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Lendo as três primeiras estrofes d‘Os Lusíadas, aprendi que:

  • Barões assinalados, non assinalados Barões;
  • força humana, non humana força;
  • gente remota, non remota gente;
  • memórias gloriosas, non gloriosas memórias;
  • terras viciosas, non viciosas terras;
  • obras valorosas, non valorosas obras;
  • navegações grandes, non grandes navegações;
  • peito ilustre, non ilustre peito;
  • Musa antiga, non antiga Musa;
  • valor mais alto, non mais alto valor.

É verdade que lá no meio tem ocidental praianovo Reino, mas olhem o placar: 10 a 2.

“Não houve nenhum fato determinado. Nenhuma decepção específica. Foi uma questão de reflexão, de experiência de vida, de as coisas irem acontecendo.”

As palavras acima são de Ferreira Gullar, na VEJA desta semana, e são a explicação que ele dá para sua defecção do comunismo. Substituindo a palavra decepção por revelação, servem muito bem para explicar também minha mudança do ateísmo para o agnosticismo e deste para o catolicismo. Nenhum fato determinado, nenhuma revelação específica, muita reflexão e muita atenção ao mundo, aos homens, às coisas, aos modos e às palavras.

Não sei se essa maneira de conversão, de periagoge, é comum. Foi a minha. Amigos se espantam quando digo que Deus faz sentido. Não estranho: não faz muito tempo que eu mesmo me espantava. Hoje me espanta muito mais a arrogância com que eu tratava uma coisa sobre a qual eu sabia pouco, quase nada; como aderia irrefletidamente a “opiniões” fundamentadas nessa mesma ignorância; e como desprezava um pensamento cuja profundidade me escapava. Me espanta e horroriza o que eu tinha de comum achando, bobo, que era incomum. Deploro a preguiça de pensar que me levou a ser assim, que fez com que eu me acomodasse ao que vai pelo mundo em vez de procurar o que fizesse sentido.

É, em todo caso, muito cedo para dizer que me corrigi. Há vícios que aderem e há vícios que nos formam – destes últimos, tenho demais. Mas, como se recomenda, oro et, conforme consigo, laboro.

A lição mais dura que recebi, quando me meti com esse negócio de escrever, foi a de atentar para o significado das palavras; foi a de não dar uma de Humpty Dumpty. Aprender a usá-las para o que servem, não para o que eu gostaria que servissem.

Dura lição, muito fácil de esquecer.

Isto está abandonado, hein. Culpa do twitter e de suas facilidades: ele deixa que meus talks sejam, além de silly, instantâneos. Mas vamos devagarinho, devagarinho, retomando as actividades.

* * *

Julie London era bonita e gostosa e talvez (não sei) até boa atriz. No entanto, o que fazia dela um tesão de derreter é como e o que cantava. Abaixo, a chapa da moça, que se diz capaz de chorar rios pelo sujeito:

Aqui, ela dá tchauzinho ao passo-preto. Reparem na cortesia do começo, e, oh, em tudo o mais:

Não sei o nome desse afortunado baixista. Viram como ela canta o “bye-bye”? E, por fim, vejam-na pedindo pro cara ir na manha:

No further comments.

* * *

Talvez eu não devesse dizer, mas uma das razões que vêm me mantendo longe daqui, Twitter à parte, é que, oh, hum, parece que comecei a escrever algo a sério. Mais detalhes, se os houver, no futuro.

* * *

Eu gosto bastante de Julian Barnes, que é um desses escritores cuja prosa, despretensiosa e clara, nem sempre é memorável, mas que nos entretêm com inteligência e algum humor e bom gosto. Ele me lembra os bons amigos das conversas civilizadas e dos risos claros. Dele peguei, e vos venho recomendar, “Nada a temer”, Nothing to be frightened of, que é uma reflexão leiga, atéia, sensível e inteligente sobre a morte. Sem surpresa nenhuma descubro no texto um monte de reflexões que venho fazendo sobre isso. Talvez a o elegante e divertido parágrafo de abertura lhes dê uma idéia do tom do livro, cujo peso se dissipa em parte nessa leveza:

“Não acredito em Deus, mas sinto falta d’Ele. É isso o que eu digo quando essa questão é abordada. Perguntei ao meu irmão, que ensinou filosofia em Oxford, em Genebra e na Sorbonne, o que ele achava dessa declaração, sem dizer que era minha. Ele respondeu com uma única palavra: ‘Piegas’”.

Pois sim, meu caro Julian, eu também sou piegas segundo os padrões pesados de Oxford, Genebra, Sorbonne. Não é, nem de longe, o pior que nos podia acontecer, é?

Dizer que um certo artista fulano é “um dos mais destacados no cenário da vídeoarte” é dar como certas pelo menos três coisas: 1) que existe um troço chamado vídeoarte; 2) que, em existindo, esse troço tem um, ahn, “cenário”; e 3) que alguém se destaque nesse cenário (o que é até possível).

Como sei que há um mundo externo à minha consciência – um mundo ignorável na maior parte do tempo, mas mundo -, estou pronto a admitir que exista um troço chamado “vídeoarte”, e que esse troço tenha cenários, e que neles haja gente que se destaque.

Eu só quero que se danem.

* * *

No meu mundo interno, talvez o Haiti não existisse até a semana passada. Caetano Veloso existe, muito contra o meu gosto, e canta nalgum lugar da minha consciência que o Haiti é e não é aqui (Caetano Veloso, reparem, deixa sempre todas as portas abertas, não importa o quão puto ou indignado pareça). Isso era todo o meu Haiti: um verso vagabundo e sem sentido da MPB.

Agora, porém, o Haiti existe, e é na forma de horror. Horror ainda maior do que o que cotidianamente já é. Para quem, como eu, é viciado em palavras, o que há a dizer é o que li de alguém, que não lembro mais quem seja, no Twitter:

“O que é que Deus tem contra o Haiti?”

Eu também não sei.

* * *

Hoje o mood é de Roberta Flack, se lhes agrada:

Hugh Laurie é bem conhecido aqui no Brasil por fazer o engraçado e rude Dr. House; já Stephen Fry ficou brevemente célebre quanto interpretou, magistralmente, Oscar Wilde numa produção da década (do século?) passada. Na Inglaterra mamãe dos dois, eles formaram uma dupla cômica muito bacana que tinha um show chamado A bit of Fry and Laurie. Fizeram também uma adaptação magnífica de Jeeves & Wooster, personagens de P. G. Wodehouse:

Howdy-howdy-howdy-ho, sir. Os dois, junto com Emma Thompson, se formaram no célebre Footlights Club, de Cambridge, de onde saíram também os Pythons Eric Idle, Graham Chapman e John Cleese, bem como, antes deles, Peter Cook. Terra santa, portanto. Curtam esse pedacinho aí em cima; o TuTubas tem muito mais.

* * *

Numa pesquisa entre comediantes ingleses para eleger o “comediante dos comediantes”, John Cleese tirou o segundo lugar; o primeiro foi para Peter Cook, e Cleese votou nele. Não há muita coisa de Cook lançada aqui: creio que apenas “The wrong box” (“A loteria da vida”) e “Bedazzled” (“O diabo é meu sócio”), este último refilmado em 2000 com Brendan Fraser. Cook teve também uma dupla de sucesso com Dudley Moore num show chamado Not only… but also, e uma vida pessoal atribulada pelo alcoolismo. Ei-lo como Sir Arthur Streeb-Greebling, discorrendo sobre como ensinar corvos a voar debaixo d’água:

* * *

O entregador da Veja me deu o telefone dele. “É muito melhor que o SAC”, explicou, e acreditei piamente.

P. S. tardio: Stephen Fry é veado, e sua justificativa para isso é ótima (e passa longe do besteirol de “opção” e tal). Diz ele que “Tudo começou quando saí do útero. Olhei de volta para a minha mãe e pensei: ‘Essa é a última vez que me enfio num lugar desses'”.

P. S. ainda mais tardio: eu não podia deixar passar esta maravilhosa aula de lingüística, cruelmente fiel a muitas que tive na FFLCH:

O dia é das crianças, e pensando nelas (e na que fui) trago o linque do admirável sítio Art Passions. É um sítio que tem montes e mais montes de scans de ilustradores de livros infantis – de quando ilustrar era uma arte fora do alcance das concepções de gente como o Basquiat. Quem cuida é uma moça, cujo nome não sei; ela tem quase todo mundo lá. O primeiro que vos apresento é o muito maravilhoso Arthur Rackham, numa ilustração feita para Peter Pan:

São fadinhas.

São fadinhas.

Depois, o não menos apaixonante Kay Nielsen, e esta ilustração de um conto nórdico que não sei qual é:

Elas vão dançar.

Elas vão dançar.

Por fim, esta não menor maravilha de Edmund Dulac, da história do Rouxinol de, salvo engano, Andersen:

Lar de maravilhas.

Lar de maravilhas.

Há outros lá, inclusive o soberbo Aubrey Beardsley. Vão lá. Eu encerro aqui com uma senhora que não tem lá, e que é uma das favoritas da minha infância, Mabel Lucie Attwell, cujos bicos de pena nos livros de Monteiro Lobato eu amava:

Deixa a gente entrar, tia!

Deixa a gente entrar, tia!

A Wikipédia – mãe, tia e tutora deste imbecil que ora digita – explica que Ida Maria Børli Sivertsen é norueguesa, tem menos anos de vida que eu de carteira registrada, é, como Nabokov, sinestésica, já foi evangélica e anda fazendo o tipo de sucesso restrito da chamada cena indie. Ela berra bem, como se vê em Oh my God:

O som é uma derivação do punk que deve bastante em tudo, letras inclusive, à rota Runaways – L7 – P. J. Harvey – Elastica. Ela é, na conversa pelo menos, bebaça e metelona, e mistura a essas giletadas umas bolinhas de chiclete. O vídeo abaixo, I like you so much better when you’re naked, não prima pela sutileza com as bananas todas e tal, e o visual é o de 1983:

Eu gosto desse som, e da voz dela. Neste vídeo, Stella, ela começa dizendo que Deus é um pusher man que sai pelo mundo pegando putas, e a canção é simpática, bem como os berros e ganidos:

Berreiro bom sempre me ganha. Humor também.

UBIK coverQuem leu Tlön, Uqbar, Orbis Tertius de Borges lembra-se de que o conto começa falando de um mundo fictício, projetado às expensas de um milionário ateu, e termina com a descoberta, chocante, de que aquele mundo começava a invadir o nosso, fazendo com que a realidade cedesse e lhe abrisse espaço, de tal sorte que um dia nosso mundo se tornasse Tlön. O conto é muito bom, muito fascinante e, sempre achei, tem mais humor do que geralmente se lhe credita.

Esse conto tem, com vinte e tantos anos de antecipação, todo o leitmotiv da obra de Philip K. Dick: a realidade que cede, ou a realidade que nada tem de real. Talvez por isso alguém disse, com evidente exagero, que Dick foi o Borges da Ficção Científica. Não foi; para ser o Borges de qualquer coisa é preciso, primeiramente, escrever bem, e Dick escrevia mal. Abusava de frases relatoriais e clichês idiotas de FC (“meus sensores indicam que…”). E, apesar disso, suas histórias são tão estranhas que acabam prendendo a atenção.

“Ubik” só havia saído, há muitos anos, em edição portuguesa da Europa-América. O título não engana ninguém: fala de ubiqüidade. Apenas, a estende ao ponto de realmente incomodar. Conta a história de um bando de paranormais que caem numa emboscada (não fica claro qual o objetivo dessa emboscada) e que são mantidos, como é praxe no contexto da história, congelados num estado de semi-vida. O patrão deles tenta fazer contato com suas consciências, enquanto a realidade que conhecem (e que não é realidade: são as imagens que suas mentes guardaram do mundo) vai cedendo, e o tempo começa a recuar. Nesse processo, seu patrão se torna ubíquo: a cara dele aparece no dinheiro, eles o vêem na TV, mensagens dele surgem pichadas em paredes de banheiros e em pacotes de cigarros tirados aleatoriamente de supermercados em cidades distantes. No final do livro, entendemos, junto com o paranormal restante, que eles estão mortos; porém uma coisa estranha acontece com o patrão, e começamos a desconfiar de que ninguém mais sabe quem está realmente morto e quem não.

Em “O homem do castelo alto”, a Segunda Guerra foi vencida pelo Eixo. Os Estados Unidos estão divididos em três pedaços: a costa oeste é província japonesa, a costa leste é província alemã, e uma faixa central se mantém independente (e irrelevante) a duras penas. Os japoneses da costa oeste colecionam a pop art vagabunda pré-guerra: gibis do Super-Homem, bolsas da Betty Boop, garrafas originais de Coca-Cola. Um sujeito enriquece vendendo isso a eles. Ao mesmo tempo, um escritor da faixa central lança livros de fantasia cujas histórias se passam num mundo onde o Eixo perdeu a guerra. E o vendedor de tranqueiras se perde nesse mundo (o nosso?) por alguns minutos: a realidade dele cede (à nossa?).

A editora Aleph, que lançou esses dois, vai lançar no ano que vem o mais estranho dos livros dele (dos que li, bem entendido): “Os três estigmas de Palmer Eldritch”, no qual esse senhor do título se transforma, sob condições especiais e não inteiramente compreensíveis, em Deus.

Dick era louco. Começou a ter alucinações a uma certa altura da vida, e acreditava que sua mente tinha sido invadida por uma forma superior de inteligência. Coemçou a achar que vivia duas vidas simultâneas, uma no seu tempo, como Philip K. Dick, e outra no século I, como um cristão perseguido pelos romanos. Ficou paranóico, achando que a KGB e o FBI queriam matá-lo; depois, se dizia possuído pelo espírito do profeta Elias. Morreu, compreensivelmente, de derrame cerebral.

Falei de Tlön, Uqbar, Orbis Tertius, mas na verdade acho que Dick está mais para Pierre Menard. A este, Borges atribuiu uma lista de obras que era “um diagrama de sua história mental”. Parece que é exatamente o caso de Dick. Borgeano, mas pela porta dos fundos.

P. S. tardio (17/09/09): leio na página 164 da edição brasileira de “Valis”, da Editora Aleph, uma referência à afirmação de Schopenhauer de que o gato que brinca hoje no jardim é o mesmo que brincava há trezentos anos. É a mesma citação que Borges faz no ensaio “O rouxinol de Keats” (in Outras inquisições; Companhia das Letras, 2007, p. 137/141). Virão daí – dessa pequena coincidência – as comparações?

Na Rua da Abadia.

Na Rua da Abadia.

Ontem fez quarenta anos que se tirou essa fotografia. Estranha efeméride, palavra que compartilha uma raiz grega com “efêmero” mas se esforça para dizer o contrário.

Gosto muito desse disco. Eu o ouvi no dia em que meu pai morreu, para escândalo e raiva da minha mãe. O lado B, quando existia esse negócio de lado B, era o meu favorito: a suíte que começa com “You never give me your money” e termina em “The end”. “She came in through the bathroom window” é a minha favorita.

Caso todo mundo não saiba, essa foto era tida como a grande prova de que Paul McCartney morreu e foi substituído por um sósia chamado Billy Shears. Paul está descalço (sinal de morte em sei lá eu que exótica cultura oriental), com o passo trocado (em descompasso com os vivos) e fumando (olha aí, Governador!). Ringo está vestido como agente funerário; John, como um pastor prafrentex; e George, sei lá, como coveiro. E a placa do fusca marca: 28IF, 28 se (vivo). É demais, não é? Para mim, tá provado: he’s passed on, he’s no more, he’s ceased to be, he’s an ex-Paul. Ano que vem toca aqui, e, se eu não for um ex-Orlando, pretendo ir.

De todas as homenagens/sacanagens feitas com essa capa, minha favorita é essa:

Ué... o Bart não devia ser o John?

Ué... o Bart não devia ser o John?

Uma vez fiz um teste do tipo “que Simpson é você?”. Deu Homer na cabeça, inconteste. Foi a primeira de muitas provas que minha filha amealhou confirmando minha palermice fundamental. Ela fez o teste também e, claro, deu Bart.

O pesadelo da história