A reencarnação, segundo nos ensinam os teosofistas e seus repetidores, é um mecanismo de aperfeiçoamento do espírito pela reincidência na experiência material. Falando em língua de gente: você morre e renasce sucessivamente, experimentando o que o mundo tiver de experimentável, e vai melhorando, se aperfeiçoando, no entrementes. É como tomar lições de piano: a cada tentativa sua execução melhora um pouquinho. A essas melhorias os teosofistas, e nós a reboque, chamam evolução. Apenas, o pianista geralmente enxerga o final de seus esforços: a sala de concertos, o estúdio de gravação, o aplauso geral. Já o espírito – eu, tu, eles – permanece sem saber para onde e, principalmente, para que está evoluindo: espera-se somente que, a uma certa altura, perceba.
A seguir, apresento o estado evolucionário atual de certos luminares que, para melhoria do nosso tônus vibracional e status quo moral, por aqui reencarnaram.
Voltaire evoluiu da condição de filósofo iluminista para a de proxeneta e vagabundo. Mora no Ipiranga, tem três filhos, é sustentado pela mulher, é malquisto por parentes e vizinhos e ensaia uma oeuvre. O sorriso ainda é o mesmo.
Madame Blavatski abandonou os charutos e ocasionais levitações. A gente nacional a impacienta, por isso não pára em empregos e nem com namorados. Vende coisas indefinidas que ela mesma, indefinivelmente, faz. É meio histérica. Tem olhos claros e vive atualmente em Taboão da Serra.
Edgar Allan Poe parou de beber: agora come. Segue com a melancolia em baixa nos muitos dias de sol, mas ainda tem um gosto por palavras e sintaxe complicadas. Sabe que rima é coisa de parnasiano mas, secretamente, conta lá suas silabazinhas. Mora no Brás e tem apenas duas calças. Solteiro.
Jonathan Swift ainda não enlouqueceu de novo, mas esteve perto quando do seu terceiro divórcio. Suas propostas hoje são bem menos modestas: o comunismo já foi uma delas. Hoje, ele só propõe à sexta mulher que o deixe cochilar em paz. Mora em Ipanema e tem mais de setenta.
Primo Levi tomou o corpo de um vivente em Osasco. Está tentando ser bem-humorado, mas nem sempre dá certo. Mora na Pompéia, perto do SESC (que ele olha com medo – as chaminés).
Charles Baudelaire conseguiu afinal um lugar na Académie; pena que foi na Brésilienne. Mudaram tanto sua poesia quanto as pessoas que teve que bajular. Subscreveu o Manifesto da Escritorbrás, há alguns anos, e aderiu ao concretinismo e ao jornalismo gonzo. Continua magro e ressentido. Transita entre Porto Alegre e o Rio; finge desprezar São Paulo.
Oscar Wilde mora em Itaparica, é moreno e usa dreadlocks. Chama todo mundo de “minha rainha”, se diz “bem resolvido” e já quis fazer uma coreografia para Ivete (ela não o recebeu). Segue vivendo acima de suas posses.
Dorothy Parker tem um blog. É sarcástico e witty, e tem média de 37 acessos por dia. Ela tem seu own private Algonquin, mas não faz propaganda. Sempre que se senta, faz alguma coisa nervosa e ritmada com as mãos ou com os pés. Dorme pouco e mal. Mora em Pinheiros, mas diz que tanto faz.
Thomas Stearns Eliot continua um bom attendant lord, escrevendo discursos para políticos apenas aparentemente conservadores e sorrindo para mulheres que não lhe sorriem de volta. Desistiu da poesia e da dramaturgia. Mora em Higienópolis, e seu consumo de aspirinas é alto.
Jorge Luís Borges nasceu sabendo ler e escrever. Tem quatro anos, é manezinho da Ilha e espera ansiosamente sua maioridade, quando se mudará para qualquer capital européia que ainda não tenha virado muçulmana.
Camille Claudel está traduzindo Drummond e Hilda Hilst para o espanhol. Mora na Vila Mariana, mas queria mesmo era viver em Itapoã. É jornalista, bem branquinha, e adora o trugundum de um tambor. Tem uma pulseira no tornozelo, dois filhos, inúmeros namorados e um coração que é só amor.
P. S. tardio: faltaram dois. A saber:
Flossie Nightingale mudou de orientação e quis ser Mae West, mas atrasou-se e foi parar na ZL. Continua cuidando sem ser cuidada, amando sem ser amada, sofrendo sem ser sofrida. Trocou o candeeiro por uma chibata, que ela aliás não usa. Boa enfermeira, se automedica – sem resultado. Tem um pomar muito pouco variado.
Curzio Malaparte reencarnou no Brasil mas deu um jeito de voltar à Itália. Retornou para cá de má vontade. Continua pensando, escrevendo e falando mal de todo mundo; quando se arrepende, porém, ninguém fica sabendo. Vive onde não quer, mas com quem quer. As sobrancelhas engrossaram.

14 comments
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13 Junho 2009 às 8:10 pm
a deusa de alguma rua
Que post maravilhoso…
Quero comer mais disso, pode ser?
Um beijo
13 Junho 2009 às 11:21 pm
Orlando
Não sei se houve outros abnegados que quiseram se enterrar cá no Bananão, minha deusa, mas, se eu souber de mais algum, informo na hora.
Beijo.
14 Junho 2009 às 12:10 am
Sérgio F. Mendes
Resta-nos somente rir.
14 Junho 2009 às 12:39 am
Orlando
E a bom rir, né, Sérgio?
15 Junho 2009 às 4:38 pm
Yan Kaô
Eu nunca reencarnei. Tudo que conheceu de mim até hoje é um vídeotape de alguém por aí, de algum lugar além do terreno baldio.
15 Junho 2009 às 9:05 pm
Orlando
Nós, Yan, como bons ex-druidas, fomos árvores, bichos, salinas e poços de petróleo.
16 Junho 2009 às 2:15 am
Yan Kaô
É verdade. Há muitos dinossauros em minhas veias!
16 Junho 2009 às 9:51 am
rose marinho prado
Que engraçado! Que vire uma série, um seriado.
16 Junho 2009 às 11:04 am
Yan Kaô
Nossa vida já é um seriado, Rose. Quando você menos espera, a mando do Ibope, eles cancelam.
16 Junho 2009 às 5:58 pm
Orlando
Nas suas veias, Yan? Eu tenho um no espelho. Brilhante sua última frase.
Não dá pra virar série, Rose; não há tantos luminares assim querendo vir para cá.
16 Junho 2009 às 10:41 pm
Yan Kaô
É, meu caro, os espelhos e as fotos digitais não mentem. Recentemente dei uma entrevista a uma revista de arte e o fotógrafo profissionalíssimo, portando uma máquina ameaçadora, mostrou-me as fotos que tirou de minha pessoa. Esperava ver uma imagem guapa, um mancebo glabro. O que vi foi, numa maravilhosa imagem, apenas um velho índio gordo, triste e cansado.
16 Junho 2009 às 11:09 pm
Orlando
Índio lôco de especial, como dizem os gaúchos, Yan.
18 Junho 2009 às 9:58 am
Yan Kaô
Outro dia desses encontrei dois moleques gordinhos curtindo um som. Fui conversar com eles e descobri que éramos nós que já reencarnamos, para não perdermos tempo com morte, dor, grana pro enterro, essas bobagens…
18 Junho 2009 às 10:28 pm
Orlando
Muito sensato da nossa parte, meu caro Yan.