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Lendo as três primeiras estrofes d‘Os Lusíadas, aprendi que:

  • Barões assinalados, non assinalados Barões;
  • força humana, non humana força;
  • gente remota, non remota gente;
  • memórias gloriosas, non gloriosas memórias;
  • terras viciosas, non viciosas terras;
  • obras valorosas, non valorosas obras;
  • navegações grandes, non grandes navegações;
  • peito ilustre, non ilustre peito;
  • Musa antiga, non antiga Musa;
  • valor mais alto, non mais alto valor.

É verdade que lá no meio tem ocidental praianovo Reino, mas olhem o placar: 10 a 2.

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“Não houve nenhum fato determinado. Nenhuma decepção específica. Foi uma questão de reflexão, de experiência de vida, de as coisas irem acontecendo.”

As palavras acima são de Ferreira Gullar, na VEJA desta semana, e são a explicação que ele dá para sua defecção do comunismo. Substituindo a palavra decepção por revelação, servem muito bem para explicar também minha mudança do ateísmo para o agnosticismo e deste para o catolicismo. Nenhum fato determinado, nenhuma revelação específica, muita reflexão e muita atenção ao mundo, aos homens, às coisas, aos modos e às palavras.

Não sei se essa maneira de conversão, de periagoge, é comum. Foi a minha. Amigos se espantam quando digo que Deus faz sentido. Não estranho: não faz muito tempo que eu mesmo me espantava. Hoje me espanta muito mais a arrogância com que eu tratava uma coisa sobre a qual eu sabia pouco, quase nada; como aderia irrefletidamente a “opiniões” fundamentadas nessa mesma ignorância; e como desprezava um pensamento cuja profundidade me escapava. Me espanta e horroriza o que eu tinha de comum achando, bobo, que era incomum. Deploro a preguiça de pensar que me levou a ser assim, que fez com que eu me acomodasse ao que vai pelo mundo em vez de procurar o que fizesse sentido.

É, em todo caso, muito cedo para dizer que me corrigi. Há vícios que aderem e há vícios que nos formam – destes últimos, tenho demais. Mas, como se recomenda, oro et, conforme consigo, laboro.

Se alguma vez aquela espécie mais rara de amor romântico, que foi a verdade sustentada pelos trovadores, sair de moda e for tratada como uma ficção, poderemos ver alguma incompreensão como a do mundo moderno acerca do ascetismo. Pois parece concebível que alguns bárbaros tentem destruir o cavalheirismo no amor, assim como os bárbaros que governavam em Berlim destruíram a cavalaria na guerra. Se isso acontecer, teremos a mesma espécie de zombarias sem inteligência e questões sem imaginação.  Os homens perguntarão qual foi aquela espécie de mulher egoísta que exigia tributos em forma de flores ou que criatura avarenta ela deve ter sido para exigir ouro sólido na forma de um anel, assim como perguntam que tipo de Deus cruel exigiria o sacrifício e a autonegação. Terão perdido o indício de tudo o que os amantes entenderam como amor e não compreenderão que era feito porque não era exigido.

CHESTERTON, G. K. São Tomás de Aquino e São Francisco de Assis. São Paulo: Madras, 2012, p. 186.

APRESENTADOR: Em nossos estúdios em São Paulo, a Marcolina Macieira está com Rolando Quaresma, especialista em nado cachorrinho, que vai explicar as diferenças entre uma cenoura e um cadeado. É isso mesmo, Marcolina?

MARCOLINA: Isso mesmo, Paolillo. Rolando Quaresma tem graduação em nado cachorrinho, é mestre na Unicamp na área de sanitarismo do show-business, e vai nos ensinar as diferenças entre uma cenoura e um cadeado. Bom dia, Rolando.

ROLANDO: Bom dia.

MARCOLINA: Então, Rolando… nesta questão de diferenciar uma cenoura de um cadeado, como é que a gente deve proceder?

ROLANDO: Bom, existem mesmo de fato algumas diferenças básicas entre uma cenoura e um cadeado, Marcolina. Primeiramente, nós podemos apontar assim uma distinção de funções, né?

MARCOLINA: Certo.

ROLANDO: Enquanto que a cenoura tem uma função mais assim, digamos, alimentícia…

MARCOLINA: Podemos dizer assim mais “nutricional”?

ROLANDO: Exatamente, exatamente, mais nutricional, mais voltada, digamos, à questão da nutrição do indivíduo… então, enquanto a cenoura tem essa função, o cadeado já age mais numa área que eu diria que está voltada à segurança, inclusive, né?, no lado mais patrimonial.

MARCOLINA: Certo.

ROLANDO: Depois, temos também a questão da origem, né? Enquanto que a cenoura geralmente vem de uma procedência mais assim, de certo modo, agrícola, né?, com a questão do plantio, da…

MARCOLINA: …do adubo…

ROLANDO: Isso mesmo, do adubo, e depois de ir pro Ceagesp e daí para as feiras e gôndolas de supermercado e tal… Então, enquanto que a cenoura prima mais por essa origem, já o cadeado advém de um processo mais para a manufatura, que envolve a extração de minérios, as forjas, e até, né?, um certo lado assim militar, estratégico e tal.

MARCOLINA: Você falou das gôndolas de supermercado, e eu acho que aí pode estar a origem de uma certa confusão, né? Porque, exatamente, nós temos cenouras e cadeados à venda nos supermercados, e daí às vezes nasce a confusão.

ROLANDO: Exatamente. E não só a confusão entre cenouras e cadeados, mas também entre panettones e lâmpadas fluorescentes, e até têm crescido os casos de pessoas confundindo buchas de lavar louça com postas de salmão. Realmente, é bastante complicado.

MARCOLINA: Bom, mas aí a gente estaria complicando o nosso assunto. Vamos nos ater à questão das cenouras e dos cadeados. Você falou das funções e das origens, mas para quem está às voltas com a questão prática, de ter nas mãos um objeto que ele não sabe se é cenoura ou cadeado, como faz para saber a diferença?

ROLANDO: A dica aí é atentar para o formato e as cores. Não tem como errar. A cenoura é aquele objeto macio, comprido, às vezes um pouquinho sujo de terra, com aquela cor característica meio alaranjada do beta caroteno.

MARCOLINA: E tem um talinho verde em cima, não tem?

ROLANDO: Geralmente nas feiras, né, que eles não tiram. Nos supermercados, pode acontecer dela não ter o talinho verde, mas as demais características que eu falei, da cor, da consistência e do formato…

MARCOLINA: Ficam mantidos.

ROLANDO: Ficam, ficam mantidos. Já quanto ao cadeado, ele é um objeto mais duro, mais metálico, com uma cor meio dourada na base e com um inconfundível aro prateado em cima, que é justamente a parte móvel, a que abre para que ele possa depois ser fechado e trancar coisas.

MARCOLINA: Certo.

ROLANDO: Além disso, ele geralmente vem em caixinhas de papelão, né, que identificam o produto.

MARCOLINA: Ou seja, vem escrito…

ROLANDO: Isso mesmo, vem escrito “cadeado”, né, e geralmente assim acompanhado do logotipo de algum fabricante e tal.

MARCOLINA: Parece que tem também a questão de uma chave…?

ROLANDO: Isso mesmo, bem lembrado, isso mesmo. O cadeado geralmente necessita de uma chave para ser aberto, que inclusive deve acompanhar o produto quando ele for comprado. Já a cenoura dispensa completamente essa pequena chave.

MARCOLINA: Essa é a dica, então? Tem chave, é cadeado; não tem chave, é cenoura.

ROLANDO: Isso mesmo. Sempre lembrando que as demais características, analisadas assim em conjunto, é que vão estabelecer a diferença de forma definitiva.

MARCOLINA: Muito obrigada, Rolando. É com você, Paolillo.

A língua inglesa tem duas palavras para se referir ao aborto: miscarriage, quando ele é natural, e abortion, quando ele é provocado. Os debates furiosos naquele país são sempre em torno de abortion, nunca de miscarriage: assim como as palavras, as noções não se confundem.

Entre nós, a preguiça, o esquecimento e a malícia muitas vezes impedem imprensa e prosélitos deste e daquele lado de complementar as idéias, adicionando ao termo “aborto” os qualificativos que impedem a confusão.

Assim, quem vê na capa de um jornal como o Diário de São Paulo que uma em cada cinco mulheres já fizeram aborto é induzido a acreditar, pelo verbo da manchete e pela ausência do qualificativo, que esses incríveis vinte e cinco milhões de mulheres praticaram abortion. E, por conseqüência, é levado a se perguntar quantas mais, ou quantas dessas, já tiveram miscarriages, e quais os números de cada um.

E, é claro, a quem interessa misturar as duas coisas.

* * *

Não se deve esperar dos cristãos, sejam católicos ou evangélicos (estes com a exceção do bizarro Edir Macedo), posições favoráveis à descriminalização do aborto.

O argumento é simples: aborto provocado é assassinato. Essa é, aliás, a mesma noção que os põe contra a eutanásia: matar alguém, pela razão que for, é assassinato. Só Deus pode dar a vida, e só Deus pode tirá-la. Ponto final.

O dogma, inumeráveis vezes violado, é central à fé cristã. Se e quando ele mudar, teremos um outro cristianismo – se cristianismo for.

* * *

Entre assumir suas declarações pró-aborto e ratificá-las ou retificá-las, Dilmão e PT escolheram a terceira via stalinista de tentar reescrever o passado e transformar fato em boato. Para isso contaram, sem dúvida, com o salvo-conduto dado ao partido por uma população psicoticamente anestesiada por oito anos de histeria mistificadora.

O que não esperavam foi a forte reação de parte da sociedade, despertada da anestesia psicótica ao finalmente perceber, nessa manobra desastrada, o que deveria ter sido evidente desde o começo deste governo: a compulsão patológica do partido e de seus quadros para a mistificação e a mentira.

Ganhem ou percam a eleição, o estrago está feito: Dilmão e PT terão, doravante, muito mais dificuldades para continuar a refazer a história à base de berros, mentiras e falsa indignação.

How many loved your moments of glad grace
And loved your beauty with love false or true;
But one man loved the pilgrim soul in you,
And loved the sorrows of your changing face.

Caro Orlando

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Permanecemos à sua disposição.

Senhores:
não recebi as duas últimas edições da VEJA – a da semana passada, e a desta (já são 13 horas do domingo e nada dela ser entregue).
Como não as recebi, não sei qual o assunto da capa, muito menos o número da edição. Eu podia ir a uma banca ver, mas ia me sentir ainda mais idiota do que já estou me sentindo.
O que eu quero saber é:
1) por que as revistas não vêm?
2) quando começarão a vir de novo?
3) por que é tão difícil dar respostas claras a essas perguntas tão simples?
Orlando
Código de assinante: 914.851.233

* * *

Senhores:

não recebi as duas últimas edições da VEJA – a da semana passada, e a desta (já são 13 horas do domingo e nada dela ser entregue).

Como não as recebi, não sei qual o assunto da capa, muito menos o número da edição. Eu podia ir a uma banca ver, mas ia me sentir ainda mais idiota do que já estou me sentindo.

O que eu quero saber é:

1) por que as revistas não vêm?

2) quando começarão a vir de novo?

3) por que é tão difícil dar respostas claras a essas perguntas tão simples?

Orlando – Código de assinante: xxx.xxx.xxx


Oh, método científico! Matemática!

"Que sistema reprodutor gostoso, gata!"

Uma vez li o blogue de um imbecil que dizia se sentir pessoalmente insultado toda vez que o Kaká, ao fazer um gol, mostrava uma camiseta dizendo que Deus é bacana. Para o tal blogueiro, ler “Deus te ama” é o mesmo que ler “Vai tomar no cu”: ele fica revoltado, ele quer abrir processo.

Agora li por aí que a FIFA quer punir times e jogadores de futebol que, cito, “façam alusão à religião”. De onde sou levado a concluir que aquele blogueiro não era um idiota isolado, e que Jesus virou palavrão ou símbolo de coisa feia para uma legião.

Nasci no século passado, de pai italiano que se lixava ecumenicamente para todos os credos e detestava amolação, mas não reprimia nada. Sou geneticamente avesso à devoção, portanto, mas não posso deixar de achar bem esquisito o mundo novo em que Deus, Alá e Oxalá são considerados tão daninhos à sociedade quanto cigarros. Ou em que confessar um credo seja como confessar uma tara.

Sou agnóstico e não-fumante, mas nada tenho contra fumo e reza. Bem esquisito este mundo novo em que se querem praticar restrições em nome da tolerância.

Vocês vão me perdoar, mas eu não resisti. Reação de Hitler à morte de M. J.:

– Vão tocar Heal the World de cinco em cinco minutos, até que a gente comece a cagar arcos-íris!

A reencarnação, segundo nos ensinam os teosofistas e seus repetidores, é um mecanismo de aperfeiçoamento do espírito pela reincidência na experiência material. Falando em língua de gente: você morre e renasce sucessivamente, experimentando o que o mundo tiver de experimentável, e vai melhorando, se aperfeiçoando, no entrementes. É como tomar lições de piano: a cada tentativa sua execução melhora um pouquinho. A essas melhorias os teosofistas, e nós a reboque, chamam evolução. Apenas, o pianista geralmente enxerga o final de seus esforços: a sala de concertos, o estúdio de gravação, o aplauso geral. Já o espírito – eu, tu, eles – permanece sem saber para onde e, principalmente, para que está evoluindo: espera-se somente que, a uma certa altura, perceba.

A seguir, apresento o estado evolucionário atual de certos luminares que, para melhoria do nosso tônus vibracional e status quo moral, por aqui reencarnaram.

Voltaire evoluiu da condição de filósofo iluminista para a de proxeneta e vagabundo. Mora no Ipiranga, tem três filhos, é sustentado pela mulher, é malquisto por parentes e vizinhos e ensaia uma oeuvre. O sorriso ainda é o mesmo.

Madame Blavatski abandonou os charutos e ocasionais levitações. A gente nacional a impacienta, por isso não pára em empregos e nem com namorados. Vende coisas indefinidas que ela mesma, indefinivelmente, faz. É meio histérica. Tem olhos claros e vive atualmente em Taboão da Serra.

Edgar Allan Poe parou de beber: agora come. Segue com a melancolia em baixa nos muitos dias de sol, mas ainda tem um gosto por palavras e sintaxe complicadas. Sabe que rima é coisa de parnasiano mas, secretamente, conta lá suas silabazinhas. Mora no Brás e tem apenas duas calças. Solteiro.

Jonathan Swift ainda não enlouqueceu de novo, mas esteve perto quando do seu terceiro divórcio. Suas propostas hoje são bem menos modestas: o comunismo já foi uma delas. Hoje, ele só propõe à sexta mulher que o deixe cochilar em paz. Mora em Ipanema e tem mais de setenta.

Primo Levi tomou o corpo de um vivente em Osasco. Está tentando ser bem-humorado, mas nem sempre dá certo. Mora na Pompéia, perto do SESC (que ele olha com medo – as chaminés).

Charles Baudelaire conseguiu afinal um lugar na Académie; pena que foi na Brésilienne. Mudaram tanto sua poesia quanto as pessoas que teve que bajular. Subscreveu o Manifesto da Escritorbrás, há alguns anos, e aderiu ao concretinismo e ao jornalismo gonzo. Continua magro e ressentido. Transita entre Porto Alegre e o Rio; finge desprezar São Paulo.

Oscar Wilde mora em Itaparica, é moreno e usa dreadlocks. Chama todo mundo de “minha rainha”, se diz “bem resolvido” e já quis fazer uma coreografia para Ivete (ela não o recebeu). Segue vivendo acima de suas posses.

Dorothy Parker tem um blog. É sarcástico e witty, e tem média de 37 acessos por dia. Ela tem seu own private Algonquin, mas não faz propaganda. Sempre que se senta, faz alguma coisa nervosa e ritmada com as mãos ou com os pés. Dorme pouco e mal. Mora em Pinheiros, mas diz que tanto faz.

Thomas Stearns Eliot continua um bom attendant lord, escrevendo discursos para políticos apenas aparentemente conservadores e sorrindo para mulheres que não lhe sorriem de volta. Desistiu da poesia e da dramaturgia. Mora em Higienópolis, e seu consumo de aspirinas é alto.

Jorge Luís Borges nasceu sabendo ler e escrever. Tem quatro anos, é manezinho da Ilha e espera ansiosamente sua maioridade, quando se mudará para qualquer capital européia que ainda não tenha virado muçulmana.

Camille Claudel está traduzindo Drummond e Hilda Hilst para o espanhol. Mora na Vila Mariana, mas queria mesmo era viver em Itapoã. É jornalista, bem branquinha, e adora o trugundum de um tambor. Tem uma pulseira no tornozelo, dois filhos, inúmeros namorados e um coração que é só amor.

P. S. tardio: faltaram dois. A saber:

Flossie Nightingale mudou de orientação e quis ser Mae West, mas atrasou-se e foi parar na ZL. Continua cuidando sem ser cuidada, amando sem ser amada, sofrendo sem ser sofrida. Trocou o candeeiro por uma chibata, que ela aliás não usa. Boa enfermeira, se automedica – sem resultado. Tem um pomar muito pouco variado.

Curzio Malaparte reencarnou no Brasil mas deu um jeito de voltar à Itália. Retornou para cá de má vontade. Continua pensando, escrevendo e falando mal de todo mundo; quando se arrepende, porém, ninguém fica sabendo. Vive onde não quer, mas com quem quer. As sobrancelhas engrossaram.

O pesadelo da história