, chocante, de que aquele mundo começava a invadir o nosso, fazendo com que a realidade cedesse e lhe abrisse espaço, de tal sorte que um dia nosso mundo se tornasse Tlön. O conto é muito bom, muito fascinante e, sempre achei, tem mais humor do que geralmente se lhe credita.

Esse conto tem, com vinte e tantos anos de antecipação, todo o leitmotiv da obra de Philip K. Dick: a realidade que cede, ou a realidade que nada tem de real. Talvez por isso alguém disse, com evidente exagero, que Dick foi o Borges da Ficção Científica. Não foi; para ser o Borges de qualquer coisa é preciso, primeiramente, escrever bem, e Dick escrevia mal. Abusava de frases relatoriais e clichês idiotas de FC (“meus sensores indicam que…”). E, apesar disso, suas histórias são tão estranhas que acabam prendendo a atenção.

“Ubik” só havia saído, há muitos anos, em edição portuguesa da Europa-América. O título não engana ninguém: fala de ubiqüidade. Apenas, a estende ao ponto de realmente incomodar. Conta a história de um bando de paranormais que caem numa emboscada (não fica claro qual o objetivo dessa emboscada) e que são mantidos, como é praxe no contexto da história, congelados num estado de semi-vida. O patrão deles tenta fazer contato com suas consciências, enquanto a realidade que conhecem (e que não é realidade: são as imagens que suas mentes guardaram do mundo) vai cedendo, e o tempo começa a recuar. Nesse processo, seu patrão se torna ubíquo: a cara dele aparece no dinheiro, eles o vêem na TV, mensagens dele surgem pichadas em paredes de banheiros e em pacotes de cigarros tirados aleatoriamente de supermercados em cidades distantes. No final do livro, entendemos, junto com o paranormal restante, que eles estão mortos; porém uma coisa estranha acontece com o patrão, e começamos a desconfiar de que ninguém mais sabe quem está realmente morto e quem não.

Em “O homem do castelo alto”, a Segunda Guerra foi vencida pelo Eixo. Os Estados Unidos estão divididos em três pedaços: a costa oeste é província japonesa, a costa leste é província alemã, e uma faixa central se mantém independente (e irrelevante) a duras penas. Os japoneses da costa oeste colecionam a pop art vagabunda pré-guerra: gibis do Super-Homem, bolsas da Betty Boop, garrafas originais de Coca-Cola. Um sujeito enriquece vendendo isso a eles. Ao mesmo tempo, um escritor da faixa central lança livros de fantasia cujas histórias se passam num mundo onde o Eixo perdeu a guerra. E o vendedor de tranqueiras se perde nesse mundo (o nosso?) por alguns minutos: a realidade dele cede (à nossa?).

A editora Aleph, que lançou esses dois, vai lançar no ano que vem o mais estranho dos livros dele (dos que li, bem entendido): “Os três estigmas de Palmer Eldritch”, no qual esse senhor do título se transforma, sob condições especiais e não inteiramente compreensíveis, em Deus.

Dick era louco. Começou a ter alucinações a uma certa altura da vida, e acreditava que sua mente tinha sido invadida por uma forma superior de inteligência. Coemçou a achar que vivia duas vidas simultâneas, uma no seu tempo, como Philip K. Dick, e outra no século I, como um cristão perseguido pelos romanos. Ficou paranóico, achando que a KGB e o FBI queriam matá-lo; depois, se dizia possuído pelo espírito do profeta Elias. Morreu, compreensivelmente, de derrame cerebral.

Falei de Tlön, Uqbar, Orbis Tertius, mas na verdade acho que Dick está mais para Pierre Menard. A este, Borges atribuiu uma lista de obras que era “um diagrama de sua história mental”. Parece que é exatamente o caso de Dick. Borgeano, mas pela porta dos fundos.

P. S. tardio (17/09/09): leio na página 164 da edição brasileira de “Valis”, da Editora Aleph, uma referência à afirmação de Schopenhauer de que o gato que brinca hoje no jardim é o mesmo que brincava há trezentos anos. É a mesma citação que Borges faz no ensaio “O rouxinol de Keats” (in Outras inquisições; Companhia das Letras, 2007, p. 137/141). Virão daí – dessa pequena coincidência – as comparações?

2745778Entre os anos 2000 e 2001, eu acompanhava a troca de e-mails abertos entre Ivan Lessa e Mário Sérgio Conti no UOL – troca que acaba de virar esse livro cuja bonita capa está aí ao lado. Lia por causa do Lessa e não do Conti. Não que o Conti seja ruim nem nada, mas quem ganha do Ivan Lessa atualmente quando o assunto é escrever em português brasileiro? Para mim, ninguém. Pois eu ia lá, lia e gostava muito dele, e menos mas também bastante do Conti (de longe o mais afetado dos dois, o mais “intelectualmente exibicionista”, como diz a imbecil crítica do imbecil crítico da imbecil página de entretenimento do imbecil UOL). Havia um lugar para que os leitores comentassem, chamado de “Mural” – a palavra parece mais tonta hoje do que há nove anos, mas na época já parecia bem idiotinha, tanto que Lessa chamava os comentaristas de “muralistas”, caçoando muito de todos. Eu era um deles: muralizava às vezes com meu nome, às vezes como uma bicha “regenerada” que discutia com outro muralista (que eu nunca soube quem era) as delícias da vida straight: ir à feira com a namoradinha nova, por exemplo. Quase inesquecível mural, como quase inesquecível é mais alguém que conheci ali, e a quem por um triz não fiz a besteira de mandar um exemplar de presente.

Estou pela metade desse livro, que inclui também os e-mails que os autores trocaram entre si, de forma particular, durante aquele tempo, e que está também vitaminado com algumas notas de rodapé muito zombeteiras (provavelmente, pelo jeitão, do Conti). Embora as muitas alusões gozadoras aos “muralistas”, parece, tenham sido suprimidas, isso na verdade não importa: é tudo uma delícia. O preço é 45 paus, mas quem for na Cultura tira, por enquanto, a 32. Vão lá.

* * *

Tenho amigos místicos – alguns comentam aqui – que dizem, uns com pompa, outros em tom normal, que coincidências não existem. Eu, sem pompa mas também sem humildade, confesso que disso nada sei. Prefiro manter minha fé em que existam sim coincidências, e que elas são os buraquinhos que a(s) divindade(s) deixou(aram) no seu plano para que a realidade respire um pouquinho, não sufoque dentro da caixinha.

Leiam com atenção:

Optou, como era de se esperar, pela melhor escolha possível: o novo Apple Powerbook G4 de 1Ghz, com tampa de alumínio e dotado de um processador PowerPC 7451, AltiVec Velocity Engine, memória RAM de 960 megas (sic) e disco rígido de 60 gigas (sic). Tinha Bluetooth e um gravador de CD e DVD integrado.

Mais que isso, era o primeiro notebook do mundo com tela de 17 polegadas, uma placa Nvidia e resolução de 1440 por 900 pixels que deixavam embasbacados adeptos dos PC e faziam esquecer tudo o que havia de novo no mercado.

Isto não é uma propaganda da Apple de 2004; são dois parágrafos copiados da página 201 do romance “Os homens que não amavam as mulheres”, de Stieg Larsson, aqui lançado com sucesso e cópia de elogios pela Companhia das Letras.

Nunca tinha visto nada parecido fora de livros de doutrinação ou daqueles onde o prop não dispensa a companhia do agit. Deve ser uma novidade, um marco. (Não assim o fato corriqueiro de ser horrendamente mal escrito.)

O que segue é comprido – logo eu que detesto ler coisas grandes no écran. É uma transcrição de um trecho do excepcional prefácio que E. M. Cioran escreveu para a sua “Antologia do retrato”, entre as páginas 23 e 26 da edição de 1998 da Rocco.

* * *

A inteligência, convertida em superstição, se levanta contra todos os valores exteriores a seu exercício e não oferece nenhuma aparência de realidade a que nos possamos agarrar: ela é vazia. Quem se apega a ela por culto ou mania chega forçosamente à “privação do sentimento” e ao remorso de ter sacrificado a um ídolo que só distribui tédio e desolação, como o atesta, documento capital, a carta que Mme du Deffand escreveu a Walpole a 1º de abril de 1769:

Dizei-me por que, detestando a vida, eu receio a morte? Nada me indica que tudo não se acabará comigo; ao contrário, me dou conta do desmoronamento de meu espírito, bem como do de meu corpo. Tudo o que se diz pró ou contra não me causa impressão alguma. Só escuto a mim mesma, e só encontro dúvida e escuridão. Crer, dizem, é o mais seguro; mas como crer no que não se compreende? O que não se compreende pode existir, sem dúvida; também não o nego; sou como um surdo e cego de nascença; há sons, cores, isso ele admite, mas sabe ele o que é que está admitindo? Se basta não negar, ainda bem; mas isso não basta. Como se pode decidir entre um começo e uma eternidade, entre o cheio e o vazio? Nenhum dos meus sentidos me pode ensiná-lo; que se pode aprender sem eles? Entretanto, se não creio no que é preciso crer, sou ameaçada de ser mil vezes mais infeliz depois de minha morte do que o sou durante a minha vida. A que se determinar, se é possível se determinar? Peço-vos, a vós que tendes um caráter tão verdadeiro, assumir o compromisso de, por simpatia, encontrar a verdade, se ela é encontrável. É das coisas do outro mundo que é preciso me informar, e me dizer se estamos destinados a desempenhar nele um papel.

A mim me cabe falar-vos deste mundo de cá. Em primeiro lugar digo-vos que ele é detestável, abominável etc. Há pessoas virtuosas, ao menos que podem parecê-lo, enquanto não atacamos sua paixão dominante, que é de ordinário, naquelas pessoas, o amor da glória e da reputação. Embriagadas com elogios, muitas vezes parecem modestas; mas os cuidados que tomam para consegui-los denunciam o motivo e deixam entrever a vaidade e o orgulho. Eis o retrato da maioria das pessoas de bem. Nas outras são o interesse, a inveja, o ciúme, a maldade, a perfídia. Não há uma só pessoa a quem se possa confiar as aflições sem lhe proporcionar uma alegria maligna e sem se aviltar a seus olhos. Falar de prazeres e êxitos? Isso faz nascer o ódio. Praticais o bem? O reconhecimento pesa, e encontram-se razões para se eximir dele. Cometeis algumas faltas? Elas jamais se apagam; nada pode repará-las. Vedes pessoas inteligentes? Só estão ocupadas com elas mesmas; desejam ofuscar-vos e não se darão ao trabalho de vos instruir. Tendes negócio com espíritos mesquinhos? Eles estão atrapalhados com o próprio papel, manifestarão descontentamento com sua esterilidade e sua pouca inteligência. Na falta de espírito encontram-se sentimentos? Alguns, nem sinceros, nem constantes. A amizade é uma quimera; só reconhecem o amor; e que amor! Mas basta, não quero levar mais longe minhas reflexões: elas são o produto da insônia; reconheço que um sonho seria preferível.

Dificilmente se encontraria um texto em que se exprime com mais energia o drama da lucidez, desse estado extremo a que chega a intemperança da inteligência, e em que se é cortado de tudo, em que se deixa de ser natureza. A infelicidade quer que, uma vez lúcida, a pessoa fique assim cada vez mais; nenhum meio de trapacear ou recuar. E esse progresso se realiza em detrimento da vitalidade, do instinto. “Nem romance, nem temperamento”, dizia de si mesma a Marquesa. Compreende-se por que sua ligação com o Regente não foi além de duas semanas. Eles se pareciam perigosamente, tinham-se distanciado demais das próprias sensações. O tédio, tormento comum a ambos, não se regozija no intervalo que se abre entre o espírito e os sentidos? Quanto mais movimento espontâneo, mais sinal de inconsciência. O “amor” é o primeiro a se ressentir. A definição que disso deu Chamfort convinha perfeitamente a uma época de “fantasia” e de “epiderme”. Rivarol se gabava de poder, no auge de uma certa atividade, resolver um problema de geometria. Tudo era cerebral entre esses espíritos, até o espasmo. Fenômeno ainda mais grave, tal alteração dos sentidos, em lugar de abalar somente alguns isolados, torna-se a deficiência, a maldição de uma classe, extenuada e esvaziada pela prática constante da ironia.

Quem quer se instalar numa realidade ou optar por um credo, mas não consegue, entrega-se por vingança a ridicularizar aqueles que conseguem isso naturalmente. A ironia deriva de um apetite de ingenuidade, decepcionado, insatisfeito, e que, à força de malogros, se exaspera e se envenena. Adquire inevitavelmente uma extensão universal; e se ataca de preferência a religião e procura miná-la com fúria, é porque sente em segredo a amargura de não poder crer. Ainda mais perniciosa é a zombaria acerba, raivosa, degenerada em sistema e confinando com a autodestruição. Em 1726, estando a Marquesa de Prie exilada na Normandia, para lá seguiu  Mme dy Deffand para lhe fazer companhia. Em sua Histoire de la Régence, Lemontey conta que “estas duas amigas se enviavam mutuamente cada manhã as coplas satíricas que compunham uma contra a outra”.

Numa sociedade em que a maledicência era obrigatória e em que se ficava acordado por medo da solidão (“Não havia nada que ela não preferisse ao desgosto de se deitar”, dizia Duclos de uma das elegantas da época), só podia haver de sagrado a conversação, os comentários corrosivos, as frases de construção brilhante e de intenção mortífera. Ninguém sendo poupado, Montesquieu tinha razão de assinalar, como um aspecto característico da época, a “decadência da admiração”. Tudo se liga: sem candura, sem piedade, nenhuma capacidade de admirar, de considerar os seres neles mesmos, em sua realidade original e única, fora de seus acidentes temporais; eufórica, estimulante, a admiração, genuflexão intelectual que não implica nem humilhação nem sentimento de impotência, é a prerrogativa, a convicção e a segurança das almas puras, precisamente daquelas almas que não freqüentam os salões.

* * *

Para a querida, queridíssima M. T., que é uma alma pura que sofreu nas mãos dos que freqüentam, ou aspiram a freqüentar os salões. É verdade que a igenuidade sua e minha, M., não desculpa nem isenta nada: é perfeitamente possível se surpreender com a maldade alheia e esquecer a maldade própria. Não é o seu caso, porém: você não tem maldade nenhuma e eu te admiro.

Ao mesmo tempo, me pergunto se não sofro desse mal: eu subscreveria a carta de Mme du Deffand, se tivesse engenho e arte para escrevê-la.

Respondendo, ou obedecendo – não sei bem – ao repasse de um meme por parte do Tarcísio Schivaldo, vos digo que a coisa é assim: devo pegar o livro que estiver mais perto de mim, abri-lo na página 161 (qual será a desse número?), pegar a quinta frase completa e botá-la aqui. E depois repassar o memememememe a outras cinco pessoas.

Bem, o livro mais à mão aqui é “A força das idéias”, de Isaiah Berlin; a quinta frase completa da página 161 é:

“Quando falamos de liberdades civis ou de valores civilizados, isso é parte do que queremos dizer.”

“Isso o quê?”, você deve estar se perguntando. Ora, eu sei, mas não posso falar, para não quebrar o espírito do meme. O título do ensaio, se ajudar, é “Liberdade”.

Repasso-o, como se manda, a 5 pessoas: Rosa Marinha, Yan Kaô, Dr.  Venardi, M. Melô e Caio Marinho. Boa sorte.

O pesadelo da história