Paôla Itagyba tinha treze anos e estava se preparando para cantar “Enseñame” na festa de sua escola para o dia dos pais. Ela estava de pé num pequeno palco armado nos fundos da quadra, estrategicamente atrás do qual estava um videoquê; se você, leitor, estivesse lá, e olhasse diretamente para a jovem Paôla – esplendidamente vestida de tule cor-de-rosa, usando um chapéu de fada e com o rosto artisticamente salpicado de glitter também rosado -, veria, à sua esquerda, os três degraus de arquibancadas completamente lotados de pais e filhos. Veria, porque seria mesmo impossível ignorar, os senhores de bermudas, os telefones celulares com câmeras e as filmadoras registrando aquele momento inequecível.

Paôla havia ensaiado todos os dias nos últimos dois meses. Alimentava ambições artísticas: um dos seus sonhos mais caros então era estrelar alguma novela ou seriado adolescente. Ela havia lido muitas biografias de artistas de sua idade e sabia que muitas delas haviam sido descobertas assim, casualmente, em festinhas de escola ou de casamento, em lanchonetes, em lojas de roupas. Uma boa performance, um pouco de sorte, o céu era de fato o limite. Pode-se dizer que jogava ali o seu destino.

Alguém depois argumentou que o improvável incidente que a vitimou foi antecipado na letra da canção, que reza assim: “enseñame/a quiererte un poco más/y a estar contigo/el amor que tu me dás/desvanece el frío/quiero verte ya”. Ela não é apropriada para o dia dos pais; amor que derrete o frio expressa alguma outra relação que não a filial. Daí sua inadequação prefaciar, de algum modo imponderável, o incidente: talvez um imaginário mecanismo universal de compensações estivesse punindo o que lhe pareceu uma indecorosa insinuação de incesto.

Talvez. O imponderável, em todo caso, não tem o peso que lhe dão. De mais a mais, a ninguém naquela escola ocorreria estabelecer tais relações. O caso é que, mal o videoquê havia terminado os acordes de violão da introdução, e no exato segundo que a mandíbula de Paôla se abria para articular a primeira palavra, ela foi atingida naquela articulação por um tijolo arremessado das arquibancadas.

Continua.