A lenta agonia cancerosa de tia Guiomar impressionou tia Ermínia, que era a mais velha das duas. A peregrinação baratinada das irmãs solteironas por charlatões vários (cirurgiões espíritas, massagistas, pastores evangélicos, macumbeiros, Seicho-no-Iê e terapeutas holísticos) fez com que a tia Ermínia conseguisse o prodígio que é manter, ao mesmo tempo, a fé mais fervorosa e a desconfiança mais fria. Siamesamente ligadas, incões, fé e desconfiança aumentavam juntas a cada novo tratamento fracassado que impunha a tia Guiomar.
Nada sabemos sobre os deuses, suas pressas, seus ritmos, seus critérios. Insondáveis, a uns dão tudo e com outros não falam. Com a tia Ermínia, escolheram o silêncio. Mas ela, teimosa, jamais se rendeu à idéia do insondável: a morte de tia Guiomar parecia a ela um adversário de tribunal, contra quem se podem apresentar argumentos e que podia ser vencido com a lógica certa, com um bom advogado; depois, achou, como dizem esses livros todos, que era questão de manter-se rija na rinha. Quando ela morreu, tia Ermínia passou a achar que seria vítima de uma revanche da morte. E tinha razão.
No segundo ano após a morte de tia Guiomar, tia Ermínia já era uma sombra. Pouco soubemos de suas dores; minha mãe não quis ficar com ela em nossa casa. Imaginamos que sofreu muito. Seu silêncio, surpreendente (era mulher de muitos escândalos), não era a serenidade dos morituri; era antes a mesma teimosia que recusava a perplexidade e que tantas vezes, e tão erradamente, é confundida com tenacidade.
Retomou o périplo. Ela foi novamente atrás dos emissários, dos canais, dos porta-vozes do insondável. Mas, embora fizesse tudo o que lhe fosse pedido ou ordenado, ia por ir – como quem ronda uma porta por tanto tempo que acaba esquecendo o que espera sair, transformando em hábito e neurose o que um dia foi esperança.
Os deuses não gostam de autômatos, e a tia nada tinha de Penélope, de Medéia. Ela morreu num novembro quente e dilatado – um mês em que tudo parecia estalar. Mês de muitas moscas e de verde acinzentado.
* * *
As famílias grandes têm a virtude de não nos desacostumar da morte. Não houve, na minha infância, ano em que não morresse parente. Às vezes iam dois no mesmo ano, ou até no mesmo semestre. Eu vivia com a idéia de morte presente. Não é a mesma idéia de morte iminente que, creio eu, se tem nas guerras, mas sim a noção precisa de que a morte existe, e de que tudo, depois dela, continua. Todas as gerações se acham perto do final dos tempos porque inconscientemente não acreditam que o mundo sobreviverá às suas mortes. Acham que, com o apagar das suas consciências, apagar-se-á também o mundo. Viver rodeado de mortes, se não elimina, pelo menos atenua essa impressão. Via pessoas morrendo e via o mundo continuando; e embora secretamente acreditasse que o mundo continuava porque eu é que estava vivo, a desconfiança de que isso se dava à minha revelia já estava dentro de mim. Como os anos, essa convicção só aumentaria; hoje, já sou para mim mesmo muito banal.
Coube a mim segurar uma das alças do caixão. Ao lado dos meus tios e primos, eu esperava que uma sensação de clã me invadisse; que ser Tosetto tivesse uma significação. Esperei em vão – um nome não bastava como ponte entre nossos abismos.
* * *
A tia tinha tentado permanecer aqui. Mesmo que não tivesse conscientemente percebido sua derrota, tinha sido mais honesta do que todos os que, aceitando a morte na aparência, a renegávamos por trás, inventando mundos onde ela não nos pudesse atingir. Quando se torna inelutável a conclusão de que o mundo sobreviverá a nós, torna-se necessário pensar e acreditar que nós é que sobreviveremos a ele. Transcendendo-o, humilhando-o, tornando-o subitamente inferior a nós, acessório, ferramental. Diremos que ele nos serviu – ou que nos serve – sem admitir a aterradora possibilidade de que todos, nós e ele, sejamos mero acaso, inexplicáveis e sem sentido como todos os acasos. Se for preciso, renegaremos a própria idéia de acaso, tecendo entre todas as coisas e eventos a rede imaginária que nos deterá em nossa queda da corda bamba rumo ao nada.
A tia caiu nessa muitas vezes; mas, no entanto, sua teimosia, sua obstinação em permanecer viva à custa de método, de achar a coisa certa a fazer e fazê-la simplesmente, fez dela uma dessas raras pessoas que acreditam mais no mundo do que em si mesmas.
E o mundo falhou-lhe, como nos falha a todos.

4 comments
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21 Junho 2009 às 10:24 pm
rose marinho prado
Nem sei o que dizer. Gosto desta narrativa. Que menino! Se as tias pudessem tê-lo enxergado. Enxergaram? Do jeito delas.
Continua !
21 Junho 2009 às 11:24 pm
Orlando
Do jeito delas, Rose, exatamente. Continuarei.
29 Junho 2009 às 12:15 pm
Guilherme
Talvez não tenha falhado. Eu não gostaria de ser um struldbruggs. Foi um prazer participar.
30 Junho 2009 às 12:26 am
Orlando
Nem eu, Guilherme. Sê bem vindo.