Oh, método científico! Matemática!

"Que sistema reprodutor gostoso, gata!"

Uma vez li o blogue de um imbecil que dizia se sentir pessoalmente insultado toda vez que o Kaká, ao fazer um gol, mostrava uma camiseta dizendo que Deus é bacana. Para o tal blogueiro, ler “Deus te ama” é o mesmo que ler “Vai tomar no cu”: ele fica revoltado, ele quer abrir processo.

Agora li por aí que a FIFA quer punir times e jogadores de futebol que, cito, “façam alusão à religião”. De onde sou levado a concluir que aquele blogueiro não era um idiota isolado, e que Jesus virou palavrão ou símbolo de coisa feia para uma legião.

Nasci no século passado, de pai italiano que se lixava ecumenicamente para todos os credos e detestava amolação, mas não reprimia nada. Sou geneticamente avesso à devoção, portanto, mas não posso deixar de achar bem esquisito o mundo novo em que Deus, Alá e Oxalá são considerados tão daninhos à sociedade quanto cigarros. Ou em que confessar um credo seja como confessar uma tara.

Sou agnóstico e não-fumante, mas nada tenho contra fumo e reza. Bem esquisito este mundo novo em que se querem praticar restrições em nome da tolerância.

Vocês vão me perdoar, mas eu não resisti. Reação de Hitler à morte de M. J.:

- Vão tocar Heal the World de cinco em cinco minutos, até que a gente comece a cagar arcos-íris!

A lenta agonia cancerosa de tia Guiomar impressionou tia Ermínia, que era a mais velha das duas. A peregrinação baratinada das irmãs solteironas por charlatões vários (cirurgiões espíritas, massagistas, pastores evangélicos, macumbeiros, Seicho-no-Iê e terapeutas holísticos) fez com que a tia Ermínia conseguisse o prodígio que é manter, ao mesmo tempo, a fé mais fervorosa e a desconfiança mais fria. Siamesamente ligadas, incões, fé e desconfiança aumentavam juntas a cada novo tratamento fracassado que impunha a tia Guiomar.

Nada sabemos sobre os deuses, suas pressas, seus ritmos, seus critérios. Insondáveis, a uns dão tudo e com outros não falam. Com a tia Ermínia, escolheram o silêncio. Mas ela, teimosa, jamais se rendeu à idéia do insondável: a morte de tia Guiomar parecia a ela um adversário de tribunal, contra quem se podem apresentar argumentos e que podia ser vencido com a lógica certa, com um bom advogado; depois, achou, como dizem esses livros todos, que era questão de manter-se rija na rinha. Quando ela morreu, tia Ermínia passou a achar que seria vítima de uma revanche da morte. E tinha razão.

No segundo ano após a morte de tia Guiomar, tia Ermínia já era uma sombra. Pouco soubemos de suas dores; minha mãe não quis ficar com ela em nossa casa. Imaginamos que sofreu muito. Seu silêncio, surpreendente (era mulher de muitos escândalos), não era a serenidade dos morituri; era antes a mesma teimosia que recusava a perplexidade e que tantas vezes, e tão erradamente, é confundida com tenacidade.

Retomou o périplo. Ela foi novamente atrás dos emissários, dos canais, dos porta-vozes do insondável. Mas, embora fizesse tudo o que lhe fosse pedido ou ordenado, ia por ir – como quem ronda uma porta por tanto tempo que acaba esquecendo o que espera sair, transformando em hábito e neurose o que um dia foi esperança.

Os deuses não gostam de autômatos, e a tia nada tinha de Penélope, de Medéia. Ela morreu num novembro quente e dilatado – um mês em que tudo parecia estalar. Mês de muitas moscas e de verde acinzentado.

* * *

As famílias grandes têm a virtude de não nos desacostumar da morte. Não houve, na minha infância, ano em que não morresse parente. Às vezes iam dois no mesmo ano, ou até no mesmo semestre. Eu vivia com a idéia de morte presente. Não é a mesma idéia de morte iminente que, creio eu, se tem nas guerras, mas sim a noção precisa de que a morte existe, e de que tudo, depois dela, continua. Todas as gerações se acham perto do final dos tempos porque inconscientemente não acreditam que o mundo sobreviverá às suas mortes. Acham que, com o apagar das suas consciências, apagar-se-á também o mundo. Viver rodeado de mortes, se não elimina, pelo menos atenua essa impressão. Via pessoas morrendo e via o mundo continuando; e embora secretamente acreditasse que o mundo continuava porque eu é que estava vivo, a desconfiança de que isso se dava à minha revelia já estava dentro de mim. Como os anos, essa convicção só aumentaria; hoje, já sou para mim mesmo muito banal.

Coube a mim segurar uma das alças do caixão. Ao lado dos meus tios e primos, eu esperava que uma sensação de clã me invadisse; que ser Tosetto tivesse uma significação. Esperei em vão – um nome não bastava como ponte entre nossos abismos.

* * *

A tia tinha tentado permanecer aqui. Mesmo que não tivesse conscientemente percebido sua derrota, tinha sido mais honesta do que todos os que, aceitando a morte na aparência, a renegávamos por trás, inventando mundos onde ela não nos pudesse atingir. Quando se torna inelutável a conclusão de que o mundo sobreviverá a nós, torna-se necessário pensar e acreditar que nós é que sobreviveremos a ele. Transcendendo-o, humilhando-o, tornando-o subitamente inferior a nós, acessório, ferramental. Diremos que ele nos serviu – ou que nos serve – sem admitir a aterradora possibilidade de que todos, nós e ele, sejamos mero acaso, inexplicáveis e sem sentido como todos os acasos. Se for preciso, renegaremos a própria idéia de acaso, tecendo entre todas as coisas e eventos a rede imaginária que nos deterá em nossa queda da corda bamba rumo ao nada.

A tia caiu nessa muitas vezes; mas, no entanto, sua teimosia, sua obstinação em permanecer viva à custa de método, de achar a coisa certa a fazer e fazê-la simplesmente, fez dela uma dessas raras pessoas que acreditam mais no mundo do que em si mesmas.

E o mundo falhou-lhe, como nos falha a todos.

Tia Guiomar era uma mulher bruta. Todos eles, os italianos da minha família, eram gente bruta. Uma maneira fácil de defini-los é dizer que eram brutos, mesquinhos e apequenados. Fácil porque correta, mas também inexata: eram isso e muito mais. Eram gente, afinal, relevos acidentados. Mas havia brutalidade de sobra. Herdei muito dela.

O nome dela era Igomar, que parece nome de homem. Ninguém nem o pronunciava; virou Guiomar. Amava-nos, a mim e a meu irmão, como os filhos que nunca teve. Era, na minha infância, a mulher mais bonita que eu já tinha visto, com a boca grande e um dente amarelado em cima, na frente, talvez um pivô, que me fascinava como uma pedra que brilhasse no fundo de um rio. Hoje paro pra pensar e a lista do que me lembro dela é curta: era funcionária pública, vestia-se bem, tinha amigas de nomes italianados como Iole e Trieste, e pintava os cabelos de acaju. Dançava tango com meu pai: trançavam as pernas, cantarolavam juntos Madresielvas, ou Donde estás, corazón?. Ela se dobrava com muita graça e tinha um riso curto, decidido.

Amou uma vez, um homem de histórias que ficou conhecido como “o turco”. Dele nem nome, idade, profissão, nada se soube na minha geração; era turco e desquitado, portanto proibido para uma católica feroz como minha avó. Mas era indubitável que amou: cheiros, perfumes desse amor entranharam-se na história, surgindo de todas as letras, não importando quem a contasse. Ela e tia Ermínia costuravam, para si, para amigas e para poucos mais. Tinham mesas grandes, gizes achatados e encerados, revistas de moda dos anos 60, quando viveram seu pequeno auge e foram à Europa. Vi-a várias vezes de fita métrica pendurada ao pescoço, com alfinetes de cabeça vermelha presos na boca, óculos sobre os olhos frios (nessas horas, parecia uma dentista: tinha olhos castanhos e duros, nunca ressacados, nunca “olhos de cama” – eram olhos de fiscal), trabalhando compenetrada fazendo uma blusa para mim no velho casarão do Brás, onde havia um telefone preto de fios encapados em pano, as portas da sala eram de vaivém, e o sofá imenso era forrado com chita. Aos sábados, fazia pizza, de massa fina e crocante que era o ódio de meu pai (”pizza que presta tem que ter a massa macia e grossa”), que em todo caso comia e bastante.

Uma vez, eu moleque de dez anos, me levou a Santos. Ficamos lá alguns dias no apartamento do meu tio. Lembro de uma tarde sem energia elétrica, seu perfil romano recortado contra aquele poente que só nos ocorre mesmo quando pensamos em praia. Bebíamos café com leite, comíamos pão com presunto, eu tinha uma sensação (essas coisas da infância nunca param de voltar) de que aquela era uma vida muito certa.

Morreu uma morte que não quero contar, nem desejo que ninguém tenha. Uma vez eu não a quis ver, entrevada que estava; ia saindo de fininho, mas ela ouviu meus passos na escada e disse de dentro do quarto:

- Giugnetto, você não vem ver a tia?

Fiz o que sempre faço quando estou envergonhado: menti.

- Achei que a senhora estava dormindo.

E beijei seu rosto murcho e manchado, a pele que se ia amarelando, a vida que ia indo, indo, descolando-se com dor e deixando-a mais sozinha do que nunca, porque já meio apartada de si mesma. Há, dizem, pessoas capazes de acalmar e entender todas as mortes. Eu não: me limito a espiar com desconforto todas as muitas coisas que não compreendo.

Não chorei sua morte.

A reencarnação, segundo nos ensinam os teosofistas e seus repetidores, é um mecanismo de aperfeiçoamento do espírito pela reincidência na experiência material. Falando em língua de gente: você morre e renasce sucessivamente, experimentando o que o mundo tiver de experimentável, e vai melhorando, se aperfeiçoando, no entrementes. É como tomar lições de piano: a cada tentativa sua execução melhora um pouquinho. A essas melhorias os teosofistas, e nós a reboque, chamam evolução. Apenas, o pianista geralmente enxerga o final de seus esforços: a sala de concertos, o estúdio de gravação, o aplauso geral. Já o espírito – eu, tu, eles – permanece sem saber para onde e, principalmente, para que está evoluindo: espera-se somente que, a uma certa altura, perceba.

A seguir, apresento o estado evolucionário atual de certos luminares que, para melhoria do nosso tônus vibracional e status quo moral, por aqui reencarnaram.

Voltaire evoluiu da condição de filósofo iluminista para a de proxeneta e vagabundo. Mora no Ipiranga, tem três filhos, é sustentado pela mulher, é malquisto por parentes e vizinhos e ensaia uma oeuvre. O sorriso ainda é o mesmo.

Madame Blavatski abandonou os charutos e ocasionais levitações. A gente nacional a impacienta, por isso não pára em empregos e nem com namorados. Vende coisas indefinidas que ela mesma, indefinivelmente, faz. É meio histérica. Tem olhos claros e vive atualmente em Taboão da Serra.

Edgar Allan Poe parou de beber: agora come. Segue com a melancolia em baixa nos muitos dias de sol, mas ainda tem um gosto por palavras e sintaxe complicadas. Sabe que rima é coisa de parnasiano mas, secretamente, conta lá suas silabazinhas. Mora no Brás e tem apenas duas calças. Solteiro.

Jonathan Swift ainda não enlouqueceu de novo, mas esteve perto quando do seu terceiro divórcio. Suas propostas hoje são bem menos modestas: o comunismo já foi uma delas. Hoje, ele só propõe à sexta mulher que o deixe cochilar em paz. Mora em Ipanema e tem mais de setenta.

Primo Levi tomou o corpo de um vivente em Osasco. Está tentando ser bem-humorado, mas nem sempre dá certo. Mora na Pompéia, perto do SESC (que ele olha com medo – as chaminés).

Charles Baudelaire conseguiu afinal um lugar na Académie; pena que foi na Brésilienne. Mudaram tanto sua poesia quanto as pessoas que teve que bajular. Subscreveu o Manifesto da Escritorbrás, há alguns anos, e aderiu ao concretinismo e ao jornalismo gonzo. Continua magro e ressentido. Transita entre Porto Alegre e o Rio; finge desprezar São Paulo.

Oscar Wilde mora em Itaparica, é moreno e usa dreadlocks. Chama todo mundo de “minha rainha”, se diz “bem resolvido” e já quis fazer uma coreografia para Ivete (ela não o recebeu). Segue vivendo acima de suas posses.

Dorothy Parker tem um blog. É sarcástico e witty, e tem média de 37 acessos por dia. Ela tem seu own private Algonquin, mas não faz propaganda. Sempre que se senta, faz alguma coisa nervosa e ritmada com as mãos ou com os pés. Dorme pouco e mal. Mora em Pinheiros, mas diz que tanto faz.

Thomas Stearns Eliot continua um bom attendant lord, escrevendo discursos para políticos apenas aparentemente conservadores e sorrindo para mulheres que não lhe sorriem de volta. Desistiu da poesia e da dramaturgia. Mora em Higienópolis, e seu consumo de aspirinas é alto.

Jorge Luís Borges nasceu sabendo ler e escrever. Tem quatro anos, é manezinho da Ilha e espera ansiosamente sua maioridade, quando se mudará para qualquer capital européia que ainda não tenha virado muçulmana.

Camille Claudel está traduzindo Drummond e Hilda Hilst para o espanhol. Mora na Vila Mariana, mas queria mesmo era viver em Itapoã. É jornalista, bem branquinha, e adora o trugundum de um tambor. Tem uma pulseira no tornozelo, dois filhos, inúmeros namorados e um coração que é só amor.

P. S. tardio: faltaram dois. A saber:

Flossie Nightingale mudou de orientação e quis ser Mae West, mas atrasou-se e foi parar na ZL. Continua cuidando sem ser cuidada, amando sem ser amada, sofrendo sem ser sofrida. Trocou o candeeiro por uma chibata, que ela aliás não usa. Boa enfermeira, se automedica – sem resultado. Tem um pomar muito pouco variado.

Curzio Malaparte reencarnou no Brasil mas deu um jeito de voltar à Itália. Retornou para cá de má vontade. Continua pensando, escrevendo e falando mal de todo mundo; quando se arrepende, porém, ninguém fica sabendo. Vive onde não quer, mas com quem quer. As sobrancelhas engrossaram.

2745778Entre os anos 2000 e 2001, eu acompanhava a troca de e-mails abertos entre Ivan Lessa e Mário Sérgio Conti no UOL – troca que acaba de virar esse livro cuja bonita capa está aí ao lado. Lia por causa do Lessa e não do Conti. Não que o Conti seja ruim nem nada, mas quem ganha do Ivan Lessa atualmente quando o assunto é escrever em português brasileiro? Para mim, ninguém. Pois eu ia lá, lia e gostava muito dele, e menos mas também bastante do Conti (de longe o mais afetado dos dois, o mais “intelectualmente exibicionista”, como diz a imbecil crítica do imbecil crítico da imbecil página de entretenimento do imbecil UOL). Havia um lugar para que os leitores comentassem, chamado de “Mural” – a palavra parece mais tonta hoje do que há nove anos, mas na época já parecia bem idiotinha, tanto que Lessa chamava os comentaristas de “muralistas”, caçoando muito de todos. Eu era um deles: muralizava às vezes com meu nome, às vezes como uma bicha “regenerada” que discutia com outro muralista (que eu nunca soube quem era) as delícias da vida straight: ir à feira com a namoradinha nova, por exemplo. Quase inesquecível mural, como quase inesquecível é mais alguém que conheci ali, e a quem por um triz não fiz a besteira de mandar um exemplar de presente.

Estou pela metade desse livro, que inclui também os e-mails que os autores trocaram entre si, de forma particular, durante aquele tempo, e que está também vitaminado com algumas notas de rodapé muito zombeteiras (provavelmente, pelo jeitão, do Conti). Embora as muitas alusões gozadoras aos “muralistas”, parece, tenham sido suprimidas, isso na verdade não importa: é tudo uma delícia. O preço é 45 paus, mas quem for na Cultura tira, por enquanto, a 32. Vão lá.

* * *

Tenho amigos místicos – alguns comentam aqui – que dizem, uns com pompa, outros em tom normal, que coincidências não existem. Eu, sem pompa mas também sem humildade, confesso que disso nada sei. Prefiro manter minha fé em que existam sim coincidências, e que elas são os buraquinhos que a(s) divindade(s) deixou(aram) no seu plano para que a realidade respire um pouquinho, não sufoque dentro da caixinha.

Leiam com atenção:

Optou, como era de se esperar, pela melhor escolha possível: o novo Apple Powerbook G4 de 1Ghz, com tampa de alumínio e dotado de um processador PowerPC 7451, AltiVec Velocity Engine, memória RAM de 960 megas (sic) e disco rígido de 60 gigas (sic). Tinha Bluetooth e um gravador de CD e DVD integrado.

Mais que isso, era o primeiro notebook do mundo com tela de 17 polegadas, uma placa Nvidia e resolução de 1440 por 900 pixels que deixavam embasbacados adeptos dos PC e faziam esquecer tudo o que havia de novo no mercado.

Isto não é uma propaganda da Apple de 2004; são dois parágrafos copiados da página 201 do romance “Os homens que não amavam as mulheres”, de Stieg Larsson, aqui lançado com sucesso e cópia de elogios pela Companhia das Letras.

Nunca tinha visto nada parecido fora de livros de doutrinação ou daqueles onde o prop não dispensa a companhia do agit. Deve ser uma novidade, um marco. (Não assim o fato corriqueiro de ser horrendamente mal escrito.)

Quem é da minha idade, ou acha que cultura pop é cultura mesmo, sabe que um rapaz de sobrenome McFly é o herói dos filmes da série De volta para o futuro. Quem gostou dos filmes pouquinha coisa deve se lembrar que, quando num aperto, o herói dizia a si mesmo: think, McFly, think. Pense, McMosca, pense. No filme, dava resultado.

Um quarteto de meninos ingleses thought um tantinho e, maravilhado, batizou seu coletivo com esse nome, McFly. Gravaram uns discos com umas guitarras meio distorcidas e umas vozes meio agudas, e viraram ídolos das meninas de 14 anos – das quais uma habita a minha residência. Não se dêem ao trabalho de ouvir – não vale nada.

Minha menininha foi vê-los quinta-feira passada. Foi o primeiro show dela. Comprou camiseta e capa de chuva e, graças ao custosamente pago curso de inglês, entendeu 70% do que a banda disse ao público – inclusive as sacanagens e grosserias (até isso ela adorou). Chorou em uma música. Had herself a good time.

Pois é, é tempo. Dói, mas é tempo.

* * *

Motörhead e Girlschool. A guitarrera/cantante loira e lindinha é Kelly Johnson, que morreu de câncer há dois anos. Lemmy, vocês estão vendo, faz acordes no baixo – por isso o som deles é aquela maçaroca louca. E Philty “Animal” Taylor deixou as baquetas nesse playback para Tina Gayle e foi, ah, dançar. Isto é um crácico da minha existência.

* * *

O homem tem uma enorme incapacidade de lidar com a vida prática. É muito difícil comprar o gás se você está viajando naquele momento, querendo ser Dom Pedro às margens do Ipiranga. É isso que está na cabeça deles na hora do supermercado.

Isto diz Contardo Calligaris na Veja desta semana. Bullshit, a rigor, mas, sabem?, às vezes é isso mesmo. Como isto também é:

A queixa dos homens é que, agora, elas não têm mais tempo para eles. Que não cuidam mais deles. E a verdade é que eles querem muito ser cuidados.

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E obrigado por tudo. Espero que tenham respeitado suas últimas vontades.

Lendo o bom livro dos “Diálogos” entre Jorge Luís Borges e Ernesto Sabato entendi que prefiro Borges como escritor, mas meu espírito e temperamento se afinam com os do Sabato. O que se segue está entre as páginas 172 e 173 (as últimas) da edição brasileira de 2005 da Editora Globo.

SABATO: Eu acredito seriamente nos horóscopos, quando são feitos como se deve. Xul Solar fez os horóscopos dos meus dois filhos e durante muitíssimos anos eu resisti em conhecê-los. Sempre tive medo do futuro, porque no futuro, entre outras coisas, está a morte.

BORGES: Como, o senhor tem medo da morte?

SABATO: A palavra exata seria tristeza. Morrer me parece muito triste.

BORGES: Eu penso que assim como a gente não pode se entristecer por não ter visto a Guerra de Tróia, não ver mais este mundo tampouco pode entristecer, não é mesmo? Na Inglaterra, há uma superstição popular que diz que nós não saberemos que morremos até que comprovemos que o espelho não nos reflete. Eu não vejo o espelho.

SABATO: Quando Xul morreu, Lita, sua mulher, insistiu mais de uma vez para que víssemos esses estudos sobre os meus filhos. Eu nunca quis vê-los, mas Matilde sim. Sabe que foram se cumprindo?

BORGES: E como são? O que pressagiavam?

SABATO: Um misterioso entrecruzamento de fortuna e infelicidade. Isso, Borges, isso.

Penso como Borges – como me entristecer com o que não saberei? –, mas sinto como Sabato. Sempre achei que morrer é mesmo uma coisa muito triste, e que triste também é a aterradora definição que Nabokov dá da vida em sua autobiografia: uma breve fenda de luz entre duas eternidades de trevas. Me parece que o horrível e milagroso ajuntamento de complicações que constituem a minha consciência seria por si só um argumento contra a extinção pura e simples. É verdade: se me perguntassem por que minha consciência deveria ser preservada numa metafísica qualquer, eu responderia isso mesmo – porque sou tão complicado.

Não estou entrando no problema, também horrível, também aterrador, de a quem dirigir esse argumento. Que é, talvez, quem caberia interrogar sobre o banal horóscopo de Xul Solar: “misterioso entrecruzamento de fortuna e infelicidade” é o resumo de todas, todas as vidas que conheço.

O pesadelo da história

Tuitando

  • Bom, @heraldos, depende do ponto de vista, é claro. Para mim é descer. :) 5 days ago
  • Ouvi dizer, @evauviedo, que ele vai descer à terra ao som de "Bad". 6 days ago
  • Já eu, @sergiovenardi, prefiro o verso imortal de Equinócio Pindahyba: "Garbosos lhes baixaram o guaxambu". 1 week ago
  • Obrigado por consertar o "milico" para "sujeito", @mrguavaman, se bem que "sujeito", nesses lugares aí, é particípio e só. 1 week ago
  • Bem, @sergiovenardi, então o tal de Micheletti deve usar piteira, óculos escuros e unha comprida no mindinho direito. Comprida e amarela. 1 week ago