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Capas ridículas de gibis do Super-Homem, dica, via tuíter, do Exu Caveira Cover. Minhas favoritas abaixo. A primeira, apresentando o Super-Homem Feio:

Ela dá para qualquer um que use uma capa.

Ela dá para qualquer um que use uma capa.

A segunda, gay friendly com um saborzinho sadomasô:

O terceiro olho também tem visão de calor.

O terceiro olho também tem visão de calor.

O preço da liberdade é o eterno olhar de Raio-X:

Lois Palin versus Super Obama?

Lois Palin versus Super Obama?

Ninguém é feio para todo o mundo:

E outra: a beleza que conta é a interior.

E outra: a beleza que conta é a interior.

O amor leva a estranhas ações:

You give me... you give me the sweetest voodoo...

You give me... you give me the sweetest voodoo...

E, para encerrar, a inspiração secreta dos bolivarianos:

Libertad, kryptonita o muerte!

Libertad, kryptonita o muerte!

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Noutro dia, na saída do metrô Consolação, um camelô vendia pendrives. Kingston. Aparentemente legítimos.

Na mesma semana, vi na esquina da minha rua – cafundós da Zona Leste – um forno de microondas no lixo.

Me senti brevemente japonês.

* * *

Cuba, alertam-me, ameaça parar por falta de papel higiênico. Problema sério num país cujo sufixo na internet é “cu”.

Mas é preciso ter esperança, quando não ternura: finalmente se achará um uso pro Granma.

The fish-slapping dance. Michael Palin (o baixinho do vídeo) diz que esse sketch é um resumo do que o Monty Python era. Concordo. Há um artigo inteiro sobre esse sketch na Wikipedia, onde ficamos sabendo que os peixinhos de Palin são sardinhas, que o peixão de Cleese é um alabote (olá, Sérgio) e que a musiquinha é a Merrymakers dance, de Sir Edward German.

* * *

Compartilho com a humanidade a postura bípede, umas tantas funções fisiológicas e o uso meio incompetente de um idioma (o hábito de andar vestido não é unânime). Minha geração é, como todas, apenas uma colossal coincidência do calendário.

Uma vez perguntaram a Martin Amis o que caracterizava a geração dele. A grossa resposta foi: nada, não somos uma gangue.

É isso aí.

* * *

Quarenta anos desde que Armstrong e Aldrin pisaram na Lua. Eu vi, mas não lembro.

Na USP, quando eu era aluno de letras, havia quem não acreditasse – pensamento crítico deve ser isso.

Lembro de uma aluna, numa aula de Fon-Fon (Fonética & Fonologia, dupla caipira das boas), elevando a voz para dizer que “as provas que eles oferecem são ridículas”. Eles são os americanos, claro, mentirosos por princípio. O professor só a olhava, constrangidíssimo.

* * *

Parte do meu espetáculo de menino-tagarela de dois anos era recitar para as visitas os nomes dos astronautas da Apolo 11: Armstrong, Collins e Aldrin. Suponho que me davam biscoitos depois, e acariciavam meu bico; ‘ello, Polly!, e lá ia eu.

Também me ensinaram a cantar Vanderlei Cardoso. É, a criança abusada explica o homem amargurado.

Oh, método científico! Matemática!

"Que sistema reprodutor gostoso, gata!"

Uma vez li o blogue de um imbecil que dizia se sentir pessoalmente insultado toda vez que o Kaká, ao fazer um gol, mostrava uma camiseta dizendo que Deus é bacana. Para o tal blogueiro, ler “Deus te ama” é o mesmo que ler “Vai tomar no cu”: ele fica revoltado, ele quer abrir processo.

Agora li por aí que a FIFA quer punir times e jogadores de futebol que, cito, “façam alusão à religião”. De onde sou levado a concluir que aquele blogueiro não era um idiota isolado, e que Jesus virou palavrão ou símbolo de coisa feia para uma legião.

Nasci no século passado, de pai italiano que se lixava ecumenicamente para todos os credos e detestava amolação, mas não reprimia nada. Sou geneticamente avesso à devoção, portanto, mas não posso deixar de achar bem esquisito o mundo novo em que Deus, Alá e Oxalá são considerados tão daninhos à sociedade quanto cigarros. Ou em que confessar um credo seja como confessar uma tara.

Sou agnóstico e não-fumante, mas nada tenho contra fumo e reza. Bem esquisito este mundo novo em que se querem praticar restrições em nome da tolerância.

Vocês vão me perdoar, mas eu não resisti. Reação de Hitler à morte de M. J.:

– Vão tocar Heal the World de cinco em cinco minutos, até que a gente comece a cagar arcos-íris!

A reencarnação, segundo nos ensinam os teosofistas e seus repetidores, é um mecanismo de aperfeiçoamento do espírito pela reincidência na experiência material. Falando em língua de gente: você morre e renasce sucessivamente, experimentando o que o mundo tiver de experimentável, e vai melhorando, se aperfeiçoando, no entrementes. É como tomar lições de piano: a cada tentativa sua execução melhora um pouquinho. A essas melhorias os teosofistas, e nós a reboque, chamam evolução. Apenas, o pianista geralmente enxerga o final de seus esforços: a sala de concertos, o estúdio de gravação, o aplauso geral. Já o espírito – eu, tu, eles – permanece sem saber para onde e, principalmente, para que está evoluindo: espera-se somente que, a uma certa altura, perceba.

A seguir, apresento o estado evolucionário atual de certos luminares que, para melhoria do nosso tônus vibracional e status quo moral, por aqui reencarnaram.

Voltaire evoluiu da condição de filósofo iluminista para a de proxeneta e vagabundo. Mora no Ipiranga, tem três filhos, é sustentado pela mulher, é malquisto por parentes e vizinhos e ensaia uma oeuvre. O sorriso ainda é o mesmo.

Madame Blavatski abandonou os charutos e ocasionais levitações. A gente nacional a impacienta, por isso não pára em empregos e nem com namorados. Vende coisas indefinidas que ela mesma, indefinivelmente, faz. É meio histérica. Tem olhos claros e vive atualmente em Taboão da Serra.

Edgar Allan Poe parou de beber: agora come. Segue com a melancolia em baixa nos muitos dias de sol, mas ainda tem um gosto por palavras e sintaxe complicadas. Sabe que rima é coisa de parnasiano mas, secretamente, conta lá suas silabazinhas. Mora no Brás e tem apenas duas calças. Solteiro.

Jonathan Swift ainda não enlouqueceu de novo, mas esteve perto quando do seu terceiro divórcio. Suas propostas hoje são bem menos modestas: o comunismo já foi uma delas. Hoje, ele só propõe à sexta mulher que o deixe cochilar em paz. Mora em Ipanema e tem mais de setenta.

Primo Levi tomou o corpo de um vivente em Osasco. Está tentando ser bem-humorado, mas nem sempre dá certo. Mora na Pompéia, perto do SESC (que ele olha com medo – as chaminés).

Charles Baudelaire conseguiu afinal um lugar na Académie; pena que foi na Brésilienne. Mudaram tanto sua poesia quanto as pessoas que teve que bajular. Subscreveu o Manifesto da Escritorbrás, há alguns anos, e aderiu ao concretinismo e ao jornalismo gonzo. Continua magro e ressentido. Transita entre Porto Alegre e o Rio; finge desprezar São Paulo.

Oscar Wilde mora em Itaparica, é moreno e usa dreadlocks. Chama todo mundo de “minha rainha”, se diz “bem resolvido” e já quis fazer uma coreografia para Ivete (ela não o recebeu). Segue vivendo acima de suas posses.

Dorothy Parker tem um blog. É sarcástico e witty, e tem média de 37 acessos por dia. Ela tem seu own private Algonquin, mas não faz propaganda. Sempre que se senta, faz alguma coisa nervosa e ritmada com as mãos ou com os pés. Dorme pouco e mal. Mora em Pinheiros, mas diz que tanto faz.

Thomas Stearns Eliot continua um bom attendant lord, escrevendo discursos para políticos apenas aparentemente conservadores e sorrindo para mulheres que não lhe sorriem de volta. Desistiu da poesia e da dramaturgia. Mora em Higienópolis, e seu consumo de aspirinas é alto.

Jorge Luís Borges nasceu sabendo ler e escrever. Tem quatro anos, é manezinho da Ilha e espera ansiosamente sua maioridade, quando se mudará para qualquer capital européia que ainda não tenha virado muçulmana.

Camille Claudel está traduzindo Drummond e Hilda Hilst para o espanhol. Mora na Vila Mariana, mas queria mesmo era viver em Itapoã. É jornalista, bem branquinha, e adora o trugundum de um tambor. Tem uma pulseira no tornozelo, dois filhos, inúmeros namorados e um coração que é só amor.

P. S. tardio: faltaram dois. A saber:

Flossie Nightingale mudou de orientação e quis ser Mae West, mas atrasou-se e foi parar na ZL. Continua cuidando sem ser cuidada, amando sem ser amada, sofrendo sem ser sofrida. Trocou o candeeiro por uma chibata, que ela aliás não usa. Boa enfermeira, se automedica – sem resultado. Tem um pomar muito pouco variado.

Curzio Malaparte reencarnou no Brasil mas deu um jeito de voltar à Itália. Retornou para cá de má vontade. Continua pensando, escrevendo e falando mal de todo mundo; quando se arrepende, porém, ninguém fica sabendo. Vive onde não quer, mas com quem quer. As sobrancelhas engrossaram.

Leiam com atenção:

Optou, como era de se esperar, pela melhor escolha possível: o novo Apple Powerbook G4 de 1Ghz, com tampa de alumínio e dotado de um processador PowerPC 7451, AltiVec Velocity Engine, memória RAM de 960 megas (sic) e disco rígido de 60 gigas (sic). Tinha Bluetooth e um gravador de CD e DVD integrado.

Mais que isso, era o primeiro notebook do mundo com tela de 17 polegadas, uma placa Nvidia e resolução de 1440 por 900 pixels que deixavam embasbacados adeptos dos PC e faziam esquecer tudo o que havia de novo no mercado.

Isto não é uma propaganda da Apple de 2004; são dois parágrafos copiados da página 201 do romance “Os homens que não amavam as mulheres”, de Stieg Larsson, aqui lançado com sucesso e cópia de elogios pela Companhia das Letras.

Nunca tinha visto nada parecido fora de livros de doutrinação ou daqueles onde o prop não dispensa a companhia do agit. Deve ser uma novidade, um marco. (Não assim o fato corriqueiro de ser horrendamente mal escrito.)

Quem é da minha idade, ou acha que cultura pop é cultura mesmo, sabe que um rapaz de sobrenome McFly é o herói dos filmes da série De volta para o futuro. Quem gostou dos filmes pouquinha coisa deve se lembrar que, quando num aperto, o herói dizia a si mesmo: think, McFly, think. Pense, McMosca, pense. No filme, dava resultado.

Um quarteto de meninos ingleses thought um tantinho e, maravilhado, batizou seu coletivo com esse nome, McFly. Gravaram uns discos com umas guitarras meio distorcidas e umas vozes meio agudas, e viraram ídolos das meninas de 14 anos – das quais uma habita a minha residência. Não se dêem ao trabalho de ouvir – não vale nada.

Minha menininha foi vê-los quinta-feira passada. Foi o primeiro show dela. Comprou camiseta e capa de chuva e, graças ao custosamente pago curso de inglês, entendeu 70% do que a banda disse ao público – inclusive as sacanagens e grosserias (até isso ela adorou). Chorou em uma música. Had herself a good time.

Pois é, é tempo. Dói, mas é tempo.

* * *

Motörhead e Girlschool. A guitarrera/cantante loira e lindinha é Kelly Johnson, que morreu de câncer há dois anos. Lemmy, vocês estão vendo, faz acordes no baixo – por isso o som deles é aquela maçaroca louca. E Philty “Animal” Taylor deixou as baquetas nesse playback para Tina Gayle e foi, ah, dançar. Isto é um crácico da minha existência.

* * *

O homem tem uma enorme incapacidade de lidar com a vida prática. É muito difícil comprar o gás se você está viajando naquele momento, querendo ser Dom Pedro às margens do Ipiranga. É isso que está na cabeça deles na hora do supermercado.

Isto diz Contardo Calligaris na Veja desta semana. Bullshit, a rigor, mas, sabem?, às vezes é isso mesmo. Como isto também é:

A queixa dos homens é que, agora, elas não têm mais tempo para eles. Que não cuidam mais deles. E a verdade é que eles querem muito ser cuidados.

O nome de frei Baltasar Gracián é familiar a quem tiver lido Jorge Luís Borges com alguma atenção. Procurando outra coisa, encontrei aqui o livro dele chamado A arte da prudência, na edição barata e vagabunda da Martin Claret, livro esse também chamado, e creio que com mais propriedade, de Oráculo manual.

O livro consiste numa série de trezentos aforismos comentados – trezentas “dicas” de bem viver, ou de bem se comportar, ou de bem agir, ou de bem sentir que, aplicadas, levam o cidadão a conduzir-se sabiamente ante a existência. É famoso por ser bem escrito, primeiramente; e, segundamente, por aconselhar bem – ainda que prudência, em livro do século XVI, esteja inevitavelmente relacionada à retórica.

Ele é uma espécie de ancestral dessas infâmias recorrentes que poluem as seções de autoajuda. Mas, claro, um ancestral católico e renascentista que fala despudoradamente em pessoas e natureza superiores – termos e idéias vetados no ambiente PC da atualidade.

Em todo caso, andando eu, no atual momento da minha vida, bem precisado de prudência e não menos de bons conselhos, fui espiar os que dá o bom frei. Achei alguns interessantes, que transcrevo, quem sabe se para tédio mortal de quem vem me ler. A eles:

8 Não ceder a paixões: a qualidade espiritual mais elevada. Que sua superioridade o redima de impressões comuns, passageiras. Não há maestria maior que o domínio sobre si próprio e as paixões: é o triunfo do livre-arbítrio. A paixão pode até afetá-lo, mas não permita que afete sua posição, muito menos se esta for importante. Trata-se de uma maneira sensata de evitar problemas e um caminho mais curto para se obter a estima dos outros.

52 Nunca perder o controle: grande ênfase deve pôr a prudência em não perder o controle. Assim se portam os grandes homens, pois a magnanimidade dificilmente se abala. As paixões são os humores da alma, e qualquer excesso indispõe a prudência. Se a moléstia sai pela boca, sua reputação estará em perigo. Tendo completo domínio de si próprio na prosperidade como na adversidade, ninguém irá censurá-lo, mas admirá-lo.

55 Saber esperar: é prova de um grande coração quando se têm grandes reservas de paciência. Nunca se afobe ou nunca dê vazão às emoções. Domine-se e dominará os outros. Vagueie pelas vastas dimensões do tempo rumo ao centro da oportunidade. A hesitação sábia tempera os acertos e amadurece os segredos. A muleta do tempo é mais poderosa que a clava de aço de Hércules. O próprio Deus não castiga com as mãos de ferro, mas com pés de chumbo. Um maravilhoso ditado: “O tempo e eu enfrentamos quaisquer outros dois”. A sorte dá recompensas maiores àqueles que esperam.

178 Confiar no coração, principalmente se ele for forte: nunca o contrarie, pois ele normal-mente consegue prognosticar o que mais importa: é um oráculo caseiro. Muitos pereceram daquilo que mais temiam; mas de que adiantou temer sem se precaver? Alguns têm um coração muito leal: vantagem de uma natureza superior que sempre os previne e faz soar o alarme, para prevenir o infortúnio. Não é prudente atirar-se aos reveses, mas sim encontrá-los a meio caminho, a fim de vencê-los.

Confesso que parei por aí; trezentos aforismos comentados é muita coisa para um pobre blogueiro sonado no domingo. E talvez sejam até poucos para tudo o que demanda a prudência, cabendo apenas aos imprudentes – e aos impudentes – ler e rir. Cantarolando, quem sabe, o Monsueto: mora na filosofia…

Como nada foi dito, estou acreditando que nós, brancos de olhos verdes, somos candidamente inocentes. Ou isso, ou ainda estão calculando nossa parcela das culpas.

* * *

Trabalho com alguns dos chamados “operadores do Direito”, e estou por obrigação familiarizado com a língua estranha em que essa gente se expressa e com as coisas e “procedimentos” que existem nesse mundo. Daí eu ficar espantado do quão pouco a imprensa, que fala dele o tempo todo, sabe efetivamente a seu respeito.

A imprensa parece desconhecer, por exemplo, que interceptações telefônicas legais só são feitas mediante autorização de um Juiz – autorização que ele só dá se aceitar as ponderações de quem as pede (Promotores ou Delegados) em procedimento regularmente instaurado. E mais: se quem pede a escuta – o nome técnico é “censura” – for um Delegado de Polícia, o Juiz só autoriza se um Promotor de Justiça concordar previamente.

O negócio é tão sério que as operadoras – VIVO, TIM, OI, Telefoníca – só informam coisas relativamente banais como o nome do titular de uma linha se quem pedir for um Juiz.

Ou seja: não adianta xingar só a polícia por causa das escutas. Há que xingar também o Ministério Público e a Justiça.

Outra coisa: a imprensa parece não saber que Delegados de Polícia não têm competência para arquivar processos. Eles não podem nem mesmo arquivar  inquéritos, que aliás é só o que podem presidir – quando um inquérito vira processo, já saiu de suas mãos.

Processos são arquivados quando um Promotor de Justiça e um Juiz de Direito entendem, conjuntamente e em boa paz, que: a) o crime investigado não existiu; ou b) o crime existiu, mas não há como chegar ao seu(s) autor(es).

Se o Promotor achar que o caso está mal investigado e que faltam umas tantas ou quantas informações essenciais para a sua opinio delicti – para que ele se convença ou não de que houve crime e de quem o praticou – pode devolver o inquérito ao delegado e mandar que ele tome algumas providências – a chamada cota.

Quem xinga a polícia no caso do gás no Palestra Itália ignora esses detalhes. Deveria xingar também o Ministério Público e a Justiça, que foi quem determinou o arquivamento do inquérito.

Mas a imprensa só xinga a polícia. Sempre e só a polícia.

* * *

Eu podia processar minha filha adolescente por extorsão.

O pesadelo da história

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