Uma vez que não é dotado de consciência, um tijolo não pode ascender à condição de “ser”. E, no entanto, ele existe, com uma solidez inerradicável, com peso específico e obediente às intrincadas relações químicas e moleculares relacionadas à lama assada.

É precisamente esse estado de “não ser” do tijolo que nos impede de especular a respeito das suas sensações e pensamentos. Estamos impossibilitados de recriar seu universo de experiências, de fazer a “alteridade do tijolo”: ele existiu apenas como entidade arremessada e desprovida de subjetividade; esteve completamente à mercê das forças históricas.

(Apreciadores da ciência balística teriam tido prazer em acompanhar a trajetória do pedaço de barro mal cozido. Desde o momento em que saiu da mão do seu arremessador até o instante em que atingiu a mandíbula de Paôla Itagyba, a curva descrita pelo objeto obedeceu com precisão fantástica um semicírculo perfeito de 180 graus. Um portento, que, infelizmente, não pôde ser devidamente apreciado na confusão que se seguiu.)

Quem arremessou o tijolo foi um jovem chamado Messias Uldenor Tamarindo, e ele não visava a pobre Paôla: visava um anjo que pairava a cinco centímetros do rosto dela.

Continua.