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Algumas pessoas que vêm parar aqui graças ao serviço Google de networking impessoal usam cê cedilha para escrever “você”. Assim: voçê.

Não sei voçês, mas eu, quando vejo esse çedilha, imagino que é sinal de língua presa. Imagino um pagodeiro falando “voçê vai vê o quéquivái ti aconteçê”.

Claro, abençoados os çedilhentos, abençoados todos nós. Mas, puçha.

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Da minha filha (12) para a minha mulher (40), há pouco:

– Você lê mal para a sua idade.

Não respondo memes, porque acho memes uma memerda. E, já que não tenho nenhum tipo de produção literária, exceto blogues periodicamente assassinados, o questionário não se dirige a mim. Mas o Társis pediu com jeitinho, então lá vai:

1. Que livro você está lendo?

“O vento nos salgueiros”, de Kenneth Grahame, e “Crack up”, de F. Scott Fitzgerald (póstumo e editado).

2. Lembra do seu primeiro livro?

Lembro. Você não perguntou qual foi, mas eu digo: a adaptação de Monteiro Lobato para “Peter Pan”.

3. No Brasil, sabemos que a leitura não é um hábito da população em geral. Quantos livros, em média, você lê por mês?

Discordo da afirmação: se lê pouca literatura, pouca poesia. Mas quem leva debaixo do braço um manual do Access, o Código Penal, o Metrô News ou um gibi da Mônica faz o quê com eles? Lê, ora. Não tenho média mensal de leitura.

4. Você tem um gênero favorito? Qual?

Não tenho. Leio de tudo.

5. Alguns escritores, além de grandes artistas, são vistos como “seres superiores” por alguns leitores. Você tem ídolos escritores? Quais?

Acredito que um grande escritor é sim um ser superior, sem ironia nem aspas. Nessa categoria de seres superiores, ou ídolos se quiser, boto, e aqui é tudo muito óbvio, Cervantes, Eça de Queirós, Machado de Assis, Monteiro Lobato, Lewis Carroll, Jorge Luís Borges, Proust, Flaubert, Tchékhov e mais um cento de etecéteras.

6. Você distingue o escritor pelo gênero – poesia, conto, romance, etc – ou acredita que escritor é escritor e ponto?

Varia. Há escritor que é bom em tudo, e há os que são bons numa coisa só. Drummond, por exemplo: nada do que escreveu fora da poesia presta.

7. A internet pode se transformar em uma ameaça para a leitura de livros?

Não. Mas eu tinha entendido o termo “leitura”, até aqui, como o ato lato de ler, e não como a ação estrita de “ler livros”. Não há ninguém preocupado com a ameaça que a internet talvez represente para os jornais, as revistas, as bulas de remédio, os quadros de avisos, o correio elegante?

8. Se você pudesse, como acabaria com o analfabetismo no Brasil e como implantaria o hábito de leitura?

Não sei se é possível acabar com o analfabetismo, já que ele não se resume à incapacidade de leitura e escrita: há muita gente que lê e escreve desembaraçadamente que é analfabeta incurável. José Roberto Pereira, por exemplo. Ou Marcelo Mirisola. E não “implantaria” (palavra técnica e horrorosa) hábito nenhum. Aliás, a expressão “implantar hábitos” é um oxímoro. Há no mundo uma expectativa generosa, mas injustificável, de que a leitura, por si só, seja capaz de promover maravilhas na consciência de um indivíduo. Em alguns sim, de fato; mas a maioria das pessoas lê por necessidade, para a satisfação dos quesitos “informação” e “como fazer”. Esses, cujo nome é legião, jamais desenvolverão o “hábito da leitura”, e aliás é um erro achá-los estúpidos por causa disso. O hábito surge sozinho. Lê quem quer.

9. José Saramago declarou recentemente que sempre será comunista, embora saiba que este é um assunto ultrapassado. Um escritor deve manter para sempre seus valores, ou pode mudar de opinião?

Opinião é uma coisa, valor é outra. Mudar de opinião é corriqueiro: eu já achei que o socialismo é um jeito ótimo de criar uma sociedade justa. Já mudar de valores é, creio eu, chocante e raríssimo: não conheço quem tenha abandonado a justiça em prol da injustiça, por exemplo. É portanto um erro a gente achar que a defesa saramaguenta do comunismo seja apego a um valor. É apego a um sistema de idéias que (acredita ele), se aplicado, promove ou “implanta” os valores que ele defende. Uma das coisas mais duras de aprender, e que na verdade nunca se aprende direito, é como compreender quando nossas idéias contrariam nossos valores, e mudá-las. Também existe, evidentemente, quem não tem valor nenhum, apenas opiniões; esses mudam tudo, fazem o que querem e dormem como anjos. Contam-se aos bilhões.

10. Uma frase para o Dia do Escritor:

Que grande bobagem é haver um “dia do escritor”.

Estive em Congonhas três vezes. A segunda foi quando voei a Belém, a trabalho. Aeroporto muito simpático, muito mais que Cumbica, interminável e chato. Fomos levados ao avião a bordo de um pequeno ônibus, passando pelo meio da pista, porque lá não tem, ou na época não tinha, aqueles acopladores.Na terceira, quando voltei, já foi complicado: o comandante ficou uma hora, mais ou menos, “arrodeando” Campinas até receber permissão para pousar.

A primeira foi quando era menino e meu pai me levou lá. ANos 70: era o que os cariocas chamavam, com gozação certeira, de “praia de paulishta: ver avião subir e descer”. Eu vi: nada me fascinou mais do que a biruta, que mereceu explicação detalhada (e necessariamente curta) do que ela fazia.

Não entendo nada de aviação, felizmente para o mundo. Não sei avaliar o acidente ou crime da semana passada. Não gostei nada da histeria de governistas e seus obscenos assessores, nem de oposicionistas e suas vacilações. Só posso dizer, como quase sempre faço, de orelhada: gosto daquele aeroporto, e espero que não o fechem.

* * *

Eu devo dizer que gosto dos livros de Harry Potter, e que este trecho do post tem um spoiler. Fiquei curioso, como todo mundo, para saber o que acontece no final da série, que teve aliás seu último capítulo, Harry Potter and the Deathly Hallows, Harry Potter e as Relíquias Mortais, lançado ontem.

Digressão: acho que as Relíquias Mortais não bate com o gosto do público brasileiro. Melhor seria, por exemplo, os Bagüio que Mata. Relíquia, cá na ZL, é tido como nome de mulher velha. Relíquia de Souza. E “mortal” não é uma tradução precisa de “deathly”, que quer dizer “mortífero” (há uma diferença).

O caso é que fui com Clarice espiar o livro na Livraria Cultura ontem. Depois de ver, confirmados pelos títulos dos capítulos, que os spoilers deste blogue são verdadeiros, vi na última página que Harry Potter vive. Donde se conclui, pela profecia, que Voldemort morre. Dei a notícia à Clarice, que chorou: ela torcia pelo sem-nariz.

Mas Harry Potter granjeia muita má-vontade. Madame Rowling não é Lewis Carroll nem Kenneth Grahame, e é bem estranho que um mundo governado pela magia nunca se refira a Deus, mas os livros são simpáticos, a história é interessante, e tem humor. Humor sempre e sempre civiliza.

* * *

Minha freqüência internáutica caiu drasticamente nestes últimos dois meses. Eu passava muito tempo navegando, espiando, lendo blogues, baixando músicas e cousas. Ultimamente não; se não venho postar aqui ou espiar a meia dúzia de páginas e blogues que freqüento constantemente, é só para procurar informações sobre coisas muito específicas (ultimamente, canetas-tinteiro). Há dias em que olho o computador e nem me animo a ligá-lo; daí minha demora em responder e-mails e liberar comentários.

Vecchiaia, decerto; acídia também. Devo ser mesmo, como me acusam, um tipo meio birrento: não há uma revolução ou um lugar excessivamente freqüentado que não me encham o saco. Aqui até que demorou.

Eu estava navegando atrás de informações sobre Matthew Arnold, e dei com esta página. A seguir, o que lá se estampa:

“Bem-vindo à segunda edição dos Livros para todo o projeto. Nossa intenção para fazer os romances clássicos disponível para outros idiomas continua que não decresce.”

“Faça tique-taque em Livros por autor ou em Livros através de título olhar a lista de livros disponível.”

“Nós damos boas-vindas a avaliação nós recebemos fazer este local tão útil quanto possível a todos os estudantes de literatura. O local é indexado agora nos autores e títulos para lhe dar flexibilidade completa achar os livros você está procurando. Fique afinado para desenvolvimento adicional; será um tempo excitante por nós tudo!”

A iniciativa é, a princípio, louvável: querem tornar disponíveis em outras línguas livros ingleses cujos direitos autorais já venceram. Legal, e útil, porque tem coisas ali que nunca foram traduzidas. Mas podiam traduzir mesmo, em vez de botar os textos nesses programas esquisitos de tradução automática. Vejam como ficou um poema justamente de Matthew Arnold:

Aquele selvagem, unquench, fundo-afundado, dor de velho-mundo–
Diga, nunca curará?
E enlata este gramado fragrante
Com suas árvores frescas, e noite,
E a doçura, Thames tranqüilo,,
E bebida alcoólica, e o orvalho,
A thy atormentam coração e cérebro
Não disponha nenhum bálsamo?

Dost tu para-noite vê
Aqui, pelo luar nesta grama inglesa,,
O palácio hostil no Thracian selvagem?
Dost tu novamente leia
Com bochechas quentes e queima olhos
A teia muito clara, e thy a vergonha de Irmã boba?
Dost tu mais uma vez ensaio
Vôo de Thy, e tato vem thee,
Fugitivo pobre, a mudança emplumada,
Mais uma vez, e mais uma vez parece fazer ressoe
Com carinho e ódio, triunfo e agonia,
Solitário Daulis, e o vale de Cephissian alto?
Escute, Eugênia–
Como grosso os estouros vêm, enquanto aglomerando pelas folhas!
Novamente–tu hearest!
Paixão eterna!
Dor eterna!

“Enlata este gramado fragrante” é uma imagem forte. Bom, seja como for, aquele “fundo-afundado” do primeiro verso e o “Vôo de Thy, e tato vem thee” do décimo sexto mostram que o late Bruno Tolentino tinha razão: o concretinismo bem pode ser obra mais de computadores que de poetas.

Paulão.

Eu ia esquecendo. Paulo Francis, dez anos. Quando comecei a ler, não lembro por indicação de quem, ele já estava no Estadão. Nunca esqueci um trecho de sua coluna onde ele sonhava em chicotear o Vicentinho; engasguei lendo aquilo na hora do almoço – engasguei de tanto rir. E com a coragem do cara, que, putz, quem mais teria peito pra escrever um troço desses no Estadão? Lembro também dele, no escritório da Globo em Nova Iorque, apontando um USA Today fechado sobre a mesa: “Ninguém nem abre essa porcaria”. O USA Today havia sido usado como modelo numa das tantas “reformas gráficas” da Folha de São Paulo; era um jornal que trocava textos por gráficos e fotos, o que hoje é comum, mas nem sempre foi.

Comprei seu “Trinta anos esta noite” na noite mesmo em que saiu, 31 de março de 94. Eu tinha, e perdi, sua coluna dias depois em que ele comentava detalhadamente o livro, e corrigia alguns erros. Lia o que ele indicava, consegui quase todos os seus livros (falta ainda aquele do Nixon versus McGovern). Os romances, principalmente o “Cabeça de Negro”, são bons e injustiçados. Há também “Paulo Francis, o soldado fanfarrão”, dissertação de mestrado de George Moura que fala da fase dele como crítico de teatro, nos anos 50. O texto de George é de deixar pra lá; o bom são as extensas transcrições da coluna do Francis no Diário Carioca. Esse livro, lançado pela Objetiva, anda por aí a preço de banana.

Falavam muito mal dele por cometer erros e imprecisões nas suas colunas, mas isso era desculpa: detestavam-no mesmo por “traidor do movimento”, migrando da esquerda para a direita a partir do final dos anos 80. Até hoje tem gente falando mal dele, como nota, entre outras coisas ótimas, Lorde Ass neste belo post.

Meu livro favorito dele é o “Waaal”. Não dá pra ler sem se sentir um tantinho mais vivo. E rir das maldades: Amélia de Beauvoir; Beckett, monótono e ilegível; Susan Sontag e suas armações; o hambúrguer McCastro; Hemingway, maneirista insuportável; Lacan e Barthes, obscurantistas; e mil outras delícias. Aliás, gente besta é quem não ri e não se diverte até mesmo com aquilo de que discorda desde que dito assim, com humor, com fineza, com graça.

Dois mil e seis foi o ano em que descobri de verdade Nabokov. Li primeiro Riso no escuro, depois Pnin, depois a excelente autobiografia Speak, Memory (que tem o estranho título, em português, de A pessoa em questão). Agora estou lendo Fogo pálido, seguindo estritamente as instruções do professor Kinbote: o comentário primeiro, e só depois o poema. Até agora, bárbaro, e muito engraçado.

Me faz lembrar a ocasião duplamente infeliz em que tentei ler o Maculatrina na edição dita crítica e comentada de Telê Porto Ancona Lopes. Jamais consegui terminar esse livro; sempre empaco na Carta pras Icamiabas. É quando tenho meningites, derrames, severas febres cerebrais, delírios. Mas o que interessa é que a edição alegadamente crítica e comentada tem uma pletora de notinhas kinbóticas.

Uma delas, a que me fez seguir o conselho de Dorothy Parker, comentava a palavra “bordeisjar”. É um híbrido boboca, mas dona Telê, implacável, lascou lá: esse tipo de baboseira servia para o “incremento da comicidade”. Idem a nota; foi no acesso de riso que o livro me escapou das mãos com toda força e nunca mais voltou.

No Estadão de hoje, reportagem a respeito do diário de Adolfo Bioy Casares, que leva o título imprevisível de Borges (porque selecionaram os trechos em que Casares fala dele, e só) e que saiu há pouco na Argentina.

Só pensam em Bioy Casares como o amigão e eventual colaborador do Borges, o que é meio injusto. Lembro de vê-lo no Roda Viva, certa vez; era um velhinho magrelo e trêmulo, muito atento à tradução simultânea no ponto eletrônico e muito bem humorado. Disse que Kafka não havia morrido: emigrou para a Argentina e tomou conta da companhia telefônica (foi antes das privatizações). Disse também que o termo brasileño era coisa recente: em seu tempo de menino, referiam-se a nós como brasileros. Era rico, rodado e conquistador.

Suas Histórias de amor são interessantes, mas não memoráveis ou fundamentais. Plano de evasão é chato. Bem melhor é O sonho dos heróis, que antecipa, segundo me parece, as irregularidades cronológicas de Philip K. Dick. Acredito que os trechos mais engraçados de Seis problemas para Dom Isidro Parodi (que foi editado aqui no Brasil na Coleção Babel, da Editora Dantes) são seus. Nunca li A invenção de Morel. Dizem que O ano passado em Marienbad baseia-se nele; se for verdade, danou-se, porque é um dos filmes mais incrivelmente chatos que já tentei ver.

A matéria chama esses diários de “blog do Bioy”; me pergunto se algum dia a palavra “diário” não vai acabar sumindo de vez. Publicam um trecho em que se fala muito mal do Brasil (lembro de uma reprtagem de Hugo Estenssoro sobre Victoria Ocampo, dona e editora da Sur, em que ela lhe confessou nada saber sobre o Brasil; devia achar, como muitos por lá, que nosso país é um matagal que se estende entre o Uruguai e as Guianas). Xingam Brasília, com razão, e falam de papagaios tomando o lugar do presidente (outra boa possibilidade).

Por enquanto, só em castelhano. Em castelhano também li no ano passado Otras inquisiciones, do Borges himself. Surpreendente por ser tão direto, tão ferino; o Borges que li em traduções parece mais sutil, mais oblíquo; em castelhano, é opiniático com mais firmeza. Não sei se é mesmo da tradução, ou se nesse livro especificamente ele soltou mais a mão.

* * *

A seção do caderno de Cultura do Estadão chamada “Antologia Pessoal” servirá, no futuro, para um fim diferente daquele a que sem dúvida se propõe. Em vez de registrar opiniões e idéias de alegados artistas sobre seus metiês e obras alheias, servirá como compilação eficiente de tudo o que temos de mais pomposo, cupincheiro e detestável. Servirá também como ótima coletânea de frases idiotas.

Hoje está lá um certo João Falcão, diretor (de cinema) e roteirista. As opiniões do moço sobre sua arte são as mais convencionais possíveis, ditas também convencionalmente (e clichezadamente: fala de histórias “originais” e “recheadas de mordazes referências” a não sei que cazzo; acho que as entrevistas devem ser dadas por escrito). Quase no fim, falando de seu reencontro profissional com o ator Selton Melo (outro chato de galochas), solta esta pérola do pseudismo: “foi emocionante reconfrontarmos nossos registros”. Impossível saber, pela frase, se ficaram no bate-papo em torno de reminiscências, ou se acertaram os ponteiros na cama.

O irlandês Flann O’Brien, pseudônimo de Brian O’Noolan ou Brian O’Nuallain, manteve por muitos anos uma coluna no jornal Irish Times assinando Myles na gCopaleen (expressão gaélica que vi traduzida como Myles dos Cavalinhos ou dos Pôneis). Era uma coluna de humor – daquele tipo de humor que se diz inglês, debochado e amalucado; apenas, era feito (e bem) na Irlanda.

Fazia parte desse humor e da coluna a renovação periódica do Catechism of cliché. Nesse tal catecismo O’Brien caçoava dos lugares-comuns, das frases e pensamentos prontos que the plain people of Ireland usava em tudo: no jornalismo, nas diferentes profissões, nas conversas de rua. Era e é muito engraçado; estou com preguiça de dar links agora, mas cole a expressão no Google e veja como vem coisa.

Lembrei dele quando li o caderno Cultura do Estadão de domingo passado. Nas folhas D8 e D9 há um “balanço” do mercado editorial deste 2006, com o que, “na opinião de profissionais da área”, seria “a estante essencial” do ano. São dezenove alegados profissionais – jornalistas, poetas, romancistas, críticos, músicos, historiadores, filósofos – apresentando suas listas dos lançamentos de 2006 que julgaram importantes, dezoito delas com comentários.

O questionário abaixo é segundo o método de Myles, copiado, tão fielmente quanto deu, por mim; as respostas saíram do tal “balanço”, summa impecável dos tópoi críticos nacionais. Acompanhem.

Comecemos. Um livro de muitas páginas, o que é?
Caudaloso.

Quanto ao autor iniciante, como é a aposta nele?
Ousada. Gratificante.

Que vem ele fazer?
Renovar o cenário.

Fazendo uso de quê?
Grande irreverência.

E como é a estréia?
Promissora.

Que faz o crítico com a obra?
Ilumina-lhe aspectos.

Como é a sua análise?
Original. Rigorosa.

Suas trocentas páginas consistem em…
Uma verdadeira aula.

Como resultado, vemos surgir…
Novas possibilidades de abordagem.

A obra em si é boa?
Nada fica a dever aos maiores nomes.

E a contribuição para a literatura nacional?
Forte. Original.

E a leitura, que tal?
Instigante. Obrigatória.

Só isso? Que mais ela nos faz?
Mergulhar no universo do autor.

Quanto à tradução…
Oportuna. Tecnicamente impecável. Brilhante.

Que fazem os ensaístas?
Discutem questões.

De que maneira?
Com (ou em) profundidade.

Os processos são…
De criação. De análise.

O que acontece com eles?
Se desenvolvem.

O resultado da coletânea é…
Impactante.

O âmbito?
Abrangente.

A síntese?
Notável.

E a reflexão teórica, que tal ela?
Importante.

Já a mistura é…
Bem balanceada.

Certo. E o que a reedição faz por aquele autor morto que anda meio esquecido?
O recoloca.

Onde?
Na galeria dos autores fundamentais.

Assim recolocado, ele se torna…
Um dos pilares da literatura brasileira.

E se o autor ainda estiver vivo e em evidência? Que faz a obra?
Reafirma sua presença.

Onde?
Entre os narradores mais interessantes em exercício no País.

Lá onde ele já…
Ocupa lugar central.

O poeta é…
Um dos mais importantes do século XX.

Quando temos um adjetivo se fazendo de substantivo, “o sagrado” por exemplo: que acontece com ele?
Tem sua dimensão revelada.

Nos contos, que faz o autor quanto ao assunto?
Investiga todas as possibilidades.

Todas, todas, todas?!

Desculpe. Falemos das fronteiras. Elas são…
Transgredidas.

Já o gênero…
Tem vigor.

Um relato pode ser…
Devastador. Aterrador. Urgente. Pungente. Autêntico. Impressionante. Inquietante.

E o tema?
É enfrentado.

De que maneira?
Com firmeza. Com sensibilidade. Com independência intelectual.

O analista social é sempre…
Lúcido.

Nosso mundo?
Insensato.

A realidade?
Supera a ficção.

A obra?
Prima.

No final do ano 2000, recebi um convite do bravo Alexandre Inagaki para colaborar com o SpamZine, um e-zine (expressão que ainda soa moderna) que ele editava junto com o jornalista Ricardo Sabbag, e que era entregue por e-mail todos os domingos a uma lista de assinantes. Comecei colaborando, depois passei a editar regularmente o Zildo, como o chamávamos nas internas.

Eu gostava. Era gostoso editá-lo, embora a palavra “editar” entre aqui em modo relativo, já que a plenitude do verbo envolve a existência de uma pauta ou projeto, mais a conseqüente adequação dos textos ao tom, à idéia, ao argumento, etc. – o que é impossível em veículo que depende de colaborações não-remuneradas e mais ou menos espontâneas, como era o caso do Zildo.

Mas eu gostava. Relendo-os hoje na página que ainda é mantida pelo Alexandre, vi que fiz uns dois ou três editoriais legais. Não são nada de fundamental para a existência de ninguém, mas são melhores do que praticamente todos os posts deste blogue: eu caprichava muito mais naqueles editoriais do que jamais caprichei em post algum dos muitos blogues que já tive e matei. A blogagem e suas muitas facilidades convidam-me ao desleixo, que aceito e desfruto plenamente. Mas isso não passa de desculpa para o que interessa: o fato de que nunca peguei o “jeito” de se blogar interessantemente.

Pior para mim. Sustentei a posição ultrapassada de que e-zines eram melhores que blogues; e, se querem saber, sustento ainda: tirando alguns unusual suspects, a maioria dos blogues é uma bobajada só, às vezes bastante aborrecida. Num e-zine se pode achar variedade, e a maneira de se dispor do material peneirado, a ordem das coisas por assim dizer, é gostosa de se bolar e boa de se espiar. Bem, apostei no passado: o Zildo se foi e os blogues triunfaram, como atesta sua leitura, ó querido(a), destas linhas. Quando a morte do Zildo se tornou fato, ainda que intra-muros, soltei o editorial abaixo, na edição 91, de doze de maio de 2003:

O e-zine subiu no telhado?

Há um tempo atrás, amigável discussão tomou o blog da nossa página: será que os e-zines sobreviverão ao poder dos blogs? Na ocasião, a discussão me parecia improcedente: é um pouco como perguntar se o querido diário acabará com os jornais. Fosse como fosse, cerrei fileiras com os adeptos dos e-zines, que são, no meu entender, mais variados, menos previsíveis e mais interessantes que os blogs.

Como dizem os advogados, parece que restei isolado. Ultimamente os blogs se tornaram um hype (que frase…). Trocando em português: os blogs estão com a bola toda. É isso mesmo: os blogs crescem, aparecem, expandem-se e vão para os noticiários dos jornais e revistas, aqui e no mundo. Primeiro como esquisitice resultante do mundo midiatizado: será que o blogueiro (palavra horrível) se confessa na web porque não fala com ninguém na vida? Depois, como fenômeno cultural: é gente escrevendo, não é? Depois, como fenômeno social (vide o caso daquela moça que fez campanha no seu blog e angariou fundos para ajudar uma família de moradores de rua). Ultimamente, os blogs viraram fenômeno midiático mesmo: quantidade de acessos, influência, nomeada. Aliás, nesse último quesito, este e-zine está bem representado: primeiro com a quase vitória do blog do nosso editor-mor Alexandre Inagaki, que esteve a centímetros de ganhar o prêmio máximo do IBest; segundo com o outro blog que Inagaki comanda, com a ajuda do nosso co-editor regra-três Ian Black, e do compadre deles, Marmota – o Virunduns, cuja badalação é tamanha que rendeu matérias em jornais e na Isto É, com direito a fotos dos culpados.

O argumento em favor dos blogs naquela brevíssima discussão nossa era o de que essas páginas pessoais transcenderiam o lado “querido diário” e se tornariam alternativas informativas (e, vá lá, culturais) muito mais dinâmicas do que os e-zines: quem esperaria uma semana (ou mais) por um zine, quando tudo o que precisa fazer é dar uns cliques atrás de atualizações recentes e quentinhas? E quem é que vai querer continuar editando um e-zine, tarefa muitas vezes estressante, abnegada e sem remuneração, em que muitas vezes é necessário tourear colaboradores e leitores, e cujo feedback é demorado e incerto?

Respondendo a pergunta: o e-zine subiu no telhado? Subiu, sim. Assim como muitos hypes anteriores, que se deitaram em pleno vigor e acordaram rupestres.

E não adianta a gente se ressentir com o ir e vir das vogas; se na internet elas se sucedem com rapidez (e vida) de mosca, paciência. De certa forma, aqui na web os revivals são, também, simultâneos, e a nostalgia é antecipada.

“Há um tempo atrás” é um horror. O link é para o blogue velho do Alexandre; os Virunduns ainda estão lá; e eu estava escrevendo melhor do que agora (mas não tão bem que me livrasse de algumas espinafrações, uma delas, de uma leitora, muito merecida e dolorida). A blogueira que fez subscrição em prol dos sem-teto é a Rosana Hermann – procurem por ela no Google, não sei o link e nem gosto do que a moça escreve.

Reconheci a inevitabilidade do fenômeno, ainda que tarde e de má-vontade. Mas nunca aderi de verdade ao meio. Insisto e permaneço, como já disse, porque é fácil e instantâneo, não porque realmente goste ou reconheça em mim qualquer aptidão.

Também fiz muxôxo para os blogues porque sou um preguiçoso incorrigível para navegar, e detesto ler em tela de computador (eu tinha todos os meus Zildos impressos), embora leia quando a coisa me interessa. Só conheceria blogues interessantes se recebesse recomendações, porque não sairia à procura deles, como de fato não saí. O fato é que até hoje não sei lidar com esse negócio de “favoritos” do navegador, e um e-zine faz o favor de coletanear previamente as coisas pra gente, boas e más.

Felizmente houve gente como Juliana Lemos e Marcelo de Polli, que juntaram seus favoritos num portal, o dos Wunderblogs (que, é claro, só conheci by appointment, e de que, evidentemente, não gostei in totum). Essa, aliás, é a única forma possível de editar alguma coisa na internet em meio amador – juntando os seus favoritos num canto e acompanhando regularmente o furdunço; tudo o mais é exercício de paciência e esperança. O problema dessas empreitadas é que gente que escreve bem costuma ser também gente muito difícil, daí as coisas durarem pouco e os auges serem curtos, como mostra a história desse mesmo portal (qualquer estabilidade entre individualidades tão ferozes tem algo de milagroso). Há outros portais, como o Verbeat, o Insanus e o Apostos, mais estáveis e muito menos interessantes

Mas enfim, o Zildo me deu amigos: o próprio Alexandre, Suzi Hong, Ian, Ms. Bee. Me deu chance de ser polêmico (fui muito xingado quando critiquei o Lula por querer “controle externo” do judiciário, e quando disse que a Itália abriu as pernocas pro Bush), de lançar gente interessante com Alyuska Lins e Erasmo Júnior, de exercer algum humor. Evidentemente eu não mantenho hoje muitas das opiniões que tinha então: acho que nunca escreveria mais nenhum texto de apoio à descriminalização das drogas, por exemplo; tenho uma idéia dos Estados Unidos e do Sr. Bush muito menos hidrófoba; e não repetiria umas tantas besteiras sentimentalóides que queriam balançar pacueras femininas. Mudei muito.

Tempo bom, tempo bacana. Que se foi. Fica a recomendação para que quem me lê espie a página e percorra as noventa e poucas edições do SpamZine, juntamente com os lados bês, as edições com um “1/2” agregado e os especiais. Não é, confio, perda integral de tempo. Muita coisa do que está ali sobrevive bem e em pé.

P. S. tardio: não dou os links de Juliana Lemos e Marcelo de Polli porque os arquivos para seus extintos blogues, respectivamente Miss Veen e Aqua Permanens, não estão mais à disposição (ou não fui capaz de os encontrar); não eram blogues excepcionais, do tipo que se visita todo dia – o casal é gente briguenta, às vezes muito incômoda. Amostras razoáveis do que eram podem ser achadas no livro dos Wunderblogs – clique aqui para ver onde achar. Suzi Hong tem um blogue antigo e desativado, que pode ser acessado clicando-se aqui. Ricardo Sabbag já teve blogue, o Calúnia Social, que está desativado e apagado.

Costumo dizer que blogar é rascunhar em público. Não ecumenizo: vale para mim, não para outros, mais caprichosos, mais estudiosos, melhores enfim.

P. S. ainda mais tardio: continuo não gostando do blogue de Rosana Hermann, mas quem fez a campanha em favor dos sem-teto foi a Rossana Fischer, num blogue ora extinto cujo nome ou endereço não me lembro mais.

O pesadelo da história

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