Não vou dizer que me lembro onde estava há vinte anos e um dia, quando derrubaram o muro de Berlim. Lembro apenas que era uma coisa esperada – perestroika, glasnost, Gorbachev eram palavras muito ouvidas então – e via as cenas pela televisão no espírito de “bem, aconteceu o inevitável”.

Era inevitável. Ficávamos sabendo que ocasionalmente algumas pessoas fugiam para o comunismo – geralmente espiões ou traidores, ou então o Ziraldo indo colher cana em Cuba. E víamos milhares fugindo do comunismo. Gente fuzilada pulando o muro, ou empilhada em balsas-cadillacs rumo à Flórida. Era por isso que era preciso murar ou ilhar o comunismo onde ele estivesse perto de qualquer outra coisa: porque qualquer outra coisa acabava parecendo melhor, fosse um tiro na testa atrás de coca-cola, fosse a perspectiva de dançar com tubarões.

Depois dessa débâcle ouvi muita gente dizendo que o comunismo não era aquilo, não era aqueles países que se assemelhavam a campos de concentração geridos por sistemas organizados de delação e extermínio, onde os ungidos do povo não eram ungidos pelo povo e viviam de um jeito que daria vergonha a Luís XVI: aquilo era uma distorção maligna do paraíso proletário almejado, o verdadeiro comunismo ainda estava por vir.

Nunca acreditei. O melhor governo é aquele que se mete o menos possível na vida das pessoas e não lhes diz em que dias da semana pode comer manteiga ou tomar banhos de mais de três minutos, nem as convida a cagüetar o vizinho que resmunga contra o governo.

O melhor é deixar a turma em paz. Você pode até murá-los por uns anos, mas não tem jeito: uma hora se enfezam e derrubam tudo. E vão, muito inconscientes, comprar discos da Madonna, comer hambúrguer e usar tênis de cores berrantes. Coisas tristes que as pessoas se dispõem a fazer só porque podem.