Não vou dizer que me lembro onde estava há vinte anos e um dia, quando derrubaram o muro de Berlim. Lembro apenas que era uma coisa esperada – perestroika, glasnost, Gorbachev eram palavras muito ouvidas então – e via as cenas pela televisão no espírito de “bem, aconteceu o inevitável”.

Era inevitável. Ficávamos sabendo que ocasionalmente algumas pessoas fugiam para o comunismo – geralmente espiões ou traidores, ou então o Ziraldo indo colher cana em Cuba. E víamos milhares fugindo do comunismo. Gente fuzilada pulando o muro, ou empilhada em balsas-cadillacs rumo à Flórida. Era por isso que era preciso murar ou ilhar o comunismo onde ele estivesse perto de qualquer outra coisa: porque qualquer outra coisa acabava parecendo melhor, fosse um tiro na testa atrás de coca-cola, fosse a perspectiva de dançar com tubarões.

Depois dessa débâcle ouvi muita gente dizendo que o comunismo não era aquilo, não era aqueles países que se assemelhavam a campos de concentração geridos por sistemas organizados de delação e extermínio, onde os ungidos do povo não eram ungidos pelo povo e viviam de um jeito que daria vergonha a Luís XVI: aquilo era uma distorção maligna do paraíso proletário almejado, o verdadeiro comunismo ainda estava por vir.

Nunca acreditei. O melhor governo é aquele que se mete o menos possível na vida das pessoas e não lhes diz em que dias da semana pode comer manteiga ou tomar banhos de mais de três minutos, nem as convida a cagüetar o vizinho que resmunga contra o governo.

O melhor é deixar a turma em paz. Você pode até murá-los por uns anos, mas não tem jeito: uma hora se enfezam e derrubam tudo. E vão, muito inconscientes, comprar discos da Madonna, comer hambúrguer e usar tênis de cores berrantes. Coisas tristes que as pessoas se dispõem a fazer só porque podem.

Hugh Laurie é bem conhecido aqui no Brasil por fazer o engraçado e rude Dr. House; já Stephen Fry ficou brevemente célebre quanto interpretou, magistralmente, Oscar Wilde numa produção da década (do século?) passada. Na Inglaterra mamãe dos dois, eles formaram uma dupla cômica muito bacana que tinha um show chamado A bit of Fry and Laurie. Fizeram também uma adaptação magnífica de Jeeves & Wooster, personagens de P. G. Wodehouse:

Howdy-howdy-howdy-ho, sir. Os dois, junto com Emma Thompson, se formaram no célebre Footlights Club, de Cambridge, de onde saíram também os Pythons Eric Idle, Graham Chapman e John Cleese, bem como, antes deles, Peter Cook. Terra santa, portanto. Curtam esse pedacinho aí em cima; o TuTubas tem muito mais.

* * *

Numa pesquisa entre comediantes ingleses para eleger o “comediante dos comediantes”, John Cleese tirou o segundo lugar; o primeiro foi para Peter Cook, e Cleese votou nele. Não há muita coisa de Cook lançada aqui: creio que apenas “The wrong box” (“A loteria da vida”) e “Bedazzled” (“O diabo é meu sócio”), este último refilmado em 2000 com Brendan Fraser. Cook teve também uma dupla de sucesso com Dudley Moore num show chamado Not only… but also, e uma vida pessoal atribulada pelo alcoolismo. Ei-lo como Sir Arthur Streeb-Greebling, discorrendo sobre como ensinar corvos a voar debaixo d’água:

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O entregador da Veja me deu o telefone dele. “É muito melhor que o SAC”, explicou, e acreditei piamente.

P. S. tardio: Stephen Fry é veado, e sua justificativa para isso é ótima (e passa longe do besteirol de “opção” e tal). Diz ele que “Tudo começou quando saí do útero. Olhei de volta para a minha mãe e pensei: ‘Essa é a última vez que me enfio num lugar desses’”.

P. S. ainda mais tardio: eu não podia deixar passar esta maravilhosa aula de lingüística, cruelmente fiel a muitas que tive na FFLCH:

Caro Orlando

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Senhores:
não recebi as duas últimas edições da VEJA – a da semana passada, e a desta (já são 13 horas do domingo e nada dela ser entregue).
Como não as recebi, não sei qual o assunto da capa, muito menos o número da edição. Eu podia ir a uma banca ver, mas ia me sentir ainda mais idiota do que já estou me sentindo.
O que eu quero saber é:
1) por que as revistas não vêm?
2) quando começarão a vir de novo?
3) por que é tão difícil dar respostas claras a essas perguntas tão simples?
Orlando
Código de assinante: 914.851.233

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Senhores:

não recebi as duas últimas edições da VEJA – a da semana passada, e a desta (já são 13 horas do domingo e nada dela ser entregue).

Como não as recebi, não sei qual o assunto da capa, muito menos o número da edição. Eu podia ir a uma banca ver, mas ia me sentir ainda mais idiota do que já estou me sentindo.

O que eu quero saber é:

1) por que as revistas não vêm?

2) quando começarão a vir de novo?

3) por que é tão difícil dar respostas claras a essas perguntas tão simples?

Orlando - Código de assinante: xxx.xxx.xxx


O dia é das crianças, e pensando nelas (e na que fui) trago o linque do admirável sítio Art Passions. É um sítio que tem montes e mais montes de scans de ilustradores de livros infantis – de quando ilustrar era uma arte fora do alcance das concepções de gente como o Basquiat. Quem cuida é uma moça, cujo nome não sei; ela tem quase todo mundo lá. O primeiro que vos apresento é o muito maravilhoso Arthur Rackham, numa ilustração feita para Peter Pan:

São fadinhas.

São fadinhas.

Depois, o não menos apaixonante Kay Nielsen, e esta ilustração de um conto nórdico que não sei qual é:

Elas vão dançar.

Elas vão dançar.

Por fim, esta não menor maravilha de Edmund Dulac, da história do Rouxinol de, salvo engano, Andersen:

Lar de maravilhas.

Lar de maravilhas.

Há outros lá, inclusive o soberbo Aubrey Beardsley. Vão lá. Eu encerro aqui com uma senhora que não tem lá, e que é uma das favoritas da minha infância, Mabel Lucie Attwell, cujos bicos de pena nos livros de Monteiro Lobato eu amava:

Deixa a gente entrar, tia!

Deixa a gente entrar, tia!

A Wikipédia – mãe, tia e tutora deste imbecil que ora digita – explica que Ida Maria Børli Sivertsen é norueguesa, tem menos anos de vida que eu de carteira registrada, é, como Nabokov, sinestésica, já foi evangélica e anda fazendo o tipo de sucesso restrito da chamada cena indie. Ela berra bem, como se vê em Oh my God:

O som é uma derivação do punk que deve bastante em tudo, letras inclusive, à rota Runaways – L7 – P. J. Harvey – Elastica. Ela é, na conversa pelo menos, bebaça e metelona, e mistura a essas giletadas umas bolinhas de chiclete. O vídeo abaixo, I like you so much better when you’re naked, não prima pela sutileza com as bananas todas e tal, e o visual é o de 1983:

Eu gosto desse som, e da voz dela. Neste vídeo, Stella, ela começa dizendo que Deus é um pusher man que sai pelo mundo pegando putas, e a canção é simpática, bem como os berros e ganidos:

Berreiro bom sempre me ganha. Humor também.

A rua da casa da minha avó em Minas só ganhou calçamento quando eu já era quase adulto – hexágonos de cimento ou de concreto mal sapados (a grama crescia livre em seus vãos). Quando eu era menino, tudo era terra, tudo era de terra.

Eu me esbaldava num barro claro com muita mistura de areia. Em janeiro a água das chuvas corria muito limpa sobre a sílica que faiscava sobre essa lama clara. Eu ficava até os tornozelos naquilo, cavando, esperando achar uma moeda romana, um osso de dinossauro, o baú de um pirata. Eu era como Alice: solitário e fervilhante.

À tardinha, cansado, me sentava no alpendre e via procissões de mulheres negras que falavam alto e riam muito. Se uma me sorrisse, eu abaixava a cabeça, envergonhado; às vezes, tinha vontade de fugir.

Na torre da igreja havia um alto-falante que, às seis da tarde em ponto, todo sábado, tocava o “Tema de Lara”. Fazia calor; um silêncio se esticava como elástico até que as pessoas começassem a sair de suas casas e fossem à praça. Eu entrava para jantar vendo um céu imenso pelo janelão da cozinha, e deixava de me perguntar muitas coisas, absorvido.

Até ontem eu não sabia quem era Kanye West; hoje sei que é um grosso. Continuo sabendo o que já sabia sobre Beyoncé: que é gostosa, e que aeróbica não combina com a arte de cantar. Não sabia quem era Lady Gaga, e agora sei que de gagá ela tem o seu tanto. Não sabia quem era Katy Perry, agora sei, e so what. Sabia mais ou menos quem era Pink, de quem agora conheço o lado acrobático – e acrobacias não combinam com a arte de cantar. Sabia quem era o Green Day, continuo sabendo, e so what. Não sabia quem era Taylor Swift – nome que, fora de contexto, eu acharia que é marca de apresuntado; agora sei, e so what. Não sabia quem era Jay Z (eu confundo essas letras todas, esses jays todos); quando o vi chegando de limusine e acenando para ninguém na rua, achei que era um doidão – eu tinha razão.

Isso é o que me ficou de um VMA tido e havido como acima da média.

* * *

Uma vez vi rappers numa TV sem som e levei uns segundos para me tocar que não era um papo de surdos-mudos. Não entendo o gestual deles, o que querem dizer aqueles braços e ombros enfatizando versos como “eu sou fodão pra caralho”, ou “vai tomar no cu, sua piranha fudida, fica longe da minha grana”, ou “minha rola é grande e eu sou cheio dos ouro”, ou “pois é, o mundo era uma bosta antes de eu aparecer com todo esse talento da porra que só eu tenho, seus cu”.

Acho que envelhecer é isso.

Minas Gerais na minha infância era duas coisas: lâmpadas fracas e cheiros de pessoas.

Pode ser que os cômodos da casa de minha avó fossem muito grandes e os tetos muito altos: assim me pareciam, mas eu era criança. Certo é que as lâmpadas não lhes bastavam: brilhavam amarelas e fracas, com um leve zumbido. E ocas: suas próprias luzes não as preenchiam. Havia sombras sob as coisas e dos lados delas, sombras que não existiam aqui. Era uma casa de sonhos.

E as pessoas tinham seus cheiros. Eu conhecia o cheiro de minha avó e de meu avô: ambos adocicados, ambos recendendo levemente ao tabaco com que faziam seus cigarros de palha, o dele mais forte, o dela mais denso. Não era cheiro de suor: eram os cheiros deles, que impregnavam suas roupas mas não pegavam em mim.

Eram cheiros de que eu gostava.

* * *

A casa de minha avó ficava numa rua plana entre duas ladeiras. Como os degraus em que, na Ásia, se planta arroz, ou como nas estradas que contornam montanhas: apenas, de cada lado desse degrau ficavam casas, que subiam uma ladeira ou desciam outra.

A da minha avó, de esquina, descia uma rua cujo nome eu nunca soube. E sabia, mas de modo tão tênue que esqueci, o nome da rua em que ela estava. Eu não me preocupava com os nomes das ruas em Minas Gerais; até hoje pensar que as ruas pudessem ter nomes me deixa um pouco surpreso.

Minha mãe dizia que aquela casa tinha cento e cinqüenta anos. Talvez não fosse verdade. Não tinha porão; o declive acentuado da rua era compensado provavelmente com terra, e suas paredes seriam um grande muro de contenção. O banheiro ficava do lado de fora: chegava-se a ele saindo pela cozinha e descendo um degrau. Depois, mais degraus e a passagem sob um arco até chegar ao quintal, onde havia galinhas e patos, e uma casinhola fechada que indicava a fossa. À esquerda, um tanque, cujo reservatório era aberto: sobre a água quase sempre havia libélulas, e também pernilongos. Uma vez vi uma aranha amarela caminhando sem pressa por ali. Os patos não o percebiam; uma vez pus um pequeno lá dentro: ele nadou, e minha mãe ficou furiosa. Ainda hoje não entendo por quê.

Eu corria atrás das galinhas por horas. Impossível saber qual de nós era o mais bobo.

UBIK coverQuem leu Tlön, Uqbar, Orbis Tertius de Borges lembra-se de que o conto começa falando de um mundo fictício, projetado às expensas de um milionário ateu, e termina com a descoberta, chocante, de que aquele mundo começava a invadir o nosso, fazendo com que a realidade cedesse e lhe abrisse espaço, de tal sorte que um dia nosso mundo se tornasse Tlön. O conto é muito bom, muito fascinante e, sempre achei, tem mais humor do que geralmente se lhe credita.

Esse conto tem, com vinte e tantos anos de antecipação, todo o leitmotiv da obra de Philip K. Dick: a realidade que cede, ou a realidade que nada tem de real. Talvez por isso alguém disse, com evidente exagero, que Dick foi o Borges da Ficção Científica. Não foi; para ser o Borges de qualquer coisa é preciso, primeiramente, escrever bem, e Dick escrevia mal. Abusava de frases relatoriais e clichês idiotas de FC (“meus sensores indicam que…”). E, apesar disso, suas histórias são tão estranhas que acabam prendendo a atenção.

“Ubik” só havia saído, há muitos anos, em edição portuguesa da Europa-América. O título não engana ninguém: fala de ubiqüidade. Apenas, a estende ao ponto de realmente incomodar. Conta a história de um bando de paranormais que caem numa emboscada (não fica claro qual o objetivo dessa emboscada) e que são mantidos, como é praxe no contexto da história, congelados num estado de semi-vida. O patrão deles tenta fazer contato com suas consciências, enquanto a realidade que conhecem (e que não é realidade: são as imagens que suas mentes guardaram do mundo) vai cedendo, e o tempo começa a recuar. Nesse processo, seu patrão se torna ubíquo: a cara dele aparece no dinheiro, eles o vêem na TV, mensagens dele surgem pichadas em paredes de banheiros e em pacotes de cigarros tirados aleatoriamente de supermercados em cidades distantes. No final do livro, entendemos, junto com o paranormal restante, que eles estão mortos; porém uma coisa estranha acontece com o patrão, e começamos a desconfiar de que ninguém mais sabe quem está realmente morto e quem não.

Em “O homem do castelo alto”, a Segunda Guerra foi vencida pelo Eixo. Os Estados Unidos estão divididos em três pedaços: a costa oeste é província japonesa, a costa leste é província alemã, e uma faixa central se mantém independente (e irrelevante) a duras penas. Os japoneses da costa oeste colecionam a pop art vagabunda pré-guerra: gibis do Super-Homem, bolsas da Betty Boop, garrafas originais de Coca-Cola. Um sujeito enriquece vendendo isso a eles. Ao mesmo tempo, um escritor da faixa central lança livros de fantasia cujas histórias se passam num mundo onde o Eixo perdeu a guerra. E o vendedor de tranqueiras se perde nesse mundo (o nosso?) por alguns minutos: a realidade dele cede (à nossa?).

A editora Aleph, que lançou esses dois, vai lançar no ano que vem o mais estranho dos livros dele (dos que li, bem entendido): “Os três estigmas de Palmer Eldritch”, no qual esse senhor do título se transforma, sob condições especiais e não inteiramente compreensíveis, em Deus.

Dick era louco. Começou a ter alucinações a uma certa altura da vida, e acreditava que sua mente tinha sido invadida por uma forma superior de inteligência. Coemçou a achar que vivia duas vidas simultâneas, uma no seu tempo, como Philip K. Dick, e outra no século I, como um cristão perseguido pelos romanos. Ficou paranóico, achando que a KGB e o FBI queriam matá-lo; depois, se dizia possuído pelo espírito do profeta Elias. Morreu, compreensivelmente, de derrame cerebral.

Falei de Tlön, Uqbar, Orbis Tertius, mas na verdade acho que Dick está mais para Pierre Menard. A este, Borges atribuiu uma lista de obras que era “um diagrama de sua história mental”. Parece que é exatamente o caso de Dick. Borgeano, mas pela porta dos fundos.

P. S. tardio (17/09/09): leio na página 164 da edição brasileira de “Valis”, da Editora Aleph, uma referência à afirmação de Schopenhauer de que o gato que brinca hoje no jardim é o mesmo que brincava há trezentos anos. É a mesma citação que Borges faz no ensaio “O rouxinol de Keats” (in Outras inquisições; Companhia das Letras, 2007, p. 137/141). Virão daí – dessa pequena coincidência – as comparações?

Capas ridículas de gibis do Super-Homem, dica, via tuíter, do Exu Caveira Cover. Minhas favoritas abaixo. A primeira, apresentando o Super-Homem Feio:

Ela dá para qualquer um que use uma capa.

Ela dá para qualquer um que use uma capa.

A segunda, gay friendly com um saborzinho sadomasô:

O terceiro olho também tem visão de calor.

O terceiro olho também tem visão de calor.

O preço da liberdade é o eterno olhar de Raio-X:

Lois Palin versus Super Obama?

Lois Palin versus Super Obama?

Ninguém é feio para todo o mundo:

E outra: a beleza que conta é a interior.

E outra: a beleza que conta é a interior.

O amor leva a estranhas ações:

You give me... you give me the sweetest voodoo...

You give me... you give me the sweetest voodoo...

E, para encerrar, a inspiração secreta dos bolivarianos:

Libertad, kryptonita o muerte!

Libertad, kryptonita o muerte!

O pesadelo da história

Tuitando

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