Messias Uldenor Tamarindo tinha catorze anos e via anjos desde os sete. Ele não tinha nenhuma espécie de capacidade, dom ou poder paranormal; ele era louco.

Os anjos de Messias eram pequeninos e mudos: seus rostos eram imóveis como os das estátuas, e tinham olhos azuis que nunca piscavam, e cabelos de cores chapadas como se fossem pintados. Voavam em torno da cabeça de Messias, zunindo e fazendo piruetas as mais malucas, como moscas; e lhe faziam gestos obscenos.

O rapaz tentava se livrar deles como podia. A família o via às vezes agitando os braços e falando coisas como “sai!”, “passa!”, “xô!”, e dava de ombros: era uma sólida tradição dos Tamarindos, que remontava aos tempos da Pedra Bonita, ter pelo menos um louco em cada geração.

A polícia quis depois saber a respeito do tijolo. Messias o havia levado à festa em sua bolsa; por quê? O rapaz explicou que o pegou quando saiu de casa, e que o fez para se defender; o pai disse que não percebeu o filho pegando um tijolo e o guardando na bolsa. Ele, o pai, achou sua mentira muito astuta.

Também queriam saber por que a família deixava um filho louco andar solto, e se o moleque recebia algum tratamento. O pai ficou nervoso; respondeu: “A gente tem tanta coisa na cabeça que não dá conta de tudo”; depois, fingindo chorar, disse que sua vida era muito pobre e difícil. E se sentia muito astuto agindo assim.

Os colegas de classe de Messias o achavam esquisito, mas (diziam) todo mundo é meio esquisito. O fato de ter catorze anos e ainda estar no quarto ano primário não lhes parecia muito digno de nota.

Enfim, ele e o pai foram à festa; nenhum dos dois estava muito entusiasmado com a fanfarra ou com a orquestra de flautas doces; não havia comida de graça; o mágico era ruim. Ele então viu o anjo ao lado da cabeça de Paôla Itagyba; as piruetas e gestos obscenos eram os de sempre; o tijolo estava à mão; ele nem pensou muito no que fazia. Viu a menina caindo, ouviu os gritos das pessoas, e por um segundo de delirante felicidade achou que havia atingido o anjo, e que a gritaria era uma celebração – como se ele tivesse feito um gol. Abriu um sorriso. Murmurou: “yesssss!”.

Continua.