“Não houve nenhum fato determinado. Nenhuma decepção específica. Foi uma questão de reflexão, de experiência de vida, de as coisas irem acontecendo.”

As palavras acima são de Ferreira Gullar, na VEJA desta semana, e são a explicação que ele dá para sua defecção do comunismo. Substituindo a palavra decepção por revelação, servem muito bem para explicar também minha mudança do ateísmo para o agnosticismo e deste para o catolicismo. Nenhum fato determinado, nenhuma revelação específica, muita reflexão e muita atenção ao mundo, aos homens, às coisas, aos modos e às palavras.

Não sei se essa maneira de conversão, de periagoge, é comum. Foi a minha. Amigos se espantam quando digo que Deus faz sentido. Não estranho: não faz muito tempo que eu mesmo me espantava. Hoje me espanta muito mais a arrogância com que eu tratava uma coisa sobre a qual eu sabia pouco, quase nada; como aderia irrefletidamente a “opiniões” fundamentadas nessa mesma ignorância; e como desprezava um pensamento cuja profundidade me escapava. Me espanta e horroriza o que eu tinha de comum achando, bobo, que era incomum. Deploro a preguiça de pensar que me levou a ser assim, que fez com que eu me acomodasse ao que vai pelo mundo em vez de procurar o que fizesse sentido.

É, em todo caso, muito cedo para dizer que me corrigi. Há vícios que aderem e há vícios que nos formam – destes últimos, tenho demais. Mas, como se recomenda, oro et, conforme consigo, laboro.

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