O sítio Mercatornet diz em suas newsletters, sem modéstia, que é “grande leitura para quem acha que nossas vidas têm uma dimensão transcendente”. A página inicial também não faz por menos: ajuda a “navegar pelas complexidades modernas”. Eu gostei, e recomendo.
* * *
Claro que transcendência é uma palavra complicada por si só. Há gente com crise de gases achando que tem visões ou sensações d’outros mundos. Há histéricos que se acham possuídos, e há espertalhões que vêem almas, passado, futuro e dinheiro.
Mas todo o bem que há no mundo é fruto ou de medo de castigo divino, ou de crença (insana?) de que nosso espírito, como a mecânica dos aviões, é melhorável. Acreditar em ordem social e punição para roubos e homicídios como um acordo razoável de mentes céticas em prol de vida mais fácil per tutti é coisa muito, muito moderna, e ainda não completamente implantada. E não inteiramente justificável: se não há céu nem inferno, se não há geena nem paraíso, se não há Nirvana nem seu contrário (que não sei qual é), e se não há a possibilidade de ir me emendando à medida que as eras passam, que me importa que a mula manque? Que crime pode, de fato, haver? A vida no geral se resume à sua capacidade de agir e reagir. Seríamos, essencialmente, amebas – com uma conversa às vezes mais interessante.
A se pensar.

12 comments
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12 Outubro 2007 às 12:28 pm
ecmelo
Acho que o contrário de Nirvana é Calypso. Ou Rolando Boldrin, que sei eu.
15 Outubro 2007 às 11:52 am
jeff
Essa é A grande questão, Orlando…
Por outro lado, no que concerne à minha vida, empatizo muito com aquele poema do Camões, no qual só para ele as coisas parecem andar “consertadas”. Às vezes é difícil não crer em carma… Olha o meu Corinthians…
18 Outubro 2007 às 1:32 pm
tarsischwald
Pois é. Mesmo em meio a “obrigatoriedade” em se crer em algo, fico pensando que seria mais simples ser ateu convicto, mas as evidências, incluso ai as científicas, apontam sempre para algo que não se entende e nem se explica.
Trocando em miúdos, a mesma ciência que tenta desmascarar efusões cantadas pela fé, não tem força para provar que Deus é um completo delírio.
Na dúvida, fico com a chance de atingir o Nirvana… Quem sabe?
T§
4 Novembro 2007 às 1:09 pm
Délia
Assisti outro dia um interessante filme chamado “Longford”. Parece basear-se em fatos reais (Lord Langford e seu contato com a psicopata assassina de crianças Myra Hinley).
Talvez seja licença poética, mas a personagem dizia que, com a idade, “precisamos” acreditar em algo. Claro que há quem seja crente fervoroso desde o útero, mas a proximidade de nossas mortes, a possibilidade de morrer, as dores, os chiados do corpo, nos fazem buscar algo além-morte?
Não depreciemos as amebas só porque não compreendemos sua linguagem (ah, querido italiano: o antropocentrismo lho entrega!). Talvez elas sim, estejam no Nirvana.
11 Novembro 2007 às 10:48 pm
Sergio Méndez e Sánchez
Anda parado aqui, não, messieur? Voltemos aos velhos textos…
15 Novembro 2007 às 1:56 am
Yan Kaô
Como é? “Beans on the ground for the Whales?”
21 Novembro 2007 às 12:34 am
Yan Kaô
Como assim? Fui censurado?
21 Novembro 2007 às 1:19 pm
Yan Kaô
Um cara escreveu isso aí embaixo…
Vaele algum comentário sobre o indivíduo??? O que acha?
A trupe da elite reacionária!!!
Assisti a febre Tropa de Elite, gostei do filme, parada bem feita. Acompanhei a discussão e cheguei a triste conclusão que o Brasil tá mesmo dividido na base do cada um por si. Os comentários da VEJA sobre o filme são na linha “tem que tratar bandido como bandido mesmo”, ou seja, remédio pra pobre que deixa o sangue correr pro asfalto é mesmo pé na porta, saco na cabeça e bala na testa. Eita país filho da puta. Quando o Estado chega à conclusão que não tem remédio a não ser subir o morro e matar uma parte “podre” da população é porque o próprio governo perdeu as rédeas. Pra quem concorda com essa visão eu só aconselho a olhar as notícias de bala perdida e até as imagens da bala comendo ao lado de gente varrendo a calçada ou de criança indo pro colégio pra ver que a intervenção não é tão cirúrgica quanto o filme faz pensar. Se a coisa é cada um por si eu fico com os meus. Periferias do Brasil, uni-vos! Antes que seja tarde! O inimigo quer sangue e a arma tá apontada…
Rodapé de jornal diz que o filme quebrou recordes de público no cinema, “mas poderia ter feito muito mais sem a pirataria”. Porra, parte da divulgação da coisa aconteceu pela malandragem em liberar a pirataria. Um passo inteligente é aprender a lidar com a pirataria e não continuar negando a parada. Vão tomar o mesmo rumo que os EUA com o mp3? Fuderam o napster e o mp3 segue cada vez mais forte. Enquanto a indústria segue tentando travar a tecnologia, a tecnologia dá um drible e corre na frente. O momento é do mais malandro. Quem marcar passo negando a realidade vai cair. Eu que estou falando, mas quem mostra é a rua.
Orlando, prá mim, esse cara, olhando a figura na foto dele, me parece aqueles camaradas que se vestem de zebra prá fazer parte da manada. Como se simular um comportamento fosse fazer com que ele faça parte da galera… aguardo comentários…
25 Novembro 2007 às 10:33 am
Orlando
Muitas respostas pendentes.
M. Melô, se for o Callypso, me torno budista agora mesmo.
Tem sido uma grande questão para mim ultimamente, Jeff, apesar da minha secura. E, na condição de parmerista, apóio todos os karmas ruins do curíntia e dos bâmbis.
Diz o odiado Olavo de Carvalho, Társis, que ateísmo não é termo de acepção única: o ateu na cultura cristã é diferente do ateu na cultura islâmica, e assim por diante – não há ateu onde esse “a” grego seja pleno, um “não” simples; ele funciona quase sempre como um “anti”, e aí se torna, conforme o caso, “anti” coisas muito diferentes. Ele também diz que é impossível, dialeticamente, demonstrar que Deus não existe (mas me pergunto se não será também impossível demonstrar, pelo mesmo método, a inexistência da Mula-sem-cabeça e dos Archies). Enquanto isso, o estômago gela, né?
Sim, doce Délia, sou antropocêntrico, pseudo-renascentista e, com o tempo, barbudo. Não sei se crer é mesmo uma necessidade; mas mesmo os que não crêem agem como se cressem, moralmente – porque nossas noções de certo e errado vêm dos parâmetros dados pelas crenças. Quem não crê nas emanações de algum deus não tem porque aceitar nenhum pressuposto de justiça, a não ser enquanto acordo para facilitar a vida – o que não interessa a todo o mundo. Sem o freio dado pela transcendência, seríamos mesmo amebas falantes e armadas, se é que não somos mesmo. Blub.
Censurados aqui, Kaô só o Gollum e seus paga-paus. Esse moço merece comentários sim, quem sabe em um post à parte, porque seriam extensos. Acho que o erro mais crasso e comum é achar que “tratar bandido como bandido” seja sinônimo de extermínio de miseráveis. Mas a conversa é comprida e espinhosa. Quando eu tiver tempo de voltar a postar, falo disso.
26 Novembro 2007 às 1:20 am
Yan Kaô
De certa forma, fiz pequenos comentários ao rapaz, e já foram suficientes para ele retirar o post do blogue em que ele quis aparecer. Mas acho que transformarei a coisa, sim, em algo mais interessante. Vou reformular meu blogue numa direção mais interessante, onde discussões como essa terão vez e atenção… recebeu a Jim?
26 Novembro 2007 às 1:23 am
Yan Kaô
Sobre a censura, achei que havia colocado um pôste aqui que não veio. Sei lá… quanto a o Gollum e seus comedores, apóio a lei marcial além da censura, fato que já está, de certa forma, quase saindo do forno… Quando isso acontecer, os ratos e covardes que o seguem saltarão do navio pôdre para a morte mais segura no mar…
14 Dezembro 2007 às 1:03 am
Alexandre Inagaki
Orlando, eis um evento que vai lhe interessar: http://sillywalkbrasil.blogspot.com/