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Lendo as três primeiras estrofes d‘Os Lusíadas, aprendi que:

  • Barões assinalados, non assinalados Barões;
  • força humana, non humana força;
  • gente remota, non remota gente;
  • memórias gloriosas, non gloriosas memórias;
  • terras viciosas, non viciosas terras;
  • obras valorosas, non valorosas obras;
  • navegações grandes, non grandes navegações;
  • peito ilustre, non ilustre peito;
  • Musa antiga, non antiga Musa;
  • valor mais alto, non mais alto valor.

É verdade que lá no meio tem ocidental praianovo Reino, mas olhem o placar: 10 a 2.

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APRESENTADOR: Em nossos estúdios em São Paulo, a Marcolina Macieira está com Rolando Quaresma, especialista em nado cachorrinho, que vai explicar as diferenças entre uma cenoura e um cadeado. É isso mesmo, Marcolina?

MARCOLINA: Isso mesmo, Paolillo. Rolando Quaresma tem graduação em nado cachorrinho, é mestre na Unicamp na área de sanitarismo do show-business, e vai nos ensinar as diferenças entre uma cenoura e um cadeado. Bom dia, Rolando.

ROLANDO: Bom dia.

MARCOLINA: Então, Rolando… nesta questão de diferenciar uma cenoura de um cadeado, como é que a gente deve proceder?

ROLANDO: Bom, existem mesmo de fato algumas diferenças básicas entre uma cenoura e um cadeado, Marcolina. Primeiramente, nós podemos apontar assim uma distinção de funções, né?

MARCOLINA: Certo.

ROLANDO: Enquanto que a cenoura tem uma função mais assim, digamos, alimentícia…

MARCOLINA: Podemos dizer assim mais “nutricional”?

ROLANDO: Exatamente, exatamente, mais nutricional, mais voltada, digamos, à questão da nutrição do indivíduo… então, enquanto a cenoura tem essa função, o cadeado já age mais numa área que eu diria que está voltada à segurança, inclusive, né?, no lado mais patrimonial.

MARCOLINA: Certo.

ROLANDO: Depois, temos também a questão da origem, né? Enquanto que a cenoura geralmente vem de uma procedência mais assim, de certo modo, agrícola, né?, com a questão do plantio, da…

MARCOLINA: …do adubo…

ROLANDO: Isso mesmo, do adubo, e depois de ir pro Ceagesp e daí para as feiras e gôndolas de supermercado e tal… Então, enquanto que a cenoura prima mais por essa origem, já o cadeado advém de um processo mais para a manufatura, que envolve a extração de minérios, as forjas, e até, né?, um certo lado assim militar, estratégico e tal.

MARCOLINA: Você falou das gôndolas de supermercado, e eu acho que aí pode estar a origem de uma certa confusão, né? Porque, exatamente, nós temos cenouras e cadeados à venda nos supermercados, e daí às vezes nasce a confusão.

ROLANDO: Exatamente. E não só a confusão entre cenouras e cadeados, mas também entre panettones e lâmpadas fluorescentes, e até têm crescido os casos de pessoas confundindo buchas de lavar louça com postas de salmão. Realmente, é bastante complicado.

MARCOLINA: Bom, mas aí a gente estaria complicando o nosso assunto. Vamos nos ater à questão das cenouras e dos cadeados. Você falou das funções e das origens, mas para quem está às voltas com a questão prática, de ter nas mãos um objeto que ele não sabe se é cenoura ou cadeado, como faz para saber a diferença?

ROLANDO: A dica aí é atentar para o formato e as cores. Não tem como errar. A cenoura é aquele objeto macio, comprido, às vezes um pouquinho sujo de terra, com aquela cor característica meio alaranjada do beta caroteno.

MARCOLINA: E tem um talinho verde em cima, não tem?

ROLANDO: Geralmente nas feiras, né, que eles não tiram. Nos supermercados, pode acontecer dela não ter o talinho verde, mas as demais características que eu falei, da cor, da consistência e do formato…

MARCOLINA: Ficam mantidos.

ROLANDO: Ficam, ficam mantidos. Já quanto ao cadeado, ele é um objeto mais duro, mais metálico, com uma cor meio dourada na base e com um inconfundível aro prateado em cima, que é justamente a parte móvel, a que abre para que ele possa depois ser fechado e trancar coisas.

MARCOLINA: Certo.

ROLANDO: Além disso, ele geralmente vem em caixinhas de papelão, né, que identificam o produto.

MARCOLINA: Ou seja, vem escrito…

ROLANDO: Isso mesmo, vem escrito “cadeado”, né, e geralmente assim acompanhado do logotipo de algum fabricante e tal.

MARCOLINA: Parece que tem também a questão de uma chave…?

ROLANDO: Isso mesmo, bem lembrado, isso mesmo. O cadeado geralmente necessita de uma chave para ser aberto, que inclusive deve acompanhar o produto quando ele for comprado. Já a cenoura dispensa completamente essa pequena chave.

MARCOLINA: Essa é a dica, então? Tem chave, é cadeado; não tem chave, é cenoura.

ROLANDO: Isso mesmo. Sempre lembrando que as demais características, analisadas assim em conjunto, é que vão estabelecer a diferença de forma definitiva.

MARCOLINA: Muito obrigada, Rolando. É com você, Paolillo.

A lição mais dura que recebi, quando me meti com esse negócio de escrever, foi a de atentar para o significado das palavras; foi a de não dar uma de Humpty Dumpty. Aprender a usá-las para o que servem, não para o que eu gostaria que servissem.

Dura lição, muito fácil de esquecer.

Isto está abandonado, hein. Culpa do twitter e de suas facilidades: ele deixa que meus talks sejam, além de silly, instantâneos. Mas vamos devagarinho, devagarinho, retomando as actividades.

* * *

Julie London era bonita e gostosa e talvez (não sei) até boa atriz. No entanto, o que fazia dela um tesão de derreter é como e o que cantava. Abaixo, a chapa da moça, que se diz capaz de chorar rios pelo sujeito:

Aqui, ela dá tchauzinho ao passo-preto. Reparem na cortesia do começo, e, oh, em tudo o mais:

Não sei o nome desse afortunado baixista. Viram como ela canta o “bye-bye”? E, por fim, vejam-na pedindo pro cara ir na manha:

No further comments.

* * *

Talvez eu não devesse dizer, mas uma das razões que vêm me mantendo longe daqui, Twitter à parte, é que, oh, hum, parece que comecei a escrever algo a sério. Mais detalhes, se os houver, no futuro.

* * *

Eu gosto bastante de Julian Barnes, que é um desses escritores cuja prosa, despretensiosa e clara, nem sempre é memorável, mas que nos entretêm com inteligência e algum humor e bom gosto. Ele me lembra os bons amigos das conversas civilizadas e dos risos claros. Dele peguei, e vos venho recomendar, “Nada a temer”, Nothing to be frightened of, que é uma reflexão leiga, atéia, sensível e inteligente sobre a morte. Sem surpresa nenhuma descubro no texto um monte de reflexões que venho fazendo sobre isso. Talvez a o elegante e divertido parágrafo de abertura lhes dê uma idéia do tom do livro, cujo peso se dissipa em parte nessa leveza:

“Não acredito em Deus, mas sinto falta d’Ele. É isso o que eu digo quando essa questão é abordada. Perguntei ao meu irmão, que ensinou filosofia em Oxford, em Genebra e na Sorbonne, o que ele achava dessa declaração, sem dizer que era minha. Ele respondeu com uma única palavra: ‘Piegas’”.

Pois sim, meu caro Julian, eu também sou piegas segundo os padrões pesados de Oxford, Genebra, Sorbonne. Não é, nem de longe, o pior que nos podia acontecer, é?

UBIK coverQuem leu Tlön, Uqbar, Orbis Tertius de Borges lembra-se de que o conto começa falando de um mundo fictício, projetado às expensas de um milionário ateu, e termina com a descoberta, chocante, de que aquele mundo começava a invadir o nosso, fazendo com que a realidade cedesse e lhe abrisse espaço, de tal sorte que um dia nosso mundo se tornasse Tlön. O conto é muito bom, muito fascinante e, sempre achei, tem mais humor do que geralmente se lhe credita.

Esse conto tem, com vinte e tantos anos de antecipação, todo o leitmotiv da obra de Philip K. Dick: a realidade que cede, ou a realidade que nada tem de real. Talvez por isso alguém disse, com evidente exagero, que Dick foi o Borges da Ficção Científica. Não foi; para ser o Borges de qualquer coisa é preciso, primeiramente, escrever bem, e Dick escrevia mal. Abusava de frases relatoriais e clichês idiotas de FC (“meus sensores indicam que…”). E, apesar disso, suas histórias são tão estranhas que acabam prendendo a atenção.

“Ubik” só havia saído, há muitos anos, em edição portuguesa da Europa-América. O título não engana ninguém: fala de ubiqüidade. Apenas, a estende ao ponto de realmente incomodar. Conta a história de um bando de paranormais que caem numa emboscada (não fica claro qual o objetivo dessa emboscada) e que são mantidos, como é praxe no contexto da história, congelados num estado de semi-vida. O patrão deles tenta fazer contato com suas consciências, enquanto a realidade que conhecem (e que não é realidade: são as imagens que suas mentes guardaram do mundo) vai cedendo, e o tempo começa a recuar. Nesse processo, seu patrão se torna ubíquo: a cara dele aparece no dinheiro, eles o vêem na TV, mensagens dele surgem pichadas em paredes de banheiros e em pacotes de cigarros tirados aleatoriamente de supermercados em cidades distantes. No final do livro, entendemos, junto com o paranormal restante, que eles estão mortos; porém uma coisa estranha acontece com o patrão, e começamos a desconfiar de que ninguém mais sabe quem está realmente morto e quem não.

Em “O homem do castelo alto”, a Segunda Guerra foi vencida pelo Eixo. Os Estados Unidos estão divididos em três pedaços: a costa oeste é província japonesa, a costa leste é província alemã, e uma faixa central se mantém independente (e irrelevante) a duras penas. Os japoneses da costa oeste colecionam a pop art vagabunda pré-guerra: gibis do Super-Homem, bolsas da Betty Boop, garrafas originais de Coca-Cola. Um sujeito enriquece vendendo isso a eles. Ao mesmo tempo, um escritor da faixa central lança livros de fantasia cujas histórias se passam num mundo onde o Eixo perdeu a guerra. E o vendedor de tranqueiras se perde nesse mundo (o nosso?) por alguns minutos: a realidade dele cede (à nossa?).

A editora Aleph, que lançou esses dois, vai lançar no ano que vem o mais estranho dos livros dele (dos que li, bem entendido): “Os três estigmas de Palmer Eldritch”, no qual esse senhor do título se transforma, sob condições especiais e não inteiramente compreensíveis, em Deus.

Dick era louco. Começou a ter alucinações a uma certa altura da vida, e acreditava que sua mente tinha sido invadida por uma forma superior de inteligência. Coemçou a achar que vivia duas vidas simultâneas, uma no seu tempo, como Philip K. Dick, e outra no século I, como um cristão perseguido pelos romanos. Ficou paranóico, achando que a KGB e o FBI queriam matá-lo; depois, se dizia possuído pelo espírito do profeta Elias. Morreu, compreensivelmente, de derrame cerebral.

Falei de Tlön, Uqbar, Orbis Tertius, mas na verdade acho que Dick está mais para Pierre Menard. A este, Borges atribuiu uma lista de obras que era “um diagrama de sua história mental”. Parece que é exatamente o caso de Dick. Borgeano, mas pela porta dos fundos.

P. S. tardio (17/09/09): leio na página 164 da edição brasileira de “Valis”, da Editora Aleph, uma referência à afirmação de Schopenhauer de que o gato que brinca hoje no jardim é o mesmo que brincava há trezentos anos. É a mesma citação que Borges faz no ensaio “O rouxinol de Keats” (in Outras inquisições; Companhia das Letras, 2007, p. 137/141). Virão daí – dessa pequena coincidência – as comparações?

Vocês vão me perdoar, mas eu não resisti. Reação de Hitler à morte de M. J.:

– Vão tocar Heal the World de cinco em cinco minutos, até que a gente comece a cagar arcos-íris!

2745778Entre os anos 2000 e 2001, eu acompanhava a troca de e-mails abertos entre Ivan Lessa e Mário Sérgio Conti no UOL – troca que acaba de virar esse livro cuja bonita capa está aí ao lado. Lia por causa do Lessa e não do Conti. Não que o Conti seja ruim nem nada, mas quem ganha do Ivan Lessa atualmente quando o assunto é escrever em português brasileiro? Para mim, ninguém. Pois eu ia lá, lia e gostava muito dele, e menos mas também bastante do Conti (de longe o mais afetado dos dois, o mais “intelectualmente exibicionista”, como diz a imbecil crítica do imbecil crítico da imbecil página de entretenimento do imbecil UOL). Havia um lugar para que os leitores comentassem, chamado de “Mural” – a palavra parece mais tonta hoje do que há nove anos, mas na época já parecia bem idiotinha, tanto que Lessa chamava os comentaristas de “muralistas”, caçoando muito de todos. Eu era um deles: muralizava às vezes com meu nome, às vezes como uma bicha “regenerada” que discutia com outro muralista (que eu nunca soube quem era) as delícias da vida straight: ir à feira com a namoradinha nova, por exemplo. Quase inesquecível mural, como quase inesquecível é mais alguém que conheci ali, e a quem por um triz não fiz a besteira de mandar um exemplar de presente.

Estou pela metade desse livro, que inclui também os e-mails que os autores trocaram entre si, de forma particular, durante aquele tempo, e que está também vitaminado com algumas notas de rodapé muito zombeteiras (provavelmente, pelo jeitão, do Conti). Embora as muitas alusões gozadoras aos “muralistas”, parece, tenham sido suprimidas, isso na verdade não importa: é tudo uma delícia. O preço é 45 paus, mas quem for na Cultura tira, por enquanto, a 32. Vão lá.

* * *

Tenho amigos místicos – alguns comentam aqui – que dizem, uns com pompa, outros em tom normal, que coincidências não existem. Eu, sem pompa mas também sem humildade, confesso que disso nada sei. Prefiro manter minha fé em que existam sim coincidências, e que elas são os buraquinhos que a(s) divindade(s) deixou(aram) no seu plano para que a realidade respire um pouquinho, não sufoque dentro da caixinha.

Leiam com atenção:

Optou, como era de se esperar, pela melhor escolha possível: o novo Apple Powerbook G4 de 1Ghz, com tampa de alumínio e dotado de um processador PowerPC 7451, AltiVec Velocity Engine, memória RAM de 960 megas (sic) e disco rígido de 60 gigas (sic). Tinha Bluetooth e um gravador de CD e DVD integrado.

Mais que isso, era o primeiro notebook do mundo com tela de 17 polegadas, uma placa Nvidia e resolução de 1440 por 900 pixels que deixavam embasbacados adeptos dos PC e faziam esquecer tudo o que havia de novo no mercado.

Isto não é uma propaganda da Apple de 2004; são dois parágrafos copiados da página 201 do romance “Os homens que não amavam as mulheres”, de Stieg Larsson, aqui lançado com sucesso e cópia de elogios pela Companhia das Letras.

Nunca tinha visto nada parecido fora de livros de doutrinação ou daqueles onde o prop não dispensa a companhia do agit. Deve ser uma novidade, um marco. (Não assim o fato corriqueiro de ser horrendamente mal escrito.)

Lendo o bom livro dos “Diálogos” entre Jorge Luís Borges e Ernesto Sabato entendi que prefiro Borges como escritor, mas meu espírito e temperamento se afinam com os do Sabato. O que se segue está entre as páginas 172 e 173 (as últimas) da edição brasileira de 2005 da Editora Globo.

SABATO: Eu acredito seriamente nos horóscopos, quando são feitos como se deve. Xul Solar fez os horóscopos dos meus dois filhos e durante muitíssimos anos eu resisti em conhecê-los. Sempre tive medo do futuro, porque no futuro, entre outras coisas, está a morte.

BORGES: Como, o senhor tem medo da morte?

SABATO: A palavra exata seria tristeza. Morrer me parece muito triste.

BORGES: Eu penso que assim como a gente não pode se entristecer por não ter visto a Guerra de Tróia, não ver mais este mundo tampouco pode entristecer, não é mesmo? Na Inglaterra, há uma superstição popular que diz que nós não saberemos que morremos até que comprovemos que o espelho não nos reflete. Eu não vejo o espelho.

SABATO: Quando Xul morreu, Lita, sua mulher, insistiu mais de uma vez para que víssemos esses estudos sobre os meus filhos. Eu nunca quis vê-los, mas Matilde sim. Sabe que foram se cumprindo?

BORGES: E como são? O que pressagiavam?

SABATO: Um misterioso entrecruzamento de fortuna e infelicidade. Isso, Borges, isso.

Penso como Borges – como me entristecer com o que não saberei? –, mas sinto como Sabato. Sempre achei que morrer é mesmo uma coisa muito triste, e que triste também é a aterradora definição que Nabokov dá da vida em sua autobiografia: uma breve fenda de luz entre duas eternidades de trevas. Me parece que o horrível e milagroso ajuntamento de complicações que constituem a minha consciência seria por si só um argumento contra a extinção pura e simples. É verdade: se me perguntassem por que minha consciência deveria ser preservada numa metafísica qualquer, eu responderia isso mesmo – porque sou tão complicado.

Não estou entrando no problema, também horrível, também aterrador, de a quem dirigir esse argumento. Que é, talvez, quem caberia interrogar sobre o banal horóscopo de Xul Solar: “misterioso entrecruzamento de fortuna e infelicidade” é o resumo de todas, todas as vidas que conheço.

Quando fico alucinadamente sem dinheiro, como agora e como freqüentemente tem sido nos últimos cinco ou seis anos, vou passear entre as estantes da Livraria Cultura para atiçar as lombrigas.

Fiz isso hoje, e surpresa: nunca vi tantos livros que eu jamais quereria comprar.

O pesadelo da história