“Noto que o senhor está ocupado”, me disse o homem vestido humildemente, com uma pastinha surrada sob o braço. Não foi nenhum prodígio de percepção da parte dele: uma mangueira jorrava água enquanto eu me debatia com uma vassoura e um chão ensaboado. “De fato”, respondi, sem interromper o trabalho de lavar a área da frente da minha casa.
“O senhor permite que eu lhe deixe um folheto?”
“Esteja à vontade.”
As mãos e a voz dele tremiam. Não fui capaz de perceber ao certo se ele seria doente,ou se estava começando agora nesse serviço evangelizador de dar folhetos de porta em porta. Enquanto as mãos trementes tinham dificuldade de tirar o folheto de dentro da pasta, a voz trêmula dizia: “O senhor, como todos nós, já perdeu um ente querido. Muitas vezes nós nos perguntamos o que aguarda nossos amados que morrem.”
“O seu folheto responde a essa pergunta.” Afirmei, não perguntei.
“Sob a ótica da Bíblia, sim.”
Recebi o folheto e, diante do olhar desaprovador dele, o enfiei no bolso da bermuda. Não por desrespeito; é que eu temia mais pelo meu futuro, se minha mulher chegasse do trabalho e visse a área suja, que pelo destino dos meus mortos.
* * *
Isso foi hoje de manhã. O folheto, que resolvi que seria decente da minha parte pelo menos olhar, mostra na frente uma menina com um cesto de flores diante de uma lápide e o texto: “Que esperança há para entes queridos falecidos?”. Não avancei na leitura.
A vida – estou lembrando da voz de alguém – é mais comprida que a arte. Ontem mesmo eu estava perambulando entre meus mortos. Não apenas pessoas, mas também lugares e tempos. Fui apresentar a quem me acompanhava alguns pitorescos escombros, algumas herbosas ruínas da minha vida de menino e de rapaz. Passeamos pelos nomes de tantos defuntos, e diante de tantos lugares inexistentes, que a certa altura pedi-lhe que me beliscasse, temendo ser já tão irreal quanto as coisas que lhe dizia e lhe mostrava.
A vida que vai morrendo mesmo enquanto acontece.
* * *
Uma das coisas que fui fazer foi mandar rezar uma missa pelos meus mortos – contei doze nomes, gente do meu sangue apenas – e acender uma vela pelo meu pai na igreja de Santo Antônio do Pari. É o atrasado pagamento de um favor, no further information.
Talvez o fato de ter companhia tenha suavizado uma ou duas reflexões amargas, um início de tristeza, umas pontadas de dor. A memória não cala sua boca: vai apontando as coisas que deveriam estar onde estão outras, mostrando lugares por onde andamos com nossas mãos dadas a mãos que não são mais, percebe cheiros perdidos onde os aromas agora são outros. Deve ser como a natureza, a memória, incapaz de saber se o que faz é bom ou mau: só faz.
Apontei os lugares com os quais sonho recorrentemente, nos quais é sempre noite, em que sempre ando desassossegado, e onde me esperam pessoas sozinhas. Acho que não fui capaz de dizer competentemente o quanto esses sonhos me angustiam. Minha companhia disse esperar que a vela, a missa, os façam cessar; duvidei. Duvido.
* * *
Diante de grades fechadas e de um cartaz pedindo donativos, olhamos no chão bruto um sino enorme enegrecido pelo fogo de um incêndio. Acima dele, a torre nua não tem escadas: não há meio de subir aquele sino, que, de todo modo, talvez não sirva mais para anunciar as vésperas.
Acho que apertei com mais força a mão que eu segurava, com um certo susto. Porque até a parte da minha vida que se mantém também se desfaz diante dos meus olhos.

14 comentários
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22 abril 2010 às 10:14 am
Sérgio F. Mendes
Você não sabia que a Igreja havia pegado fogo, Orlando? Já faz um certo tempo… uns dois anos, eu arriscaria. Imagino quão caro lhe era aquele templo; eu, de quando estudei no Carlos de Campos, guardo recordações de passar ali na porta (tinha um colega que morava por ali) e, eventualmente entrar para admirar a igreja que tinha em seu interior muitos ornatos e pinturas interessantes; seus bancos com plaquetinhas dizendo quais famílias ou pessoas os haviam doado; realmente muito triste. Não só pessoas fazem parte da nossa galeria de mortos mas, no nosso caso singular de paulistanos, quantos prédios que faziam parte do nosso dia-a-dia não sucumbiram à sanha do mercado imobiliário ou ao simples descaso alimento das heras. Como o antigo hospício da várzea do Carmo que está a desfazer a olhos vistos.
Quanto aos missionários em domicílio, eles mudaram um pouco a tática. Ou se tratou de real inaptidão do ‘irmão’ que lhe abordou. Certa feita, num sábado de manhã, um desses missionários de pastinha e vendedor de revistas bateu em casa. Minha mãe atendeu a porta e pergunto ao mocinho o que queria. Posto o assunto, mamãe disse que não tinha tempo ao que o rapaz respondeu: “A senhora não tem tempo pra Jesus Cristo”. Foi o suficiente para desencadear os maus componentes do sangue ibérico: “Olha, até Ele, às vezes, tem que esperar. Bom dia!”.
22 abril 2010 às 1:14 pm
Orlando
Eu sabia sim do incêndio, Sérgio Venardi: minha mãe era tesoureira da congregação das senhoras à toa quando o fogo comeu. Mas não tinha visto o estado lamentável da torre por dentro, nem o sino calcinado no chão. Fiquei muito impressionado.
Quanto ao rapaz em questão, não era um evangélico tradicional, para os quais não há nada que possamos fazer pelos que já se foram. Achei que seria um mórmon, mas era Testemunha de Jeová. Mal treinado, ainda por cima. Mas quando a turma mantêm as exigências de atenção no limite do razoável, meu coração se derrete por todos.
23 abril 2010 às 2:47 pm
Sérgio F. Mendes
É, Orlando. Um prédio calcinado e com um sino que azinhavra no chão é coisa de um país que está em guerra… são quase cenas de guerra.
Sim, logo desconfiei que fosse um testemunha… os panfletos com aquelas pinturas perfeitas… é que não gosto de levantar celeuma…
4 maio 2010 às 12:48 pm
Érico
Sinto saudades até mesmo das mesas brancas do Instituto – com trocadilho espírita.
Havia também as azuis, mas agora não há mais nada.
4 maio 2010 às 10:43 pm
Orlando
Puxa, Érico, faz tempo que não vou lá e nem imagino como esteja. Aquela reforma horrorosa já terminou?
9 maio 2010 às 10:47 am
Érico
Outrodia estive lá. A reforma terminou, mas tudo anda semiabandonado. L.-Strauss, primevo professor da Casa, sacou tudo sobre nossas construções & ruínas. Aquilo, na verdade, parece – e é – uma escola estadual.
12 maio 2010 às 6:37 am
Orlando
Hum… estou pensando em me matricular, se ainda não tiver sido jubilado, na Educação no próximo semestre. Mais para voltar a ter acesso à biblioteca que por qualquer outra razão.
18 maio 2010 às 3:18 pm
Donato
Pois é: as mesas brancas se foram.
21 maio 2010 às 10:55 am
tata
Passei aqui por acaso e vi esse texto. Bom, eu li o mesmo folheto que vc descreve e gostei. Tanto que hoje sou uma mal treinada Testemunha de Jeová. Achei interessantíssimas tais coincidências.
21 maio 2010 às 5:42 pm
Orlando
Restaram-nos quais, Donato? As vermelhas?
Faz tempo que você o leu, Tata Marques? Espiei seu blogue e não vi indícios do seu treinamento. Sê bem vinda, a propósito: abanca-te.
28 maio 2010 às 4:51 pm
tata
Também, né?! O assunto lá é outro.
Faz no mínimo uns dez anos, e eu acho isso muito tempo.
Obrigada pelas boas vindas.
30 maio 2010 às 12:52 pm
Orlando
Sim, Tata, eu também acho dez anos muito tempo.
14 junho 2010 às 11:17 pm
Jamac
Blz ,cara ? Voltou à ativa ?
Abs
27 junho 2010 às 7:10 pm
Orlando
Grande Jamac! Eu estou na ativa meio inativo, se me entende, mas sempre por aí. Abraço!