Tia Guiomar era uma mulher bruta. Todos eles, os italianos da minha família, eram gente bruta. Uma maneira fácil de defini-los é dizer que eram brutos, mesquinhos e apequenados. Fácil porque correta, mas também inexata: eram isso e muito mais. Eram gente, afinal, relevos acidentados. Mas havia brutalidade de sobra. Herdei muito dela.

O nome dela era Igomar, que parece nome de homem. Ninguém nem o pronunciava; virou Guiomar. Amava-nos, a mim e a meu irmão, como os filhos que nunca teve. Era, na minha infância, a mulher mais bonita que eu já tinha visto, com a boca grande e um dente amarelado em cima, na frente, talvez um pivô, que me fascinava como uma pedra que brilhasse no fundo de um rio. Hoje paro pra pensar e a lista do que me lembro dela é curta: era funcionária pública, vestia-se bem, tinha amigas de nomes italianados como Iole e Trieste, e pintava os cabelos de acaju. Dançava tango com meu pai: trançavam as pernas, cantarolavam juntos Madresielvas, ou Donde estás, corazón?. Ela se dobrava com muita graça e tinha um riso curto, decidido.

Amou uma vez, um homem de histórias que ficou conhecido como “o turco”. Dele nem nome, idade, profissão, nada se soube na minha geração; era turco e desquitado, portanto proibido para uma católica feroz como minha avó. Mas era indubitável que amou: cheiros, perfumes desse amor entranharam-se na história, surgindo de todas as letras, não importando quem a contasse. Ela e tia Ermínia costuravam, para si, para amigas e para poucos mais. Tinham mesas grandes, gizes achatados e encerados, revistas de moda dos anos 60, quando viveram seu pequeno auge e foram à Europa. Vi-a várias vezes de fita métrica pendurada ao pescoço, com alfinetes de cabeça vermelha presos na boca, óculos sobre os olhos frios (nessas horas, parecia uma dentista: tinha olhos castanhos e duros, nunca ressacados, nunca “olhos de cama” – eram olhos de fiscal), trabalhando compenetrada fazendo uma blusa para mim no velho casarão do Brás, onde havia um telefone preto de fios encapados em pano, as portas da sala eram de vaivém, e o sofá imenso era forrado com chita. Aos sábados, fazia pizza, de massa fina e crocante que era o ódio de meu pai (“pizza que presta tem que ter a massa macia e grossa”), que em todo caso comia e bastante.

Uma vez, eu moleque de dez anos, me levou a Santos. Ficamos lá alguns dias no apartamento do meu tio. Lembro de uma tarde sem energia elétrica, seu perfil romano recortado contra aquele poente que só nos ocorre mesmo quando pensamos em praia. Bebíamos café com leite, comíamos pão com presunto, eu tinha uma sensação (essas coisas da infância nunca param de voltar) de que aquela era uma vida muito certa.

Morreu uma morte que não quero contar, nem desejo que ninguém tenha. Uma vez eu não a quis ver, entrevada que estava; ia saindo de fininho, mas ela ouviu meus passos na escada e disse de dentro do quarto:

- Giugnetto, você não vem ver a tia?

Fiz o que sempre faço quando estou envergonhado: menti.

- Achei que a senhora estava dormindo.

E beijei seu rosto murcho e manchado, a pele que se ia amarelando, a vida que ia indo, indo, descolando-se com dor e deixando-a mais sozinha do que nunca, porque já meio apartada de si mesma. Há, dizem, pessoas capazes de acalmar e entender todas as mortes. Eu não: me limito a espiar com desconforto todas as muitas coisas que não compreendo.

Não chorei sua morte.